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· Oriente e Ocidente -Neste título indispensável, o autor analisa os problemas que envolvem o estudo das civilizações do Extremo Oriente. A complexidade dos problemas filosóficos e religiosos, as experiências e iniciativas do Ocidente na busca da compreensão do pensamento Asiático. Por Jean Riviere, 1978.

> Introdução Histórica
> A ciência oriental, a descoberta do Oriente
> A Psicologia dos Povos Históricos
> Aspectos Geográficos e Demográficos do Oriente
> Tentativas Ocidentais de aproximação do Oriente
> Tentativas Orientais de aproximação
> Obstáculos e uma conclusão

· O Espírito da Filosofia Oriental - Uma interessante análise sobre questões fundamentais que envolvem o estudo dos sistemas filosóficos do Oriente. Suas características e as principais temáticas, desenvolvidas num excelente ensaio de Chan Wing Tsit. 1939 (1979)

> Variedade do Pensamento Oriental
> Características da Filosofia Chinesa e Indiana
> Mente, Intuição e Conhecimento
> Lógica, Ética e Conclusão

· Filosofias de Vida em Comparação - Uma breve apresentação de diversos sistemas filosóficos asiáticos e suas estruturas fundamentais. Charles Moore, 1939 (1979).

> Escolas de Pensamento Oriental
> Formas de Pensar Oriental
> Monismo e Materialismo

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Metafísica Ocidental, Metafísica Oriental - "Se há necessidade de alguma justificação para a Metafísica, digamos que o termo aqui designa o estudo das principais características gerais do universo" - Esta é a primeira frase de George Conger em seu ensaio sobre as metafísicas ocidental e oriental, e como elas podem ser trabalhadas em conjunto (ou não). 1939 (1979)

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O Valor do estudo comparado da Filosofia - Para além do simples trabalho de comparar e fazer analogias, W. Hocking aborda a necessidade de se perceber a existência de temas comuns a todas as filosofias do mundo, o que nos permitiria ter um novo ângulo de visão sobre o próprio pensamento humano. 1939 (1979)

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O Retorno ao Passado Tradicional - Neste texto do especialista J. Chesneaux, uma análise do processo de recuperação do passado pelos países da África e Ásia. 1977

· O Encontro entre o Oriente e Ocidente - Neste texto, que serve de introdução a uma de suas obras mais famosas, o indológo H. Zimmer apresenta suas concepções sobre o encontro entre o pensamento ocidental e oriental.

> O Rugido do Despertar
> As pretensões da Ciência

· Colonialismo e Neocolonialismo - Este texto, bastante instrutivo sobre o processo de colonização empreendido pela Europa ao longo do século XIX, apresenta um panorama esclarecedor sobre as circunstâncias dos mecanismos de dominação e exploração ocidentais. Por L. Senghor e M. Madridejos, 1977.

> Teorias sobre o Colonialismo
> Revoluções e Sistemas
> Conjuntura e Panorama Internacional
> O Neocolonialismo

. As Ênfases Complementares da Filosofia Intuitiva Oriental e da Filosofia Científica Ocidental - O que diferencia, de fato, os sistemas de pensamento do Oriente e do Ocidente? O Filosofo Filmer Northrop apresenta uma discussão bastante interessante sobre o assunto, demonstrando os pontos de conjunção entre as principais filosofias asiáticas e ocidentais.1939 (1979) .

> Problemas de Terminologia
> Conceituação
> Sistemas Filosóficos
> Condições, Correlações

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A Cultura Chinesa na Visão do Ocidente - Shaw Yu Ming escreve sobre os inúmeros problemas existentes nos estudos ocidentais sobre a Cultura chinesa, seu desenvolvimento histórico e suas profundas ligações com a questão da religião e da sociedade. Numa abordagem bastante abrangente e breve, o autor capta quem seriam os principais estudiosos desta civilização e alguns temas de discussão importantes. 1978

. Novas Cartas do Extremo Ocidente - André Levy apresenta neste livro a experiência fascinante da construção de uma idéia de "ocidente" na visão dos chineses. Apresentamos aqui três textos selecionados de seu livro. 1989
> Quem descobriu quem? A China e o Ocidente
> A China como centro do mundo
> O Ocidente Longínquo

Outros textos

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O Ocidente contra a China – por Josué de Castro, 1967.

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China: Esboço sobre uma civilização de acordo com sua própria filosofia da História – por Ricardo Joppert

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O Homem e o Mundo na visão dos chineses – Por Leon Vandermeersch

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Uma visão de mundo rearticulada pela Ideografia – Por Leon Vandermeersch

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La Historiografia Tradicional China – por Michael Loewe (em espanhol).

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Situacion y Tendencia en Historia – por François Jullien (em espanhol).

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Orientalismo e Imigração, por Teresa Teófilo

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Panorama do Orientalismo Português, por Manuela Delgado

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O Orientalismo de Said (resenha), por Fábio Oliveira

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Orientalismo de Said com nova tradução, Resenha de Isabelle Somma

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CMI Brasil - O Orientalismo hoje, por Emir Sader

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Limites do orientalismo, por Mamede Jarouche

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O Fim das descobertas imperiais, por Boaventura de Sousa Santos

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O Preconceito Clássico – Por Rene Guenon

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Oriente - Ocidente – Por Rene Guenon

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A Crise do Mundo Moderno – Por Rene Guenon

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Oriente e Ocidente – uma demarcação – por Mario Sproviero

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Oriente, Ocidente e Ocidentalização: discutindo conceitos – por Helder Alexandre

. Orientalismo: a invenção do Oriente pelo Ocidente, de Edward Said (texto completo, link para baixar)

. Imperialismo e Cultura, de Edward Said (texto completo, link para baixar)

Oriente y Occidente, de Luis Racionero (texto completo, link para baixar)

. O Local da Cultura, de Homi Baba (texto completo, link para baixar)

. Religion, Filosofia y Cultura, de Raimon Panikkar

. Roubo da História, de Jack Goody


O Ocidente longínquo

Da querela dos séculos XVII e XVIII sobre a cronologia chi­nesa, permanece a idéia tenaz de que a civilização chinesa é a mais antiga do mundo. Depois que os séculos XIX e XX nos revelaram a Antigüidade egípcia e depois a babilônica, a civili­zação chinesa, mesmo não lhe devendo nada, viu-se precedida de vários milênios que a jovem arqueologia chinesa não conse­guiu ainda cobrir. O que não impede que muitos historiadores concordem na estimativa de que a China havia conquistado um avanço global- tecnologia e nível de produção - sobre o Oci­dente em torno do século III antes da nossa era, avanço que ela só perderá por volta do século XV. Dito isso, a marcha das ci­vilizações não é, evidentemente, uma competição onde cada uma delas avançaria sobre um mesmo trajeto. É inútil demorar-se sobre esses problemas espinhosos e complexos de civilizações comparadas.

No que se refere ao conhecimento que os dois grandes im­périos em expansão das extremidades da Eurásia tinham um do outro, é preciso também conceder à China um avanço relativo.

A seda figurava entre os distantes produtos de luxo de que a triunfante Roma estava ávida. Virgílio (c.70-19 a.c.) já aludia aos finos veios que os Seres arrancam com pentes das folhas de certas árvores. Plínio, o Jovem (61-c.114), que lamenta a fuga de metais preciosos devido a esse luxo inútil, uma centena de milhões de sestércios por ano, segundo afirma, não parece mais bem informado, ao falar dessas pessoas "célebres pela lã de suas florestas: os homens destacam a penugem branca das folhas regando-as com água; depois as mulheres executam o duplo trabalho de dobar e de tecer ( ... )"

Transportada em uma bola compacta, a seda, ao que cons­ta, era separada em Roma. Era, então, teci da, transformando-se em um produto de uma transparência que permitia às mulheres parecerem nuas mesmo estando vestidas - "ut denudet feminas vestis", escreve Plínio.

Era evidentemente difícil de imaginar que esse produto têxtil maravilhoso fosse tirado do casulo da lagarta, mesmo que os chineses conhecessem seu uso desde o neolítico. Os romanos não parecem ter sabido muito mais do que isso, nem mesmo ler tido alguma vaga idéia da existência de um poderoso impé­rio no Oriente extremo.

As crônicas chinesas, em contrapartida, já nas proximida­des da era cristã, falam do império dos "grandes Kin", muito longe a oeste, um país onde as pessoas são tão belas quanto os chineses, e imponentes construções de pedra ornam as cidades. Com a preocupação de arrancar o controle da seda de seus ini­migos da estepe - os Xiongnu, geralmente identificados aos hu­nos -, o imperador Wu (que reinou de 140 a 87, e está à altura de seu nome, uma vez que "wu" significa "marcial") tinha le­vado suas conquistas bem mais longe a oeste do que jamais fize­ram os romanos a este. O protetorado geral dos "territórios do Oeste" exercia sua autoridade a vários milhares de quilômetros do último posto chinês da grande muralha, até Fergana. Os chi­neses estavam desejosos de entrar em contato com as autoridades desse poderoso império ocidental, na esperança de atacar por trás a confederação inimiga dos nômades dominados pelo Xiongnu. Eles buscavam também abrir novas rotas comerciais e controlá-las.

As populações que se beneficiavam de sua situação de intermediárias, na Ásia central e no sul da Rússia européia, não tinham nenhum interesse em facilitar os contatos dos dois gran­des impérios. É significativo que no século II da nossa era uma das últimas embaixadas chinesas tenha sido persuadida pelos par­tos, esses cavaleiros imbatíveis contra os quais todas as campa­nhas romanas fracassaram, a não se arriscar em demasia na sua marcha para o oeste, além do mar Negro.

Entre os séculos III e VI, a China sucumbe às invasões bár­baras e se divide: é forçoso que ela renuncie aos grandes desíg­nios. Mas seus produtos manufaturados não deixam de passar para o oeste sob a forma de seda e porcelana. Não se encontra­ram fragmentos chineses nas escavações recentes dos subsolos do Louvre? Esqueceu-se hoje em dia da corrente do cristianismo oriental sob sua forma nestoriana, que se difunde na Ásia central e se implanta inclusive na China, ainda que em comuni­dades relativamente fechadas à cultura chinesa que as envolve. As crônicas oficiais chinesas de então conservam o eco da existência do Império Bizantino, designado pelo nome de Fulin, Fu­lom na pronúncia chinesa antiga, o que quer dizer Roma em persa - Constantinopla era sua herdeira aos olhos do mundo oriental. Teria a ascensão do Islã no século VII levado a alguma aliança sino-bizantina? Somente as fontes chinesas assinalam uma meia dúzia de supostas embaixadas de Bizâncio entre os séculos VII e VIII; de fato tudo indica tratar-se de comerciantes ou de padres. Sem dúvida, faltava uma justa apreciação do perigo. Nos séculos IX e X, o Império Chinês estará envolvido em confli­tos internos e externos bem graves com seus vizinhos imedia­tos, para poder pensar em operações de tão ampla envergadura.

