Aspectos Geográficos e Demográficos do Oriente

O mais importante nas relações entre o Oriente e o Ocidente é o seu peso geográfico e demográfico. Terá talvez interesse precisar um pouco.
Os limites geográficos que separam a Europa da Ásia foram sempre imprecisos. O Império Romano, orgulhoso do seu poder, distinguia unicamente entre "civilizados" e "quem não falava nem grego nem latim", ou seja, os bárbaros. O Oriente começava a leste dos limites territoriais imperiais. Era a ali a região do sol nascente e o Oriente vem de Oriri, nascer.
O Ocidente, que assimilou a herança greco-romana, herdou também este ponto de vista. Sentindo-se forte devido ao seu poder econômico e militar, classificou sempre a Ásia como uma terra de bárbaros, de pagãos, de infiéis com estranhos costumes. A Europa considerou-se sempre como o único mundo civilizado. Como conseqüência, tinha o direito natural de impor seu modo de pensar e sua maneira de viver, ao resto do planeta. Evidentemente que esta atitude não facilitou a aproximação. Assim o Oriente inclui de fato o que não é o Ocidente judaico-grego ou seja, o mundo islâmico (Norte de África e Oriente próximo) e o resto da Ásia.O que representa este conjunto de povos orientais geográfica e demograficamente?
A Ásia é fundamentalmente maciça e eminentemente continental, com as montanhas mais altas do mundo: zona de planícies antigas e de recentes cadeias montanhosas. A Alta Ásia dos geógrafos é a imensa meseta tibetana, rodeada de enormes montanhas (ao Sul o Himalaia e ao Norte o Astin Tagh); bloco maciço que se prolonga para Leste nas montanhas chinesas e indochinesas, para noroeste no Tien- chan e nos Altai, para oeste no Pamir e nas cadeias que continuam para o Irão, Ásia Menor e Arábia. Para Norte deste imenso nó transversal encontram-se as planícies da Sibéria e do Turquestão; para Sul, as planícies aluviais da Mesopotâmia, da Índia, da China e do Sueste Asiático (Indo- china).
A Ásia tem dois tipos de clima: a noroeste, o continental seco, a Ásia dos desertos; a sueste, a Ásia das monções, com duas estações muito vincadas: a quente e a úmida. A vegetação está de acordo com o clima: a Ásia continental tem bosques e estepes, separa- dos por grandes desertos; a Ásia das monções tem a selva das savanas, os bosques tropicais do Sul e os de coníferas no Norte.
A Índia é, juntamente com a China, um dos países mais povoados do mundo; conta com 626 milhões de habitantes, numa superfície de 3 287 782 km 2. O aumento anual, muito importante, oscila entre os 12 e os 15 milhões de indivíduos, sendo assim a taxa de crescimento de 2,5 %. Trata-se de um país essencialmente agrícola, que tem cerca de 600 000 aldeias. A agricultura é tradicional e o país está, de um modo geral, mal cultivado. A criação de gado é uma das maiores do mundo, mas de qualidade medíocre.
A China, com 9.561.000 km2, têm cerca de 1 bilhão de habitantes. O aumento anual com uma taxa de quase 2% atinge uns 12 a 13 milhões de indivíduos. O chinês é tradicionalmente agricultor, mas o gigantesco esforço para desenvolver a indústria modificou profundamente sua estrutura. O Japão ocupa um território de 377.619 km2 e tem 115 milhões de habitantes, com uma taxa de crescimento de 1%. A população agrícola não é superior a 30%, dedicando-se o restante à indústria. A Ásia, a massa continental mais extensa do planeta, tem uma superfície de 44.586.814 km2, com um total aproximado de 2,5 bilhões de habitantes, enquanto a população mundial é calculada em 4,13 bilhões de indivíduos (dados de 1978). Para o ano 2000 a população esperada é de 6 bilhões de indivíduos. Salta a vista o decréscimo intenso das taxas de natalidade na Europa, em contraposição a da Ásia, que quase duplica neste período. As causas gerais desta tremenda explosão demográfica são o desenvolvimento da farmacopéia e uma melhor higiene, o que reduz a taxa de mortalidade e aumenta a média de vida e as taxas de nascimento.

As dificuldades de uma aproximação cultural.
