A China como centro do Mundo

Uma olhada sobre um globo ou um mapa-múndi basta pa­ra que se evidencie o contraste entre a extremidade oeste do con­tinente eurasiático, alongado, recortado como uma luva, e a configuração do leste continental, fechado como uma caldeira. A história reúne-se à geografia para explicar a vocação maríti­ma do Ocidente, levado à dispersão, enquanto a massa continental chinesa, isolada por formidáveis maciços rochosos, tendia a produzir governos mais inclinados a estender e consolidar o território conquistado do que a se lançar em aventuras em ter­ras distantes.

Não nos estendamos muito nessas considerações, pois é preciso nuançá-las. Não englobam tudo. Por seu nome mesmo ­Zhongguo -, ao menos pela interpretação mais corrente, "país do meio", a China, que se situa no centro do universo, aparece como o modelo do umbiguismo.

Recordemos, a propósito, as observações feitas pelo padre Ricci em sua história da introdução do cristianismo na China, revista e traduzida do latim em 1615 pelo padre Nicolas Tri­gault, com o título Histoire de L'expédition chrétienne au royau­me de la Chine, 1582-1610:
"Pois ainda que os chineses tivessem tábuas cosmográficas (cartas geográficas) bastante semelhantes, com o título de descrição universal do mundo inteiro, eles reduziam a extensão da terra às suas quinze províncias e, no mar pintado em volta, jun­tavam algumas pequenas ilhas com nomes de reinos de que ha­viam alguma vez ouvido falar. Todos esses reinos reunidos em um dificilmente igualavam em tamanho a menor província do império chinês, o que fez com que, sem hesitação, ornassem seu império com o nome de todo o universo, chamando-o Thien hia (tianxia) ou, como você diria: "tudo o que está sob o céu". Quando, portanto, eles ouviram e viram que sua China estava confinada a um canto do Oriente, admiraram como algo inau­dito essa descrição tão contrastante, em sua opinião, do univer­so. Desejaram poder ler a escritura, para julgar a verdade dela".

Assim, os chineses, para quem a terra era quadrada e o céu, redondo, tinham muito de que se espantar com as concepções cosmológicas demonstradas pelo padre Ricci, mesmo que fos­sem pré-galileanas, e logo depois superadas. Como, no entanto, a cosmologia não interessava à ideologia oficial do Estado chi­nês, semelhantes idéias surpreendiam os letrados sem perturbá­-las. Uma outra observação dos padres Ricci-Trigault é, a esse respeito, reveladora:

"Era novidade que o Sol fosse maior do que toda a superfí­cie da Terra, ainda que alguns tivessem antes deixado se persua­dir do que realmente acreditado, uma vez que isso também estava escrito nos livros dos antigos matemáticos de seu reino; estes, tendo medido o Sol com instrumentos de matemática, desco­briram ter ele mais de mil léguas de extensão (...)"

O padre Trigault extasia-se com a genial e providencial idéia do padre Ricci de redesenhar seu mapa-múndi pondo a China no meio, depois de observar que, sendo a terra esférica, não de­veria ter um centro: "(...) Não se poderia encontrar nessa épo­ca uma invenção melhor para dispor esse povo a receber os mistérios da nossa religião".

Entre os hóspedes desse eminente letrado cristão do Extremo Ocidente que foi Matteo Ricci, os mais grosseiros e os mais ignorantes riam e debochavam vendo seu país reduzido a tão ridículas proporções. Os mais doutos, entretanto, ao verem a bela ordenação de paralelos e meridianos, os nomes e costumes tão variados dos diversos povos, convenceram-se de que essa era a verdade, tanto mais que "várias coisas concordavam com as antigas descrições dos chineses".

Revisto e completado inúmeras vezes, esse quadro de ma­ravilhas e curiosidades do globo terá uma brilhante acolhida, já que o mapa-múndi do padre Ricci será reeditado mais de uma dúzia de vezes entre 1584 e 1608, sem contar as edições japone­sas e coreanas.

Mas teria o padre Ricci modificado de modo duradouro a visão que o letrado chinês médio tinha do mundo? Pode-se du­vidar se se quiser considerar que essa moda teve curta duração, e que o mapa-múndi foi praticamente esquecido nos séculos se­guintes, a não ser por raríssimos especialistas.

Sem dúvida, "(o mapa-múndi) foi a causa de eles formarem uma boa opinião a respeito dos europeus em todo tipo de disci­plinas e outras ciências". De fato, essa curiosidade científica te­ve sua parte na conversão ao cristianismo de um punhado de eruditos renomados. Mas não demorará para que a atitude das autoridades e das opiniões mais influentes em relação à doutri­na vinda do Extremo Ocidente se torne mais ácida e depois se transforme em franca hostilidade.