Estendendo e consolidando suas conquistas, o Islã transforma-se em uma cortina praticamente opaca entre as duas metades do continente eurasiático, que se ignoram e esquecem o pouco que sabiam uma da outra. A aventura das cruzadas, e sobretudo seus fracassos, no século XII, farão reviver a idéia de atacar o inimigo por trás - fala-se, mais longe, a este, de mis­terioso e mítico reino do "preste João". Um tão grande objeti­vo não estava ao alcance da Europa feudal. O acontecimento decisivo seria a extraordinária cavalgada mongol. Paris e Pequim teriam sido provavelmente submetidas ao mesmo governo se a morte de Gengis Khan, em 1227, não tivesse incitado seus fi­lhos a desistir de estender mais a oeste suas conquistas. A Pax mongolica estabelecia comunicações relativamente seguras de les­te a oeste e no sentido contrário. Gravemente ferido, o Islã de­certo se recompunha, mas não constituía mais o obstáculo de outrora. E nessa época que se firma no imaginário do Ocidente a realidade de um Oriente muito rico, poderoso, populoso. Basta evocar os nomes de Pian del Carpini (c. 1182-c. 1251), Odorico da Pordenona (c. 1265-1331), Montecorvino (1247-1328), e so­bretudo Marco Polo ( c. 1254-1324), mas sem esquecer que de­vemos seu espantoso testemunho a um encontro fortuito com um escritor profissional em uma prisão genovesa.

Em sentido contrário, o que se passa? Por que os chineses, na esteira dos mongóis, não se lançam à descoberta do Ociden­te extremo? Em primeiro lugar, existe a distância física, que mis­sionários, comerciantes e aventureiros podem atravessar, mas não o intelectual chinês, depois que o neoconfucionismo triun­fante do século XI fez prevalecer o saber livresco sobre qual­quer outro talento. Existe o obstáculo da língua e da escritura não-alfabética. O letrado, instruído pelo chinês clássico, cuja li­teratura é venerada em todo o Extremo Oriente, ignora e até mesmo despreza as outras. Ao que se juntam o ódio e o desprezo que opõem conquistadores e conquistados. A China foi o país que resistiu por mais tempo ao irresistível avanço mongol: Cantão só cairá em 1279. No começo de sua ocupação, os ven­cedores multiplicam as medidas discriminatórias em relação aos novos súditos. Os letrados são relegados a última posição, de­pois das prostitutas. Os mongóis recorrem sistematicamente a estrangeiros em sua alta administração. Entre eles Marco Polo, que não parece ter percebido a existência de uma escrita particular na China. E a esses marginais, em relação a cultura chine­sa dominante, que se dirigem os mongóis para conduzir uma política na escala do continente asiático. Quem se lembra de que, há sete séculos, pela primeira vez na hist6ria, um homem nascido em Pequim visitou o Ocidente extremo? Ele nos dei­xou um relato detalhado de sua missão na Europa em 1287, efe­tuada a partir do mar Negro, via Constantinopla. Mas a descrição das maravilhas do Ocidente está escrita em siríaco, a língua sa­grada dos nestorianos. Os mongóis, repelidos pelos mamelucos, visavam tirar partido da solidariedade cristã para enfraquecer o Islã. Na "grande cidade" de Paris, onde Rabban Sauma, nos­so pequinês, e seus companheiros ficaram um mês e visitaram tudo o que havia, a delegação foi muito bem acolhida pelo rei da França, Filipe, o Belo, que, garante o cronista, se mostrou imediatamente favorável aos projetos que ela estava encarrega­da de apresentar:

"Se é verdade que os mong6is, mesmo não sendo cristãos, estão prontos a combater os árabes para tomar Jerusalém, con­vém que n6s, em particular, lutemos junto com eles, e, se assim quiser Nosso Senhor, com toda a nossa força". Em seguida, eles foram até o rei da Inglaterra, na Gasco­nha. Ao final de vinte dias, atingiram sua cidade (dos ingleses), Bordeaux (...) Depois de ter-se apresentado e celebrado a mis­sa, Rabban Sauma pediu ao rei Eduardo I: 'Solicitamos de tua graça a ordem de nos mostrarem todas as igrejas e santuários da região para que possamos, em nosso retorno, levar a descri­ção aos filhos da Cristandade do Leste' (...)"

Rabban Sauma, sem dúvida, nascera em uma família origi­nária da Ásia central. O fervor religioso que anima seu relato é o suficiente para mostrar que ele se destinava a seus irmãos orientais de fé cristã. Nenhum eco disso parece ter chegado aos ouvidos dos letrados chineses que, de qualquer modo, não esta­vam associados as missões organizadas pelos dirigentes mongóis.

Estes, no entanto, interessavam-se por todas as técnicas, tanto materiais quanto espirituais. O único relato de viagem que go­zou de algum crédito junto aos leitores chineses na época é o do monge taoísta da seita Plena-Sublimação, Changchun (1148-1227): ele tinha estado junto a Gengis Khan, mas sem ul­trapassar o território do atual Afeganistão.

Os descendentes dos mongóis não tardarão a deixar-se isla­mizar. Os da China serão expulsos em 1368 do país que eles tinham conquistado menos de um século antes. Para a dinastia chinesa dos Ming, que se instala, o perigo principal sempre virá dos mongóis. Não haviam eles por duas vezes, em incursões 'au­daciosas, ameaçado diretamente Pequim, em meados dos sécu­los XV e XVI?

A ameaça manchu, que só se concretizará no segundo quartel do século XVII, não parece ter sido tomada muito a sério: a fortiori, são essas populações marítimas que aparecem nas cos­tas meridionais da China depois dos portugueses a partir de 1515, com modestas esquadras, em comparação às que o imperador Yongle havia lançado três quartos de século antes. Essas pes­soas, oriundas de um país de que não se tinha até então ouvido falar, que não se encontravam mencionadas em nenhuma obra antiga, chamaram a atenção dos cronistas e da administração. Não infligiremos ao leitor uma análise desses documentos: que ele imagine 'a perplexidade das autoridades chinesas diante da variedade das transcrições que os intérpretes propunham para esses nomes desconhecidos. Elas rapidamente tiveram contato com a agressividade dos recém-chegados. O sultão de Malaca, expulso de seu território pelos portugueses, fora reclamar na corte da China. O imperador, então, intimou os agressores a restituir aquilo de que eles tinham indevidamente se apossado. Mas de que portugueses se tratava? Um modus vivendi estabeleceu-se bem depressa. A superioridade do armamento na­val dos recém-chegados tornava-os invencíveis no mar, mas fa­zia deles auxiliares inestimáveis na luta contra a pirataria e o contrabando. Para ser breve, uma vez acantonados em Macau, a partir de 1557, os portugueses não mais criaram para autori­dades chinesas problemas dignos de menção. Elas certamente não consideraram as intenções belicosas do governador das Fi­lipinas, que se gabava de poder conquistar toda a China com dez mil espanhóis e o mesmo número de mercenários japone­ses ou filipinos; não conseguirá jamais convencer Filipe a lhe fornecer esses soldados. O "fechamento" do Japão depois de 1614 e reintegração de Formosa em 1683 talvez parecessem afastar definitivamente qualquer perigo vindo do mar: o estudo de horizontes distantes provinha de uma curiosidade tanto fútil quanto malsã. Para que selecionar e precisar a massa de infor­mações acumuladas? Essa falta de motivação não podia apare­cer de modo mais claro que na parte geográfica da história oficial dos Ming. Na China tradicional, era costume que cada dinastia reinante fizesse redigir a história da precedente: a dinastia man­chu dos Qing (1644-1911) levará quase um século para produ­zir a versão definitiva da história dos Ming (1368-1644). Era um trabalho de gabinete, compilado a partir de documentos e cons­tituído de uma junção ordenada de extratos considerados signi­ficativos. Em poucas palavras, o texto, pelas próprias imperfeições, resulta na lista dos conhecimentos e desconheci­mentos das autoridades chinesas no que concerne ao Extremo Ocidente em meados do século XVIII.

Pela primeira vez, quatro países do Ocidente recebem as honras de uma compilação oficial, três ou quatro páginas cada um, das cerca de oito mil que totalizam a obra. Os países são a Espanha, Portugal, Holanda e Itália.

Está-se distante do nível de uma obra como a admirável Des­crição geográfica, histórica, cronológica, política e física do Impé­rio da China, que o padre de Halde (1674-1743) lançou em 1739. Assim, tem-se a surpresa de encontrar a Espanha em compa­nhia do arquipélago Ryu-Kyu, cuja ilha principal é Okinawa: é que os compiladores confundiam as Filipinas com a Espanha, uma como a outra chamadas de Lusong, do nome de Luçon, a ilha principal do arquipélago. Em outros trechos, contudo, parece que se considera que são os Folangji que se apossaram desses territórios. A palavra deriva da forma árabe de "franco", termo que designava os cristãos da Europa. Os chineses identi­ficavam os Folangji aos (maus) portugueses em uma situação que lembra o mito da fundação de Cartago por Dido:

"Lusong situa-se nos mares do sul, não longe de Changchou (na região de Amoy) (...) Ele trouxe o tributo em companhia de Pangasinan em 1410, mas não se manifestou mais. Em 1576, o tributo foi restabelecido como recompensa pela ajuda que de­ram os habitantes da região contra os piratas. Os Folangji ha­viam se tornado poderosos, então, e já comerciavam havia tempo com Lusong. Vendo que lhes seria fácil apossar-se do país, que era fraco, eles ofereceram ao rei presentes valiosos para que ele lhes concedesse um pedaço de terreno não maior do que uma pele de boi, suficiente para construir uma simples habitação. O rei deixou-se iludir e consentiu. Cortando a pele em finas tiras, essas pessoas obtiveram uma extensão de vários milhares de toesas, um vasto território. O rei ficou muito alarmado, mas havia feito uma promessa e não podia desdizer-se. Contentou­-se em lhes impor modestas taxas de acordo com as leis do país. Uma vez instaladas, essas pessoas puseram-se a construir forti­ficações, a posicionar armas de fogo e outros meios de defesa e observação. Finalmente, aproveitando-se da surpresa, mataram o rei, expulsaram a população e ocuparam todo o país, que conserva o nome de Lusong, sendo na realidade Folangji ( ... )"