O conhecimento do Oriente parece agora necessário - e poderíamos dizer mesmo obrigatório -, mas está semeado de dificuldades, de preconceitos, de obstáculos e de incompreensão. Mas, como em seguida se verá, esta situação não se deve só a uma grande ignorância, que poderia se corrigir com estudo, reflexão e boa educação; o problema é mais profundo, porque corresponde a atitudes inconscientes do espírito, à psicologia, à semântica.
Estas dificuldades na aproximação entre o Oriente e o Ocidente foram salientadas por vários autores, como F. C. S. Northrop, que afirmou que a diferença principal entre a atitude de ambos os mundos provém de uma oposição fundamental entre seus conceitos filosóficos básicos e que o problema é, na realidade, espiritual. Carl Gustav Jung (1875-1961), no seu comentário psicológico, publicado no “Livro Tibetano da Grande Libertação”, estuda detalhadamente este assunto.
Segundo Jung, o Ocidente deu origem a uma nova doença: o conflito entre ciência e religião que, no fundo, é uma incompreensão mútua. Este dualismo não existe no Oriente, porque nenhuma ciência se baseia na paixão experimental e nenhuma religião na fé pura. O Oriente baseia-se na realidade psíquica, ou seja, na psique enquanto principal e única condição de existência. A introversão é o "estilo do Oriente", atitude coletiva e habitual, assim como a extroversão é o "estilo do Ocidente", o que dá origem a um grave conflito emocional entre os pontos de vista orientais e ocidentais. O Ocidente cristão considera o homem dependente da graça divina ou, pelo menos, da Igreja. enquanto que instrumento terrestre exclusivo e divinamente reconhecido para a redenção humana. O Oriente insiste no fato de que o homem é a única causa do seu desenvolvimento superior, visto que acredita na libertação por si próprio. A oposição aparece assim como fundamental: o Ocidente é e permanece profundamente cristão, quer dizer, judaico-grego no que se refere à sua psicologia; subestima a psique humana, por considerá-la suspeita. Para ele, o homem é pequeno e está muito próximo do nada. Jung sublinha: "Por medo, arrependimento, promessas, sub- missão, humilhação voluntária, boas ações e elogios,' mostra-se favorável ao grande poder, que não está nele, mas sim no outro, na única Realidade. Se transpusermos ligeiramente a fórmula e substituirmos Deus por qualquer outro poder, por exemplo, o mundo ou o dinheiro, teremos uma imagem completa do homem ocidental-constante, temente, piedoso, voluntariamente humilhado, empreendedor, cobiçoso e violento no seu afã em conseguir bens terrenos... A atitude oriental contradiz a ocidental e vice-versa. Não se pode ser um bom cristão e conseguir por si só a redenção, nem um bom budista e adorar a Deus... A atitude oriental viola os valores especificamente cristãos: Não podemos negar o reconhecimento deste fato." O problema complica-se ainda mais com as antinomias semânticas, com as formas de linguagem. Sabemos, já há muito tempo, que entre as formas lingüísticas e o pensamento há uma relação e uma correspondência mútuas, mas o uso das mesmas palavras, para significar ou traduzir conceitos diferentes, é fonte de confusões, mal-entendidos e graves incompreensões. Toda a questão semântica desempenha, a nosso ver, um papel importante na aproximação entre o Oriente e o Ocidente. Ludwig Wittgenstein (1889-1951), Benedetto Croce (1866-1952) e Ferdinand de Saussure (1857-1913) demonstraram o drama da solidão de quem fala, da incomunicabilidade humana, drama de massas, como sustenta José Ortega y Gasset (1883-1955): “duo si idem, non est idem” (dois, embora idênticos, não formam uma identidade). Os psicólogos assinalaram a existência de uma estreita relação entre a rede de associações verbais e os fenômenos emotivos e de memória; a língua "aprende-se", segundo os hábitos de uma determinada sociedade; o significado da palavra está em função do uso, mas do uso socialmente regulamentado e coordenado. A comunicação humana, por intermédio da linguagem, não é perfeita; há sempre um número indefinido de possibilidades, convenções parciais de compreensão, o que deu lugar, entre os especialistas da língua, ao chamado "ceticismo semântico".