Entre as razões dessa reviravolta, recordemos a Querela dos Ritos que, prolongando-se durante todo o século XVII, arrui­nou a ação dos jesuítas na China. Para ser breve, de que se tra­tava? Os jesuítas estavam a ponto de conseguir a façanha de apresentar às classes dirigentes chinesas um cristianismo reve­rente ao confucionismo, compreendendo o culto dos ancestrais e do céu, de que o imperador era o "filho". Denunciados por seus rivais de outras ordens da Igreja Católica, os jesuítas tinham cometido a imprudência de se defender da acusação de heresia através da intervenção do próprio imperador. Ele confirmava que esses cultos, fundamentalmente simbólicos, não podiam ser taxados de idolatria.

Mas o papa finalmente deu seu voto con­trário. Imagine-se a indignação do soberano do universo ridicularizado por um chefe de uma seita de povos bárbaros! Acrescente-se que a própria dinastia reinante era de origem estrangeira, saída das florestas dos confins do nordeste da China, e se compreenderá a desconfiança irremediável que, desde en­tão, se instalou. Os jesuítas eram aceitos na corte e apreciados por seu saber, mas proibidos no interior; isso, é claro, até a dis­solução da ordem, pelo papa, em 1773. Observemos ainda que a China, país de sedentários, rica e povoada, tinha sempre atraí­do a cobiça de seus vizinhos nômades ou caçadores: a descon­fiança em relação ao estrangeiro tornara-se, de certo modo, endêmica desde a brutal conquista mongol do século XIII. Os imperadores manchus eram naturalmente levados a ser mais aco­lhedores com os estrangeiros que lhes pudessem ser úteis do que com os chineses de origem, supostamente da etnia han.

Os manchus haviam se apossado do trono da China a par­tir de 1644, sessenta anos depois da primeira impressão do mapa­-múndi do padre Ricci. Ele ensinava aos chineses, como dizia muito bem Montaigne por volta de 1588, "quanto o mundo é maior e mais diverso do que nós e os antigos pensávamos". Mas era um efeito bem diferente que produzia sobre os chineses a idéia de que o mundo era bem mais extenso do que se ima­ginava ... Devolvamos a palavra ao padre Trigault, em seu estilo pedregoso e saboroso de flamengo, nascido em Douai em 1602:

"(...) pois via-se por essa descrição por que espaço quase desmedido de terras e de mares o reino da China estava afasta­do da Europa; essa foi a causa de eles terem diminuído o temor que tinham dos nossos, considerando, evidentemente, que não tinham nenhum motivo para ter medo de um povo que a natu­reza havia separado deles por tão grandes intervalos. Coisa que, se conhecida igualmente por todos os chineses, afastaria um gran­de obstáculo para os nossos na difusão da fé cristã por todo o reino. Pois nada nos atrapalha tanto quanto essas suspeitas".

Sabe-se quanto é difícil avaliar um perigo que não é bem conhecido, oscilando-se entre a tentação de minimizá-lo a pon­to de ignorá-lo, ou de superestimá-lo, com o risco de um enlou­quecimento mais destrutivo ainda. A China de então queria convencer-se de que esse afastamento lhe proporcionava uma trégua por um prazo indefinido. Por que ela se esforçaria em reduzir, no plano cultural, essa distância que a protegia momen­taneamente de qualquer agressão física? Nada a impulsionava para isso, ainda. Citemos uma última vez o padre Trigault, in­térprete de Matteo Ricci:

"Por causa da ignorância acerca do tamanho do mundo, os chineses formaram uma tal opinião a respeito de si próprios, que acreditam ser o império da China o único em termos de extensão territorial, administração da República ou glória das letras; e consideram todas as outras nações não somente como bárbaras, mas também as põem quase no nível de animais, acre­ditando que em nenhum outro lugar há rei, República ou letras".

Na verdade, nenhuma civilização, nenhuma cultura sobre­vive quando os que nela participam perdem a convicção de sua superioridade, globalmente falando. De fato, a conquista budista da China, terminada por volta do século VIII, havia provocado uma grave brecha nessa noção de superioridade total e radical. Acrescente que a vigorosa reação letrada, conhecida sob o no­me de "neoconfucionismo", tinha-a quase que reestabelecido depois do século XII.

Não subestimemos a profunda ação do sino-budismo, a in­fluência desse imenso trabalho dos tradutores do sânscrito para o chinês. A posição do budismo na China, entretanto, como já dissemos, não é comparável à do cristianismo no Ocidente. Com algumas efêmeras exceções, o budismo não foi jamais ad­mitido como doutrina de Estado na China. A não ser em certas obras, em certos meios populares e no passado, a Índia não ocu­pava, no imaginário, um lugar correspondente ao de Jerusalém.