Os portugueses, em companhia dos holandeses, figuram dois capítulos adiante, no capítulo 325 da obra, associados a vários países da Malásia e da Indonésia, evidentemente pela razão aná­loga de que eles ocupavam territórios de há muito conhecidos dos chineses. Imagina-se a inquieta perplexidade das autorida­des quando viram aparecer esses novos forasteiros no século XVII, a bordo de navios mais poderosos ainda. Ela transparece na secura do relatório administrativo:

"A Holanda, também chamada 'país dos bárbaros de cabe­los vermelhos', está localizada perto de Portugal. No correr de suas sete expedições, no começo do século XV, nos mares oci­dentais (os chineses chamavam assim os mares do sul), o almi­rante Zheng He identificou .várias dezenas de países estrangeiros, mas nenhum corresponde a esse nome de Holanda, Helan. As pessoas de lá têm os olhos fundos e o nariz longo; os cabelos, as sobrancelhas, a barba e os bigodes vermelhos. Eles têm alta estatura, o dobro da normal, e têm grandes pés ( ... )"

No final do capítulo, a Itália substitui a palavra "Europa" que constava da primeira versão. O país é imediatamente iden­tificado ao "grande Qin" e ao Fulin da Antigüidade: uma in­formação notavelmente precisa comparada com aquela referente aos outros países da Europa. Os jesuítas passaram por lá e indu­bitavelmente levaram mais do que todas as esquadras portugue­sa, espanhola ou holandesa:

"A Itália situa-se no 'grande oceano ocidental' ('grande' pa­ra distingui-lo do 'pequeno' oceano ocidental que designava os mares do sul) e nunca teve relações com a China. Quando Mat­teo Ricci, desse país, chegou a Pequim, criou o Painel completo de todos os países, declarando que o mundo se dividia em cinco continentes: 1) a Ásia, com uma centena de países, entre os quais a China; 2) a Europa: com mais de setenta países, inclusive a Itália; 3) a Líbia (Liweiya, ou seja, a África): com uma centena de países também; 4) a América, com um território ainda maior, 1101 verdade dois continentes ligados por um istmo. Enfim, o quinto, a Melanésia.

Essa seria a totalidade dos territórios que existem. Suas afirmações são inverificáveis. Todavia, não se pode duvidar inteiramente da descrição de uma pessoa que, além de tudo, tem tão bom conhecimento da terra chinesa (...)"

Termina por uma lista de eminentes sábios letrados do Ocidente, mas indicando o seu país de origem a partir do latim dos jesuítas, de tal modo que a identidade de Lusong com Yixibaniya (Hispania) ou de Folangji com Poeorduwaer (Portugalia) de­via escapar completamente aos chineses. Em todo caso, a monografia ao menos menciona a inquietação do ministério dos ritos, cuja boa-fé não parecia estar acima de qualquer suspeita. Chega mesmo a duvidar da existência desse "grande oceano oci­dental", com o argumento de que a grande compilação das ins­tituições da dinastia reinante só menciona "oceano ocidental" - foi efetivamente a solução mais fácil que os chineses encon­traram para designar o conjunto dos mares desconhecidos do Extremo Ocidente. Membros desse mesmo ministério inquietavam-se com as atividades do padre Vagnoni (1568-1640) em Nanquim, cujos discípulos pregam a superioridade das pes­soas e dos costumes daqueles estranhos países. A doutrina do Senhor do Céu (o catolicismo) desorienta as multidões e exerce sua sedução tanto sobre os letrados da classe dirigente quanto sobre o populacho, garantiam. Mais grave: era possível consi­derar que todos esses missionários fossem, na realidade, Folangji, e, então, convinha expulsá-los antes que fosse muito tarde.

Essa crescente desconfiança explica parcialmente o esquecimento em que caíram muitas obras de geografia européia e uni­versal redigidas em chinês clássico pelos jesuítas, curiosamente discretos sobre os países não-católicos, precisamente aqueles que se mostravam mais ativos no litoral chinês no século XVIII. O atraso e as lacunas de informação dos meios oficiais chineses sobre o Extremo Ocidente aparecem ainda mais claramente na­quilo que se pode considerar uma atualização do saber na maté­ria, o Ensaio de monografia de Macau, iniciado em 1744 e concluído em 1751 por dois mandarins, que, devido às altas fun­ções que exerciam na província, foram levados a entrar em contato com esses bárbaros do Ocidente. Sua informação, raramente de primeira mão, é quase toda fundada sobre uma documenta­ção escrita conforme a versão oficial que figura na história dos Ming. Os complementos da segunda parte introduzem confu­sões suplementares. Assim, nova etapa na confusão sobre a pa­lavra Folangji (francos): ficamos sabendo que tal tinha sido o nome dos portugueses que, em seguida, fizeram-se chamar Gan­xila (ou seja, Castilha, Castela, como conseqüência, sem dúvi­da, da união ibérica de 1580 a 1640) e daí em diante Folangxi (uma confusão com Folanxi, a transcriçã9 de França apresenta­da em Cantão por sua Companhia das Índias). Afirmam que os óculos, introduzidos na China um século antes, são usados no Ocidente por todas as crianças a partir de dez anos a fim de "alimentar os seus olhos". A figura de Matteo Ricci que, pas­sado dos cinqüenta, parecia sempre ter vinte anos, só é evocada para assegurar que, segundo o sábio letrado do Ocidente, a ter­ra era uma espécie de cubo suspenso no espaço. O cristianismo seria apenas um produto híbrido, mistura de budismo e de islã. A escritura de uns e de outros, além disso, trairia uma comum origem indiana. A falta de clareza das línguas do Extremo Oci­dente não as torna tão inacessíveis quanto se pensa: a prova é que os chineses que freqüentam os bárbaros são plenamente ca­pazes de aprender sua língua, que pode, além disso, ser transcri­ta em chinês, por exemplo xiaowu/céus; suolu/sol, etc. O "pequeno oceano ocidental" já estava a dez mil lis (cinco mil quilômetros) da China: o "grande" não estaria a menos de três anos de navegação. O Extremo Ocidente, então, estaria situado a uma distância quase planetária, o que seria perfeitamente tran­qüilizador se a coisa fosse exata. Não se tardaria a perceber que não era nada disso...


Por LEVY, A. Novas cartas do extremo ocidente. São Paulo: Círculo do livro, 1989.

A China como centro do Mundo

Uma olhada sobre um globo ou um mapa-múndi basta pa­ra que se evidencie o contraste entre a extremidade oeste do con­tinente eurasiático, alongado, recortado como uma luva, e a configuração do leste continental, fechado como uma caldeira. A história reúne-se à geografia para explicar a vocação maríti­ma do Ocidente, levado à dispersão, enquanto a massa continental chinesa, isolada por formidáveis maciços rochosos, tendia a produzir governos mais inclinados a estender e consolidar o território conquistado do que a se lançar em aventuras em ter­ras distantes.

Não nos estendamos muito nessas considerações, pois é preciso nuançá-las. Não englobam tudo. Por seu nome mesmo ­Zhongguo -, ao menos pela interpretação mais corrente, "país do meio", a China, que se situa no centro do universo, aparece como o modelo do umbiguismo.

Recordemos, a propósito, as observações feitas pelo padre Ricci em sua história da introdução do cristianismo na China, revista e traduzida do latim em 1615 pelo padre Nicolas Tri­gault, com o título Histoire de L'expédition chrétienne au royau­me de la Chine, 1582-1610:
"Pois ainda que os chineses tivessem tábuas cosmográficas (cartas geográficas) bastante semelhantes, com o título de descrição universal do mundo inteiro, eles reduziam a extensão da terra às suas quinze províncias e, no mar pintado em volta, jun­tavam algumas pequenas ilhas com nomes de reinos de que ha­viam alguma vez ouvido falar. Todos esses reinos reunidos em um dificilmente igualavam em tamanho a menor província do império chinês, o que fez com que, sem hesitação, ornassem seu império com o nome de todo o universo, chamando-o Thien hia (tianxia) ou, como você diria: "tudo o que está sob o céu". Quando, portanto, eles ouviram e viram que sua China estava confinada a um canto do Oriente, admiraram como algo inau­dito essa descrição tão contrastante, em sua opinião, do univer­so. Desejaram poder ler a escritura, para julgar a verdade dela".

Assim, os chineses, para quem a terra era quadrada e o céu, redondo, tinham muito de que se espantar com as concepções cosmológicas demonstradas pelo padre Ricci, mesmo que fos­sem pré-galileanas, e logo depois superadas. Como, no entanto, a cosmologia não interessava à ideologia oficial do Estado chi­nês, semelhantes idéias surpreendiam os letrados sem perturbá­-las. Uma outra observação dos padres Ricci-Trigault é, a esse respeito, reveladora:

"Era novidade que o Sol fosse maior do que toda a superfí­cie da Terra, ainda que alguns tivessem antes deixado se persua­dir do que realmente acreditado, uma vez que isso também estava escrito nos livros dos antigos matemáticos de seu reino; estes, tendo medido o Sol com instrumentos de matemática, desco­briram ter ele mais de mil léguas de extensão (...)"

O padre Trigault extasia-se com a genial e providencial idéia do padre Ricci de redesenhar seu mapa-múndi pondo a China no meio, depois de observar que, sendo a terra esférica, não de­veria ter um centro: "(...) Não se poderia encontrar nessa épo­ca uma invenção melhor para dispor esse povo a receber os mistérios da nossa religião".

Entre os hóspedes desse eminente letrado cristão do Extremo Ocidente que foi Matteo Ricci, os mais grosseiros e os mais ignorantes riam e debochavam vendo seu país reduzido a tão ridículas proporções. Os mais doutos, entretanto, ao verem a bela ordenação de paralelos e meridianos, os nomes e costumes tão variados dos diversos povos, convenceram-se de que essa era a verdade, tanto mais que "várias coisas concordavam com as antigas descrições dos chineses".

Revisto e completado inúmeras vezes, esse quadro de ma­ravilhas e curiosidades do globo terá uma brilhante acolhida, já que o mapa-múndi do padre Ricci será reeditado mais de uma dúzia de vezes entre 1584 e 1608, sem contar as edições japone­sas e coreanas.

Mas teria o padre Ricci modificado de modo duradouro a visão que o letrado chinês médio tinha do mundo? Pode-se du­vidar se se quiser considerar que essa moda teve curta duração, e que o mapa-múndi foi praticamente esquecido nos séculos se­guintes, a não ser por raríssimos especialistas.

Sem dúvida, "(o mapa-múndi) foi a causa de eles formarem uma boa opinião a respeito dos europeus em todo tipo de disci­plinas e outras ciências". De fato, essa curiosidade científica te­ve sua parte na conversão ao cristianismo de um punhado de eruditos renomados. Mas não demorará para que a atitude das autoridades e das opiniões mais influentes em relação à doutri­na vinda do Extremo Ocidente se torne mais ácida e depois se transforme em franca hostilidade.

Entre as razões dessa reviravolta, recordemos a Querela dos Ritos que, prolongando-se durante todo o século XVII, arrui­nou a ação dos jesuítas na China. Para ser breve, de que se tra­tava? Os jesuítas estavam a ponto de conseguir a façanha de apresentar às classes dirigentes chinesas um cristianismo reve­rente ao confucionismo, compreendendo o culto dos ancestrais e do céu, de que o imperador era o "filho". Denunciados por seus rivais de outras ordens da Igreja Católica, os jesuítas tinham cometido a imprudência de se defender da acusação de heresia através da intervenção do próprio imperador. Ele confirmava que esses cultos, fundamentalmente simbólicos, não podiam ser taxados de idolatria.

Mas o papa finalmente deu seu voto con­trário. Imagine-se a indignação do soberano do universo ridicularizado por um chefe de uma seita de povos bárbaros! Acrescente-se que a própria dinastia reinante era de origem estrangeira, saída das florestas dos confins do nordeste da China, e se compreenderá a desconfiança irremediável que, desde en­tão, se instalou. Os jesuítas eram aceitos na corte e apreciados por seu saber, mas proibidos no interior; isso, é claro, até a dis­solução da ordem, pelo papa, em 1773. Observemos ainda que a China, país de sedentários, rica e povoada, tinha sempre atraí­do a cobiça de seus vizinhos nômades ou caçadores: a descon­fiança em relação ao estrangeiro tornara-se, de certo modo, endêmica desde a brutal conquista mongol do século XIII. Os imperadores manchus eram naturalmente levados a ser mais aco­lhedores com os estrangeiros que lhes pudessem ser úteis do que com os chineses de origem, supostamente da etnia han.

Os manchus haviam se apossado do trono da China a par­tir de 1644, sessenta anos depois da primeira impressão do mapa­-múndi do padre Ricci. Ele ensinava aos chineses, como dizia muito bem Montaigne por volta de 1588, "quanto o mundo é maior e mais diverso do que nós e os antigos pensávamos". Mas era um efeito bem diferente que produzia sobre os chineses a idéia de que o mundo era bem mais extenso do que se ima­ginava ... Devolvamos a palavra ao padre Trigault, em seu estilo pedregoso e saboroso de flamengo, nascido em Douai em 1602:

"(...) pois via-se por essa descrição por que espaço quase desmedido de terras e de mares o reino da China estava afasta­do da Europa; essa foi a causa de eles terem diminuído o temor que tinham dos nossos, considerando, evidentemente, que não tinham nenhum motivo para ter medo de um povo que a natu­reza havia separado deles por tão grandes intervalos. Coisa que, se conhecida igualmente por todos os chineses, afastaria um gran­de obstáculo para os nossos na difusão da fé cristã por todo o reino. Pois nada nos atrapalha tanto quanto essas suspeitas".

Sabe-se quanto é difícil avaliar um perigo que não é bem conhecido, oscilando-se entre a tentação de minimizá-lo a pon­to de ignorá-lo, ou de superestimá-lo, com o risco de um enlou­quecimento mais destrutivo ainda. A China de então queria convencer-se de que esse afastamento lhe proporcionava uma trégua por um prazo indefinido. Por que ela se esforçaria em reduzir, no plano cultural, essa distância que a protegia momen­taneamente de qualquer agressão física? Nada a impulsionava para isso, ainda. Citemos uma última vez o padre Trigault, in­térprete de Matteo Ricci:

"Por causa da ignorância acerca do tamanho do mundo, os chineses formaram uma tal opinião a respeito de si próprios, que acreditam ser o império da China o único em termos de extensão territorial, administração da República ou glória das letras; e consideram todas as outras nações não somente como bárbaras, mas também as põem quase no nível de animais, acre­ditando que em nenhum outro lugar há rei, República ou letras".

Na verdade, nenhuma civilização, nenhuma cultura sobre­vive quando os que nela participam perdem a convicção de sua superioridade, globalmente falando. De fato, a conquista budista da China, terminada por volta do século VIII, havia provocado uma grave brecha nessa noção de superioridade total e radical. Acrescente que a vigorosa reação letrada, conhecida sob o no­me de "neoconfucionismo", tinha-a quase que reestabelecido depois do século XII.

Não subestimemos a profunda ação do sino-budismo, a in­fluência desse imenso trabalho dos tradutores do sânscrito para o chinês. A posição do budismo na China, entretanto, como já dissemos, não é comparável à do cristianismo no Ocidente. Com algumas efêmeras exceções, o budismo não foi jamais ad­mitido como doutrina de Estado na China. A não ser em certas obras, em certos meios populares e no passado, a Índia não ocu­pava, no imaginário, um lugar correspondente ao de Jerusalém.

É suficiente ter em mente o pluralismo cultural do Ociden­te tanto no espaço quanto no tempo para notar que não é uni­camente a "ignorância do tamanho do mundo" a responsável. Que se reflita bem: a China representa um caso único entre as civilizações que subsistem sobre o nosso globo; um caso que irritou um pouquinho os eruditos e sábios do Ocidente no sé­culo XIX: para uns, de Hegel a Marx, uma espécie de "fóssil vivo"; para outros, o produto mais ou menos teratológico de uma civilização que veio de alhures, forçosamente do Ociden­te, a dar fé às elucubrações do autor do Ensaio sobre a desigual­dade das raças humanas, o conde de Gobineau (181ó-1882), ou às de Terrien de Lacouperie, renovando as fantasiosas especula­ções do século XVll, mas passando do Egito à origem babilônica.

Os ricos frutos da pesquisa arqueológica do último meio século deram o golpe de misericórdia em todas essas teorias. O fato que permanece, teimosamente, é que a China tirou do pró­prio solo os elementos fundamentais de sua civilização, tal qual ela nos aparece ainda hoje.

Para se representar o caso chinês, seria preciso imaginar o Egito antigo com a dimensão da Europa inteira. Um Egito que teria mantido a continuidade de suas tradições multimilenares, escritura logográfica, língua e a base de suas crenças.

É claro, nossos viajantes chineses do século XIX não fun­davam sobre uma arqueologia ainda inexistente sua Íntima con­vicção de que a China era a mãe da civilização, ou seja, de todas as civilizações. A idéia do progresso global e indefinido da hu­manidade tornou-se para nós tão familiar, que é difícil compreen­der, hoje em dia, que não tenha sido sempre e em todo lugar assim. Confúcio, que viveu no século V antes da nossa era, ti­nha a sensação de estar entrando em uma idade de ferro, degra­dação de uma idade de ouro que ele situava na alta Antigüidade. Formados com essa idéia, inúmeros letrados gostavam de pen­sar que todo produto cultural estrangeiro que lhes parecia aceitável, em última instância, só podia ser de origem chinesa. E desse modo que se concluía que o Buda só podia ser Lao-Tse, disfarçado em indiano, de retorno à China. Com efeito, segundo a lenda, esse pai mítico do taoísmo, evidentemente imortal, teria partido para o oeste no começo do século V antes da nos­sa era, o que pode nos parecer um etnocentrismo exagerado. Mas pensem na força da consciência histórica dos chineses, na duração, na continuidade e no isolamento relativo de sua cultu­ra. Não é significativo que os arqueólogos chineses tenham se empenhado ao máximo para demonstrar o parentesco do ho­mem de Pequim, esse pitecantropo de há meio milhão de anos atrás, com os pequineses de hoje em dia à base de uma dentição de caráter pretensamente similar? Antes de renunciar a essa te­se, diante da diversidade de culturas neolíticas que descobriram sob o solo chinês, esses mesmos arqueólogos tinham, de modo não menos significativo, insistido na teoria "monogenética" das origens da civilização chinesa: o que quer dizer que ela se teria espalhado do mesmo modo que uma mancha de óleo a partir de um ponto central do continente e pelo desenvolvimento au­tônomo de suas características culturais iniciais. Para ser breve, tratava-se de encontrar a semente que havia produzido a árvore da civilização.

Certamente, os franceses da época de Luís XV perguntavam­-se como era possível que se fosse persa, e, em matéria de tradu­ção, só suportavam "belezas exóticas". Mas a questão não teria sequer aflorado ao espírito de um letrado chinês, intimamente convencido de que a civilização só poderia tomar as formas que lhe eram familiares.

Essa generalização, pode-se objetar, negligencia os períodos de abertura, o gosto pelo exotismo das camadas mais favoreci­das, a curiosidade tecnológica dos sábios excepcionais. O maior tradutor de todos os tempos permanece, sem dúvida, Xuanzang (602-664), o Tripitaka de Viagem ao Ocidente, romance de que Arthur Waley forneceu uma excelente versão reduzida a partir do texto final do século XVI. É difícil imaginar duas línguas mais distantes uma da outra que o sânscrito do chinês. Mas é preciso observar que esse esforço não prosseguiu além do sécu­lo X. Desde essa época até a metade do século XIX, os traduto­res foram quase todos estrangeiros. Tratava-se de obras, por assim dizer, utilitárias. Nenhuma obra puramente literária pa­rece ter sido revelada aos chineses antes do aparecimento, em 1899, de uma versão em chinês clássico da Dama das camélias (1848), de Alexandre Dumas filho pelo grande prosador que foi Lin Shu (1852-1924). Sem conhecer nenhuma língua estrangeira, ele fazia com que lhe contassem obras estrangeiras de ficção que ele adaptava: chegou-se a enumerar cento e setenta e nove!

Uma última homenagem ao chinês clássico no momento em que ele não aparecia mais como uma língua universal da co­municação escrita. O chinês escrito, onde cada signo tem um sentido, sem indicação precisa do som, tinha sem dúvida come­çado a separar-se da língua falada nos primeiros séculos da nos­sa era. Esse "chinês antigo", como é hoje chamado na República Popular da China, era igualmente a língua utilizada por todos os vizinhos "civilizados" da China, ou seja, organizados em Es­tado: Coréia, Japão, Vietnam. É verdade que manchus, mon­góis e tibetanos utilizavam um alfabeto de origem indiana, no fundo derivado, como o nosso, daquele inventado na Fenícia.

Desde o século XVII, a escrita filiforme do mongol e do manchu figurava sobre cada uma das moedas que milhões de chineses utilizavam no dia-a-dia, mas o imperador Kangxi (rei­nado: 1662-1722), nas considerações iniciais do famoso dicioná­rio chinês cuja publicação ele tinha ordenado em 1715, admitia que jamais uma escritura fonética poderia aclimatar-se à China. Além disso, a mesma palavra, "wen", cujo sentido básico é "de­senho", tem também a conotação de escritura e civilização. Um wen não-chinês seria uma contradição nos termos.

É bem verdade que a China conheceu outras invasões "bárbaras" antes da conquista manchu em 1644. Nem todos se dei­xaram achinesar tão profundamente quanto esses últimos. Mas os que não assimilaram essa cultura foram expulsos. Nunca os chineses perderam sua língua ou cultura. Pense-se nos ancestrais dos franceses, os gauleses, nas invasões germânicas e nesse produto híbrido derivado do latim que é o francês.

Quando, armado pela revolução industrial, o Ocidente veio bater às portas da China, era um desafio sem precedentes que ele apresentava.

As autoridades chinesas só começarão a realmente tomar consciência do perigo no fim da Primeira Guerra do Ópio, em 1842. Ponham-se em seu lugar: os navios portugueses que atin­giram o litoral chinês a partir de 1516 não pareciam temíveis nem pelo número nem pelo porte. O acelerado progresso de seu armamento não chamava a atenção, uma vez que as autori­dades haviam conseguido estabilizar a situação através dos mé­todos tradicionalmente utilizados em relação aos "bárbaros": controlá-los por meio da limitação de seus contatos e de suas vias de acesso, mesmo que tolerando algum comércio a fim de apaziguar suas veleidades de recorrer à força. Admitia-se que um certo número de produtos chineses era necessário para a sobrevivência daquelas pessoas que viviam nos territórios des­providos, os bárbaros das estepes: chá, metais, cereais. Os de ultramar tinham necessidades bem mais estranhas: alguns pen­savam que, sem ruibarbo, não poderiam resistir muito tempo a uma constipação crônica. O tráfico havia aumentado seria­mente depois que as outras nações ocidentais começaram a dele participar, mas as autoridades não podiam queixar-se, já que a balança comercial será favorável à China até as primeiras déca­das do século XIX. Os russos que surgiam nas fronteiras do império sino-manchu eram eficazmente mantidos à distância da China propriamente dita pelos Tratados de Nertchinsk e de Kiakhta, firmados em 1689 e 1727.

Certamente a embaixada britânica enviada a Pequim em 1793, na vã esperança de fazer com que a China se abrisse mais ao comércio, não deixou de causar alguma inquietação. E o que confirma a correspondência secreta do grande imperador que foi Qianlong (1711-1799), informado da posição dominante da marinha inglesa em Cantão e preocupado em evitar uma coali­zão das nações marítimas. Mas essa visão à distância, para a qual seguramente contribuiu a presença dos jesuítas na corte, não pa­rece ter sido partilhada por seus sucessores. Pelo desabafo do imperador Jiaqing, que reinou de 1796 a 1820, é preciso reco­nhecer que missão britânica seguinte, comandada pelo lorde Amherst em 1816, fora descortês, orgulhosa em anunciar as vi­tórias sobre Napoleão e intratável sobre a questão do ketu ou kowtow - a etiqueta da corte chinesa exigia, diante do impera­dor, uma prosternação completa, a ponto de tocar o solo com a testa. Os enviados britânicos recusavam-se até mesmo a ajoelhar-se. A reação do imperador Jiaqing traduz uma perfeita inconsciência da nova situação do mundo. Eis as explicações da rejeição da segunda embaixada britânica, na tradução de Arnold Vissiere (1858-1930):

"No 7 (leia-se: 25 da sétima lua, ou seja, 29 de agosto de 1816), dia fixado para me contemplar em audiência, teus envia­dos tendo já chegado às portas do palácio (o Palácio de Verão, que será saqueado pelas tropas anglo-francesas em 18ó0), eu ia tomar meu lugar na sala do trono quando teu primeiro envia­do declarou que uma doença súbita não lhe permitia mexer-se ou andar (...) Considerei ser possível que o primeiro enviado tivesse tido um mal-estar súbito; assim, prescrevi que deixassem entrar somente os segundos enviados. Todavia, os segundos enviados declararam que também eles estavam doentes. A descor­tesia foi então inigualável. Não os repreendi severamente, mas os fiz partir no mesmo dia, para que voltassem a seu país. Não tendo teus enviados comparecido à minha presença, não houve oportunidade para que a tua petição me fosse entregue: ela vol­tou junto com teus enviados. Entretanto, pensando que tu, rei, tinhas me endereçado essa comissão e essas oferendas através de milhares de léguas de distância, e que, se teus enviados ha­viam agido de modo desrespeitoso para me transmitir a expres­são de teus sentimentos, a falta era de teus enviados, discerni que tu, rei, tinhas um coração respeitoso e de boa vontade (...) No futuro, não haverá necessidade de encarregares teus envia­dos de vir tão longe, esforçando-se inutilmente em uma viagem por terra e por mar. Sabe somente mostrar o fundo do teu co­ração e dedicar-te ao estudo da tua pessoa com boa vontade, e poder-se-á dizer, então, sem que seja necessário que tu envies regularmente representantes à minha Corte, que caminhas pa­ra a transformação civilizadora. E a fim de que tu obedeças a esta exortação por muito tempo que te envio esta Ordem im­perial" .

Sem nos enganarmos com uma tradução que acentua a condescendência imperial, retomando exatamente uma linguagem formalizada e usada a ponto de ser banal, reconheçamos que tal linguagem trai um despreparo tanto mental quanto mate­rial. O esforço no sentido de corrigi-la será, por isso, ainda mais espetacular, meio século mais tarde. Pelas informações que eles difundiram sobre o Ocidente, a contribuição dos nossos viajan­tes letrados não poderia ser subestimada. A ignorância ­entenda-se indiferença - seguia-se a hostilidade: é preciso ter em mente esse contexto para prestar homenagem a seus dons de observação, à lucidez e à racionalidade que assinalam, não obstante as diferenças de mentalidade, a profunda unidade do espírito humano.

Foi-lhes preciso que formassem uma nova imagem do mun­do. Nada, em sua formação de letrados confucianos, os prepa­rava para tal coisa. Mal se imagina hoje em dia o que era o globo antes da revolução dos transportes. E, no entanto, tratava-se das duas metades do mesmo continente. Sem pretender examinar a fundo a documentação, revejamos algumas páginas.


Por LEVY, A. Novas cartas do extremo ocidente. São Paulo: Círculo do livro, 1989.

Quem descobriu quem? China e Ocidente

''Homo sum: humani nihil a me puto alienum" ("Sou ho­mem: considero que nada do que é humano me é estranho") - que chinês não faria sua a bela frase de Terêncio? Ela nos faz lembrar como é mais fácil julgar-se o sujeito do que o obje­to de descoberta. O etnocentrismo é para as sociedades huma­nas aquilo que o egocentrismo é para os indivíduos: está na natureza das coisas. São as formas mais excessivas que podem nos parecer patológicas. Uma literatura abundante esforçou-se por mostrar a China como sofredora no mais alto grau desse mal que leva à incomunicabilidade. Um sem-número de viajan­tes tem hoje em dia a agradável surpresa de descobrir que isso não passava de um mito. Sabe-se, no entanto, que não foi sem­pre assim. Voltaremos a tratar, mais adiante, desse famoso "um­biguismo" chinês, de suas raízes e de sua extensão. As páginas seguintes se propõem sobretudo a fazer com que se compreen­da melhor aquilo que a descoberta do Ocidente pode ter signi­ficado para os chineses, e não o que os testemunhos nos revelam sobre .eles e também sobre nós; nesse aspecto, os textos bastam-­se a si mesmos.

Atualmente, quando são suficientes apenas dois dias e uma certa quantidade de dinheiro para se transportar de um extre­mo a outro do continente eurasiático, é preciso não esquecer que essas distâncias foram durante muito tempo quase intrans­poníveis a pé ou a cavalo. Até o século XII nenhum produto, nenhuma idéia parece ter podido circular sem que passasse por numerosos intermediários. Desde a Antiguidade existia em ca­da extremo a noção confusa de uma civilização rica e poderosa que haveria na outra ponta do mundo conhecido.

O livro de Marco Polo (c. 1254-1364) foi mais uma revela­ção do que uma descoberta, o que exige um mínimo de conti­nuidade. Além disso, a obra era considerada um romance, a meio caminho entre o real e o imaginário, menos confiável que o relato de viagem de John Mandeville (de fato Jean de Bourgogne, 1322-1372). Nem um nem outro, de qualquer modo, estavam escritos em latim, prova de seriedade. Era preciso a loucura apai­xonada de um Cristóvão Colombo para acreditar no messire Polo e pretender tirar as conclusões práticas da teoria da rotundida­de de Terra, que ele pensava ser bem menor do que é na verdade.

E inútil insistir sobre a virada que as "grandes descobertas" representaram; todos sabem. O que em geral se desconhece, ex­ceção feita aos especialistas, é que a descoberta de mais profun­das conseqüências no plano intelectual foi a de um dos raros países que não foram conquistados: a China.

Que o leitor impaciente perdoe essas considerações que têm por finalidade recordar quanto foram diferentes essas descober­tas recíprocas e paralelas - com a abstração de uma defasagem de dois ou três séculos...

Ponto admitido: as "grandes invenções" que instauram o mundo moderno - bússola, pólvora e armas de fogo, impres­são e papel- são de origem chinesa. Mas elas penetraram indi­retamente, a longo prazo e no momento desejado. No século XVI, quando começam a estabelecer-se contatos diretos conti­nuados, o modelo que irá prevalecer e difundir-se é o reconstruído de acordo com as necessidades intelectuais do Ocidente. Sem chegar ao ponto de fazer desse modelo chinês o fator de­terminante na retomada de valores tradicionais na Europa do século XVIII, não subestimemos sua contribuição: um gover­no racionalmente organizado que recruta seus servidores por concurso; em suma, a utopia platônica tornada realidade! Em seu desejo de justificar sua estratégia de evangelização pela apo­logia de Confúcio, os jesuítas poliam as armas dos piores inimi­gos da religião apostólica romana.

Em La vertu des paiens, publicado em 1641, La Mothe le Vayer fazia de Confúcio (555-479 aproximadamente) uma es­pécie de fundador da moral laica:

"Com efeito, todas as artes liberais e todas as ciências seguiram o mesmo curso tanto na China como em nossos países (...) Mas depois que Confúcio lhes mostrou a importância da ética (...) ele alçou de tal modo as ciências dos costumes acima de todas as outras que, depois dele, não se formam mais bacharéis nem doutores sem examiná-los em moral".

Voltaire ia mais longe:

"Freqüentemente coloca-se o grande K'ong fu tse, que en­tre os antigos legisladores é chamado de Confúcio, entre os fun­dadores das religiões: é uma grande negligência. K' ong fu TSE é bem moderno: viveu seiscentos e cinqüenta anos antes de nossa era. Nunca instituiu nenhum culto, nenhum rito; nunca se dis­se inspirado, nem profeta (...) Ele recomenda o bem (...) Recomenda todas as virtudes".

A China tornava-se inimiga da verdade revelada. Pode nos parecer estranho, hoje em dia, que um Blaise Pascal (1623-1662) fosse afetado por isso a ponto de escrever em seus Pensamentos:

"Mas a China obscurece, dizeis; e eu respondo: A China obs­curece, mas há ali claridade a ser encontrada; procurai". Ou ain­da: "Só creio nas histórias em que as testemunhas se fariam massacrar".

A querela da cronologia chinesa fizera furor entre especia­listas, ao longo de todo o século XVIII. Com efeito, se o mun­do foi criado a 7 de outubro do ano de 3761 a.c., a existência de imperadores chineses no começo do terceiro milênio antes de nossa era punha problemas insolúveis à exegese bíblica, que então só era concebida como fundamentalista.

Tanto se escrevera sobre a China que Voltaire, em seu En­saio sobre os costumes (1756), a considerava mais bem conhecida do que muitas províncias francesas.

Do século XVI ao XVIII, somente os franceses foram aos milhares "à China": comerciantes a Cantão, marinheiros à sua costa, missionários a Pequim ou ao interior.

No sentido inverso, o número de chineses que desembarca­ram na Europa mal ultrapassa os cinqüenta. Todos estavam sob a proteção dos missionários. Seu papel de informantes sobre o Extremo Ocidente junto a seus compatriotas foi praticamente nulo. E não podia ser de outro modo, pois, do ponto de vista das autoridades chinesas, deixar a China, ou seja, o mundo civi­lizado, para voluntariamente juntar-se aos "bárbaros", não po­dia deixar de ser o feito de trânsfugas. Além disso, os jovens que os missionários recrutavam em modestos círculos de con­vertidos, graças a uma excepcional tolerância, dispunham de uma formação demasiado elementar na sua própria cultura para pre­tender exercer alguma influência nos círculos letrados.

Ex oriente lux: por que o movimento que levava o Ociden­te cristão a buscar a luz ainda mais longe a leste não se encon­traria também entre os chineses, que haviam recebido o budismo do oeste? Em primeiro lugar, o budismo, religião popular freqüentemente desprezada pelos letrados, não ocupava uma posi­ção comparável àquela do cristianismo no Ocidente. Em seguida, Confúcio ensinava que a curiosidade era um vício reles. Enfim, as raízes da cultura chinesa eram nativas, diferentemente da Eu­ropa multilíngüe, que toma as bases de sua civilização de fontes alienígenas. E o suficiente para explicar por que a descoberta do Extremo Ocidente acontecerá dois séculos mais tarde e sob uma pressão exterior se!li precedentes, processo desencadeado pela famosa Guerra do Ópio de 1840. O que se buscará no Oci­dente, antes de mais nada, são os segredos da potência e da ri­queza que permitem que nações dez, vinte vezes menores do que a China façam-na ajoelhar-se.

Teriam os jesuítas mudado o mundo se tivessem consegui­do fazer aceitar seu sino-cristianismo, se a Querela dos Ritos tivesse sido concluída a seu favor, se eles não tivessem sido ex­pulsos da França em 1764, se sua ordem não houvesse sido dis­solvida pelo papa em 1773, ruína irremediável de sua missão junto à corte imperial chinesa?

O leitor seria tentado a responder negativamente depois de ter lido a obra admirável de Jacques Gernet, Chine et christia­nisme. É claro que a presença, em geral belicosa, desses bárba­ros, provenientes de países até então desconhecidos, não deixou de suscitar a atenção das autoridades chinesas desde o século XVI. Possuímos uma documentação relativamente abundante do sé­culo XVII que atesta conhecimentos mais precisos que no sécu­lo seguinte: digamos antes, noções menos confusas. Voltaremos a isso.

Os jesuítas, depois de realizarem a façanha de dominar o difícil chinês clássico, empenharam-se em apresentar aos letra­dos chineses um quadro da Europa em conformidade com a apo­logética romana. Haviam conseguido criar entre um pequeno círculo de convertidos uma admiração entusiástica por um mun­do quase mítico. Fora desse grupelho, era uma impressão bem diferente que produziam. Desde que o extraordinário Matteo Ricci (1552-1610) tinha tomado a sábia decisão de adotar a cau­sa do confucionismo contra o budismo, os chineses cultos viam na capacidade de assimilação desses letrados vindos de paragens longínquas uma nova prova da superioridade da cultura de on­de provinham. Restou-nos o testemunho de alguns dos espíri­tos mais audazes da época, os únicos, ao que tudo indica, a se gabarem de freqüentar Li Xitai - o nome chinês de Matteo Ric­cio Eis o que Li Zhi, o filósofo "maldito", nascido em 1527 e que se suicidará na prisão em 1602, escreve a um amigo:

"É um homem do grande Oeste a mais de cem mil lis (cer­ca de cinqüenta mil quilômetros) da China (...) Agora, ele é capaz de falar e escrever com perfeição nossa língua e observar nossos usos e costumes. É um homem de rara elegância, inte­riormente dos mais refinados, mas de um exterior simples e acolhedor. Uma dezena de pessoas reunidas podem gritar ao mesmo tempo, cada um procurando tirá-lo fora de si, que ele assistirá a tudo sem se deixar perturbar por suas discussões (...) Não conheço ninguém que lhe seja comparável (...) Ele vale mais do que todos. Mas não compreendo por que veio para cá. Já o encontrei três vezes e continuo sem entender. Pensei, por um momento, que ele queria substituir o ensinamento de Confúcio pelo seu, mas isso seria por demais absurdo! Espero que não seja isso".

Nascido quarenta anos mais tarde, Xie Zhaozhe (1567-1624) viveu tempo bastante para compreender melhor a propósito de que ele vinha. Mas esse espírito reputado pela extensão de sua curiosidade e pela independência de seus julgamentos aprecia nessa sabedoria vinda de tão longe um novo sustentáculo trazi­do para o confucionismo:

"(...) Há ainda os países do Senhor do Céu, mais longe a oeste, além dos países de Buda. As pessoas ali estão impregna­das de cultura, e os letrados mostram-se de uma elegância que não é diferente daquela dos chineses. Há o caso de Li Matou (Matteo Ricci), que veio de seu país passando pela Índia e, con­tinuando para o leste, atingindo a fronteira de Kuangtung. (A província cuja capital é Cantão) ao final de quatro anos de via­gem (...)

"O Verdadeiro significado do Senhor do Céu é uma de suas obras onde ele ressalta constantemente que sua doutrina está de acordo com a de Confúcio, enquanto denigre a fundo os dis­cursos sobre o vazio e o nada do budismo e do taoísmo. Li Ma­tou gostava de repetir que o ensinamento do Buda não era outra coisa que aquele do Senhor do Céu ao qual se acrescentava a tese da retribuição dos atos em reencarnações, uma maneira de enganar o mundo. Nossa doutrina, afirmava, não está a serviço de ninguém; ela pede somente a prática do bem, pois quem faz o bem sobe ao céu, quem comete o mal cai no inferno, eterna­mente, sem remissão, sem reencarnação. Não é necessário nem se entregar a duros exercícios espirituais diante de uma parede
nem deixar a família e o mundo. É suficiente praticar o bem constantemente em sua conduta cotidiana. Regozijo-me bastante de que essas teses estejam tão próximas do confucionismo e que essas preces nos toquem tão de perto, à diferença dos budistas que desviam e alarmam o ho­mem comum ao lhe dirigir discursos absconsos e incoerentes ( ... ) Li Matou dirigia-se às pessoas com uma atenção cortês e sabia encadear argumentos sem se cansar. E preciso admiti-lo: em países estranhos há também homens dignos desse nome. Ele morreu em Pequim, nossa capital."

Será preciso admirar-se de que nenhum viajante letrado se tenha aventurado até o Extremo Ocidente antes da metade do século XIX? Que o governo chinês não tenha feito questão de completar e precisar as informações confusas e contraditórias de segunda ou terceira mão que possuía? O longíquo Ocidente podia ser objeto de curiosidades consideradas fúteis. O sonho no pavilhão vermelho, essa obra-prima da arte romanesca chine­sa escrita por volta da metade do século XVIII, menciona esses objetos exóticos do grande Oeste em cerca de uma centena de passagens. Quem não conhece a resposta altamente significati­va que fez transmitir o ilustre imperador Qianlong, que reinou de 1736 a 1796, ao enviado de Sua Majestade britânica Earl Ma­cartney, que foi a Pequim em 1793 para solicitar a abertura da China ao comércio e o estabelecimento de uma embaixada per­manente na capital chinesa?

"A corte celeste pacificou a terra entre os quatro mares. Seu único objetivo é o de agir da melhor maneira possível para es­tabelecer o melhor dos governos e assegurar o bom andamento dos negócios do Estado, sem atribuir o menor valor a esses ob­jetos estranhos ou preciosos que vós Nos trazeis. Todavia, dei ordem expressa à repartição à qual compete aceitar os artigos que tu me envias, ó Rei, em consideração à sinceridade de teus bons votos e à distância que fizeste teus enviados percorrerem (...) Como eles puderam constatar, não Nos falta nada. Jamais atribuímos valor às coisas curiosas ou engenhosas, e não temos nenhuma necessidade dos objetos manufaturados de teu país (...)"

A concepção das relações internacionais que implica essa mensagem imperial explica o contraste das tentativas ociden­tais em face da preocupação chinesa de guardar as distâncias.

A isso se somam concepções econômicas que têm suas raí­zes no "legismo": leia-se Le livre du prince Shang, admiravelmente traduzido para o francês por Jean Lévi: somente a terra é produtora de riquezas, as quais o artesanato apenas transfor­ma. O comércio, que assegura sua distribuição, é fundamental­mente parasitário. Convém desencorajá-lo. Ele só é tolerado fora do território por benevolência para com os bárbaros habitan­tes de regiões marginais que não fornecem o necessário à sobrevivência. E melhor lhes conceder aquilo que eles tomariam pela força, caso pressionados pela necessidade. E se o imperador da China é o monarca universal do mundo útil, as relações internacionais se resumem na homenagem tributária, comércio dis­farçado sob a aparência do reconhecimento do prestígio eminente do soberano chinês - o que o condena a dar aos en­viados de longe presentes de valor superior aos que eles trazem. Compreende-se que a preocupação do Estado chinês tenha sido de limitar o número dessas custosas homenagens e conduzir as relações exteriores ao nível mais baixo possível.

O mercantilismo que levava os governos das nações ociden­tais a estabelecer ligações de comércio e de indústria era impen­sável no quadro da ideologia oficial do Estado chinês. Nada motivava seus súditos à exploração de terras longínquas, a não ser a pressão econômica para os mais desprovidos dentre eles ou os marginais, "chefes de piratas" duramente perseguidos. De seus contatos com o Extremo Ocidente, não deixaram eles mes­mos nenhum testemunho. Resta a motivação religiosa de um punhado de letrados convertidos ao catolicismo no século XVII, o momento mais favorável para a propaganda da Companhia de Jesus. Como se explica que nenhum deles tenha atravessado os mares e narrado o que havia visto e ouvido? Primeiramente, é preciso lembrar que, para esses convertidos de boa família, o cristianismo aparecia como um confucionismo renovado e pu­rificado. Desincumbir-se das obrigações familiares permanecia, a seus olhos, um dever incontornável. A única solução para a poligamia, que obstava a sua conversão - os jesuítas eram intratáveis sobre esse ponto -, era a morte em grande escala de suas esposas. Para arriscar a própria vida em uma viagem para longe era preciso que eles estivessem livres da responsabilidade de sustentar a família. Conseqüentemente, só podiam pensar nis­so em uma idade avançada, quando o desprezo da cultura física os havia já desqualificado para esse tipo de experiência. Wu Li (1631-1718), pintor e calígrafo renomado, poeta e músico foi, pelo que sabemos, o único a ter considerado a hipótese. Viúvo, chegou a ir até Macau em companhia do padre Couplet (1622-1693) que, finalmente, embarca sem ele a 5 de dezembro de 1681- esse último atinge a costa da Holanda a 5 de outubro do ano seguinte: um retorno três vezes mais rápido do que a viagem de ida! Wu Li contentara-se em entrar no noviciado de Macau em 1682: a 1688, é ordenado padre em Nanquim.

Os jovens catecúmenos chineses que os missionários con­seguiam enviar à Europa geralmente decepcionavam seus hós­pedes ávidos de informações sobre os países do outro lado do mundo. Henri Bertin (1720-1792), o "pequeno ministro" de Luís XV, na esperança de manter um fluxo de informações, havia estatuído uma pensão para dois deles em seu retorno à, China - tratava-se de Louis Ko (Gao Ren, 1732-1790) e de Etienne Yang (Yang Zhide, 1733-1798), os mesmos que haviam inspira­do a Turgot suas Réflexions sur la formation et la distribution des richesses, publicadas em 1764. Seu mentor, o padre Benoist (1715-1774), envia a Bertin uma defesa significativa da manu­tenção da pensão para seus protegidos, a 12 de outubro de 1766:

"Os dois pensionados, Yang e Ko, quando partiram para a Europa, não tinham da China outro conhecimento além da­quele que, enquanto crianças, podiam ter adquirido em sua via­gem de Pequim a Macau (...) Durante todo o tempo em que estiveram conosco eu cuidava para que não tivessem contato com quem quer que fosse, a não ser com o mestre chinês que lhes tinham designado (...) Eles testemunharam as precauções que se tomam para que os europeus não se comuniquem com qualquer chinês além daqueles que foram designados para esse fim. Eles tinham visto o que acontecera, nos anos precedentes, quando Mr. Flint, um inglês, tinha tentado chegar por mar até um porto da província de Pequim (Tientsin) com a intenção de levar até a Corte as reclamações que ele tinha contra os man­darins de Cantão ( ... ) Foi reconduzido a Cantão e condenado a três anos de prisão por ter tentado penetrar no império a des­peito da proibição de fazê-lo, extensiva a todos os estrangeiros (os mandarins concussionários foram processados) ( ... ) O es­critor que lhe proporcionara o acesso foi condenado à decapi­tação ( ... ) Um e outro perceberam que, mesmo em seu próprio país, estariam mais em segurança e também em melhores con­dições conosco do que em qualquer lugar. Se eles tivessem para si um lugar fora da nossa Igreja, não poderiam manter aí lugar, nem livros, nem máquinas, nem qualquer outra coisa da Europa; não poderiam escrever, enviar ou receber escritos europeus nem conservá-los sem levantar suspeitas que logo os fariam ser descobertos ( ... ) Se, por exemplo, um chinês entrasse aqui em qualquer manufatura, a examinasse e se informasse do que se passa, mesmo que estivesse fazendo isso por alguém, certamen­te seria interrogado, examinado; e se daria por feliz se fosse ape­nas banido sem receber bastonadas, empregadas com bastante liberalidade contra imprudências bem menores do que essa se­ria considerada".

Fiquemos com esse exemplo: ele basta para compreender­mos que outros fatores de dissuasão se juntavam à falta de mo­tivações positivas. Freqüentar estrangeiros não completamente achinesados dá margem às piores suspeitas: a busca de uma alian­ça externa visando a uma subversão interna. Todas as dinastias chinesas foram fundadas pela força das armas: elas sempre te­meram ser derrubadas do mesmo modo. Além do mais, em 1644 a dinastia então reinante, dos Qing, da Manchúria, havia de­posto a dos Ming pela conquista, aproveitando-se precisamente de uma subversão interna.

O príncipe podia permitir-se curiosidades que teriam sido malsãs para seus súditos. O mesmo padre Michel Benoist, o su­perior da residência dos jesuítas franceses em Pequim, já se re­gozijava de uma estada de vinte e três anos na China quando, no ano seguinte, dirigia as seguintes linhas ao ministro de Luís XV:

"Aquilo que, na França, aguça a curiosidade das pessoas de bom gosto, as ciências, a filosofia, a história natural, tudo isso agrada também ao imperador, e se os súditos tivessem as mes­mas inclinações que o Príncipe, ou melhor, se os costumes e a forma de governo da China não fossem um obstáculo, logo haveria na China academias para as ciências e as artes que mere­ceriam a estima das nossas academias na França (...)"

Os nossos letrados chineses serão levados a descobrir o Ex­tremo Ocidente em decorrência de incitações bem diferentes daquelas que lançaram os europeus sobre os mares do globo. E, entretanto, um século antes que Magalhães (1480-1521) reali­zasse a primeira circunavegação do planeta (1519-1522), o im­perador Ming Yongle, que reinou de 1403 a 1425, havia confiado ao eunuco Zheng He a direção de expedições de bem maior en­vergadura,- com a utilização de até vinte mil homens, e alcan­çando a África e a Arábia -, a sétima e última tendo sido empreendida sob o reinado do sucessor de Yongle. Não haviam dito aos portugueses que atingiam pela primeira vez a costa do Malabar que, oitenta anos antes, eles tinham sido precedidos por "brancos" a bordo de barcos bem mais possantes? Por que nada resultou disso, a ponto de que a memória desses aconteci­mentos teria se perdido se não fossem os esforços dos historia­dores modernos para restaurá-la? Pierre Chaunu propunha como explicação dessa falta de continuidade no espírito de iniciativa o regime alimentar pouco carnívoro dos chineses! Admitamos que uma economia agrária sem pastagem é menos gulosa por terras e, com o auxílio do arroz, capaz de sustentar uma popu­lação bem mais numerosa sem emigração.

Teriam os chineses se interessado mais, e antes, pelo Oci­dente longínquo, caso fossem carnívoros? Se o leitor não está inteiramente convencido disso, que ele nos perdoe a prossecu­ção dessa tentativa de explicações com algumas reflexões sobre as condições históricas e culturais.


Por LEVY, A. Novas cartas do extremo ocidente. São Paulo: Círculo do livro, 1989.

Webgrafia

Buscando atender a demanda do público por uma bibliografia mais acessível, o Projeto Orientalismo elaborou uma lista de textos em Português e Espanhol ligadas aos temas presentes em nossa página. Na ausência de um determinado material que julguemos ser importante e que não tenha similar nestas duas línguas, apresentaremos uma versão em outro idioma.
Azevedo, M.. O pensamento do extremo oriente. SP: Cultrix, 2000. - Uma introdução geral ao pensamento do extremo-oriente.

Ballard, R. As religiões no mundo atual. RJ: Salvat, 1979. - Abordagem sobre as questões que envolvem o desenvolvimento dos processos religiosos do século XX.

Barth, F. et alli Teorias da Etnicidade. SP: UNESP, 1999 - Neste livro, uma importante discussão sobre os limites antropológicos dos processos de interação cultural

Braudel, F. Gramática das Civilizações. SP: Martins Fontes, 1989. - O Grande historiador F. Braudel apresenta uma visão geral sobre o desenvolvimento das civilizações mundiais.

Campbell, J. As Máscaras de Deus. SP: Palas, 1999. - O especialista em mitologia Joseph Campbell apresenta uma história da mitologia mundial (em português, somente os dois primeiros volumes foram lançados)

Cipola, C. Canhões e velas na primeira fase da expansão européia (1400-1700). Lisboa: Gradiva, 1989 - Cipola apresenta uma discussão interessante sobre a tecnologia das armas e de navegação nos primeiros tempos das descobertas.

Coomaraswamy, A. O que é civilização. RJ: Siciliano, 1992. - Um dos poucos trabalhos traduzidos do importante filósofo e historiador da Arte Ananda Coomaraswamy, que nos apresenta uma visão única da Filosofia, fusão dos pensamentos orientais e ocidentais.

Eliade, M. & Kitagawa, J. Metodologia de la Histoira de las Religiones. Madrid: Paidos, 2000.- Neste trabalho, o especialista em História das Religiões, Mircea Eliade, apresenta uma proposta metodológica para o estudo das diversas formas de culto e crença históricas em todas as civilizações.

Eliade, M. e Couliano, I. Dicionário das Religiões. SP: Martins Fontes, 1999.- Neste trabalho, Mircea Eliade apresenta um importante suporte para a compreensão dos sistemas religiosos através de definições, termos importantes, etc.

Eliade, M. Tratado da História das Religiões. Lisboa: ASA, 1997. - O Tratado da História das Religiões constitui um dos grandes instrumentos para o estudo das religiões, através de uma laboriosa sistematização empreendida por M. Eliade.

Frederic, L. Dictionaire de la Civilization Indienne. Paris: Laffont, 1994 - Importante dicionário para os estudiosos da civilização indiana, contendo um sem-número de verbetes esclarecedores sobre esta cultura.

Geertz, C. A Interpretação das Culturas. RJ: Zahar, 1978. - Proposta teórica e metodológica para o estudo das culturas pelo antropólogo C. Geertz.

Gernet, J. Dictionaire de la Civilization chinoise. Paris: Albin Michel, 1998 - O veterano e experiente sinólogo J. Gernet nos apresenta um vasto conjunto de verbetes sobre os mais diversos tópicos da civilização chinesa.

Jung, C. Psicologia e Religião Oriental. SP: Círculo do livro, 1990. - Um dos primeiros estudos sobre a psicologia oriental, feito por C. Jung, fornecendo-nos uma nova perspectiva sobre o pensamento asiático.

Madridejos, M. & Senghor, L. Colonialismo e Neocolonialismo. RJ: Salvat, 1979. - Uma apresentação geral sobre a questão do processo neocolonialista no final dos anos 70, envolvendo as nações da África e Ásia.

Moore, C. (org.) Filosofia: Oriente e Ocidente SP: Cultrix, 1978 - Um dos primeiros trabalhos interculturais promovidos pelo encontro de autores orientais e ocidentais, tratando de temas diversos do pensamento asiático e europeu.

Panikkar, K. A dominação Ocidental na Ásia. RJ: Paz e Terra, 1977. - K. Panikkar lançou, neste livro, uma proposta totalmente inovadora para compreender o processo de dominação colonial europeu, mostrando a versão oriental deste longo processo de conflito e relacionamento tortuoso.
Panikkar, R. El Dialogo intercultural. Espanha: Esteban, 1993 - Raimon Panikkar, pensador indo-espanhol, oferece-nos neste texto uma apresentação importante sobre as teorias e formas pelo qual podem se dar os processos de interação e diálogo cultural.

Riviere, J. Oriente e Ocidente. RJ: Salvat, 1978. - Manual importante para compreender as perspectivas geradas pelo encontro entre as culturas orientais e ocidentais.

Riviere, J. Arte Oriental. RJ: Salvat, 1979. - Neste trabalho, J. Riviere nos proporciona uma sucinta, porém esclarecedora, introdução a história da arte indiana e chinesa.

Ronan, C. A. História Ilustrada da Ciência de Cambridge. RJ: Zahar, 1987 volumes 1- 4. - Um dos poucos trabalhos traduzidos de Colin Ronan, um dos maiores especialistas em História da Ciência da Atualidade. Neste texto, uma introdução a história da Ciência desde a antiguidade até os dias de hoje.

Said, E. Orientalismo. SP: Companhia das Letras, 1993 - E. Said é um dos autores mais influentes da atualidade na questão dos estudos orientalistas. Sua discussão centra-se basicamente nos problemas de compreensão e estereótipos criados pelos europeus acerca dos orientais.

Said, E. Imperialismo e Cultura. SP: Companhia das letras, 1993 - Neste trabalho, E. Said investe na questão do imperialismo europeu e suas formas de traduzir o Oriente subjugado.

Semprini, A. Multiculturalismo. SP: EDUSC, 1999 - Texto introdutório, porém elucidativo, acerca do problema do Multiculturalismo.

Silva, T. (org.) Identidade e diferença. Petrópolis: Vozes, 2000 - Três ensaios fundamentais para se pensar a questão da identidade e da diferença nos dias de hoje.

Toynbee, A. Um Estudo da História. SP: Martins Fontes, 1987 - Arnold Toynbee foi um dos primeiros pesquisadores a pensar a História do Mundo como uma teia complexa de relações, sem as compartimentações culturais que caracterizam os estudos comuns. Em seu grande trabalho, dividido em 6 livros, uma apresentação sobre suas teorias e concepções.

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Bibliografia

Buscando atender a demanda do público por uma bibliografia mais acessível, o Projeto Orientalismo elaborou uma lista de textos em Português e Espanhol ligadas aos temas presentes em nossa página. Na ausência de um determinado material que julguemos ser importante e que não tenha similar nestas duas línguas, apresentaremos uma versão em outro idioma.
Azevedo, M.. O pensamento do extremo oriente. SP: Cultrix, 2000. - Uma introdução geral ao pensamento do extremo-oriente.

Ballard, R. As religiões no mundo atual. RJ: Salvat, 1979. - Abordagem sobre as questões que envolvem o desenvolvimento dos processos religiosos do século XX.

Barth, F. et alli Teorias da Etnicidade. SP: UNESP, 1999 - Neste livro, uma importante discussão sobre os limites antropológicos dos processos de interação cultural

Braudel, F. Gramática das Civilizações. SP: Martins Fontes, 1989. - O Grande historiador F. Braudel apresenta uma visão geral sobre o desenvolvimento das civilizações mundiais.

Campbell, J. As Máscaras de Deus. SP: Palas, 1999. - O especialista em mitologia Joseph Campbell apresenta uma história da mitologia mundial (em português, somente os dois primeiros volumes foram lançados)

Cipola, C. Canhões e velas na primeira fase da expansão européia (1400-1700). Lisboa: Gradiva, 1989 - Cipola apresenta uma discussão interessante sobre a tecnologia das armas e de navegação nos primeiros tempos das descobertas.

Coomaraswamy, A. O que é civilização. RJ: Siciliano, 1992. - Um dos poucos trabalhos traduzidos do importante filósofo e historiador da Arte Ananda Coomaraswamy, que nos apresenta uma visão única da Filosofia, fusão dos pensamentos orientais e ocidentais.

Eliade, M. & Kitagawa, J. Metodologia de la Histoira de las Religiones. Madrid: Paidos, 2000.- Neste trabalho, o especialista em História das Religiões, Mircea Eliade, apresenta uma proposta metodológica para o estudo das diversas formas de culto e crença históricas em todas as civilizações.

Eliade, M. e Couliano, I. Dicionário das Religiões. SP: Martins Fontes, 1999.- Neste trabalho, Mircea Eliade apresenta um importante suporte para a compreensão dos sistemas religiosos através de definições, termos importantes, etc.

Eliade, M. Tratado da História das Religiões. Lisboa: ASA, 1997. - O Tratado da História das Religiões constitui um dos grandes instrumentos para o estudo das religiões, através de uma laboriosa sistematização empreendida por M. Eliade.

Frederic, L. Dictionaire de la Civilization Indienne. Paris: Laffont, 1994 - Importante dicionário para os estudiosos da civilização indiana, contendo um sem-número de verbetes esclarecedores sobre esta cultura.

Geertz, C. A Interpretação das Culturas. RJ: Zahar, 1978. - Proposta teórica e metodológica para o estudo das culturas pelo antropólogo C. Geertz.

Gernet, J. Dictionaire de la Civilization chinoise. Paris: Albin Michel, 1998 - O veterano e experiente sinólogo J. Gernet nos apresenta um vasto conjunto de verbetes sobre os mais diversos tópicos da civilização chinesa.

Jung, C. Psicologia e Religião Oriental. SP: Círculo do livro, 1990. - Um dos primeiros estudos sobre a psicologia oriental, feito por C. Jung, fornecendo-nos uma nova perspectiva sobre o pensamento asiático.

Madridejos, M. & Senghor, L. Colonialismo e Neocolonialismo. RJ: Salvat, 1979. - Uma apresentação geral sobre a questão do processo neocolonialista no final dos anos 70, envolvendo as nações da África e Ásia.

Moore, C. (org.) Filosofia: Oriente e Ocidente SP: Cultrix, 1978 - Um dos primeiros trabalhos interculturais promovidos pelo encontro de autores orientais e ocidentais, tratando de temas diversos do pensamento asiático e europeu.

Panikkar, K. A dominação Ocidental na Ásia. RJ: Paz e Terra, 1977. - K. Panikkar lançou, neste livro, uma proposta totalmente inovadora para compreender o processo de dominação colonial europeu, mostrando a versão oriental deste longo processo de conflito e relacionamento tortuoso.
Panikkar, R. El Dialogo intercultural. Espanha: Esteban, 1993 - Raimon Panikkar, pensador indo-espanhol, oferece-nos neste texto uma apresentação importante sobre as teorias e formas pelo qual podem se dar os processos de interação e diálogo cultural.

Riviere, J. Oriente e Ocidente. RJ: Salvat, 1978. - Manual importante para compreender as perspectivas geradas pelo encontro entre as culturas orientais e ocidentais.

Riviere, J. Arte Oriental. RJ: Salvat, 1979. - Neste trabalho, J. Riviere nos proporciona uma sucinta, porém esclarecedora, introdução a história da arte indiana e chinesa.

Ronan, C. A. História Ilustrada da Ciência de Cambridge. RJ: Zahar, 1987 volumes 1- 4. - Um dos poucos trabalhos traduzidos de Colin Ronan, um dos maiores especialistas em História da Ciência da Atualidade. Neste texto, uma introdução a história da Ciência desde a antiguidade até os dias de hoje.

Said, E. Orientalismo. SP: Companhia das Letras, 1993 - E. Said é um dos autores mais influentes da atualidade na questão dos estudos orientalistas. Sua discussão centra-se basicamente nos problemas de compreensão e estereótipos criados pelos europeus acerca dos orientais.

Said, E. Imperialismo e Cultura. SP: Companhia das letras, 1993 - Neste trabalho, E. Said investe na questão do imperialismo europeu e suas formas de traduzir o Oriente subjugado.

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Toynbee, A. Um Estudo da História. SP: Martins Fontes, 1987 - Arnold Toynbee foi um dos primeiros pesquisadores a pensar a História do Mundo como uma teia complexa de relações, sem as compartimentações culturais que caracterizam os estudos comuns. Em seu grande trabalho, dividido em 6 livros, uma apresentação sobre suas teorias e concepções.