É suficiente ter em mente o pluralismo cultural do Ociden­te tanto no espaço quanto no tempo para notar que não é uni­camente a "ignorância do tamanho do mundo" a responsável. Que se reflita bem: a China representa um caso único entre as civilizações que subsistem sobre o nosso globo; um caso que irritou um pouquinho os eruditos e sábios do Ocidente no sé­culo XIX: para uns, de Hegel a Marx, uma espécie de "fóssil vivo"; para outros, o produto mais ou menos teratológico de uma civilização que veio de alhures, forçosamente do Ociden­te, a dar fé às elucubrações do autor do Ensaio sobre a desigual­dade das raças humanas, o conde de Gobineau (181ó-1882), ou às de Terrien de Lacouperie, renovando as fantasiosas especula­ções do século XVll, mas passando do Egito à origem babilônica.

Os ricos frutos da pesquisa arqueológica do último meio século deram o golpe de misericórdia em todas essas teorias. O fato que permanece, teimosamente, é que a China tirou do pró­prio solo os elementos fundamentais de sua civilização, tal qual ela nos aparece ainda hoje.

Para se representar o caso chinês, seria preciso imaginar o Egito antigo com a dimensão da Europa inteira. Um Egito que teria mantido a continuidade de suas tradições multimilenares, escritura logográfica, língua e a base de suas crenças.

É claro, nossos viajantes chineses do século XIX não fun­davam sobre uma arqueologia ainda inexistente sua Íntima con­vicção de que a China era a mãe da civilização, ou seja, de todas as civilizações. A idéia do progresso global e indefinido da hu­manidade tornou-se para nós tão familiar, que é difícil compreen­der, hoje em dia, que não tenha sido sempre e em todo lugar assim. Confúcio, que viveu no século V antes da nossa era, ti­nha a sensação de estar entrando em uma idade de ferro, degra­dação de uma idade de ouro que ele situava na alta Antigüidade. Formados com essa idéia, inúmeros letrados gostavam de pen­sar que todo produto cultural estrangeiro que lhes parecia aceitável, em última instância, só podia ser de origem chinesa. E desse modo que se concluía que o Buda só podia ser Lao-Tse, disfarçado em indiano, de retorno à China. Com efeito, segundo a lenda, esse pai mítico do taoísmo, evidentemente imortal, teria partido para o oeste no começo do século V antes da nos­sa era, o que pode nos parecer um etnocentrismo exagerado. Mas pensem na força da consciência histórica dos chineses, na duração, na continuidade e no isolamento relativo de sua cultu­ra. Não é significativo que os arqueólogos chineses tenham se empenhado ao máximo para demonstrar o parentesco do ho­mem de Pequim, esse pitecantropo de há meio milhão de anos atrás, com os pequineses de hoje em dia à base de uma dentição de caráter pretensamente similar? Antes de renunciar a essa te­se, diante da diversidade de culturas neolíticas que descobriram sob o solo chinês, esses mesmos arqueólogos tinham, de modo não menos significativo, insistido na teoria "monogenética" das origens da civilização chinesa: o que quer dizer que ela se teria espalhado do mesmo modo que uma mancha de óleo a partir de um ponto central do continente e pelo desenvolvimento au­tônomo de suas características culturais iniciais. Para ser breve, tratava-se de encontrar a semente que havia produzido a árvore da civilização.

Certamente, os franceses da época de Luís XV perguntavam­-se como era possível que se fosse persa, e, em matéria de tradu­ção, só suportavam "belezas exóticas". Mas a questão não teria sequer aflorado ao espírito de um letrado chinês, intimamente convencido de que a civilização só poderia tomar as formas que lhe eram familiares.

Essa generalização, pode-se objetar, negligencia os períodos de abertura, o gosto pelo exotismo das camadas mais favoreci­das, a curiosidade tecnológica dos sábios excepcionais. O maior tradutor de todos os tempos permanece, sem dúvida, Xuanzang (602-664), o Tripitaka de Viagem ao Ocidente, romance de que Arthur Waley forneceu uma excelente versão reduzida a partir do texto final do século XVI. É difícil imaginar duas línguas mais distantes uma da outra que o sânscrito do chinês. Mas é preciso observar que esse esforço não prosseguiu além do sécu­lo X. Desde essa época até a metade do século XIX, os traduto­res foram quase todos estrangeiros. Tratava-se de obras, por assim dizer, utilitárias. Nenhuma obra puramente literária pa­rece ter sido revelada aos chineses antes do aparecimento, em 1899, de uma versão em chinês clássico da Dama das camélias (1848), de Alexandre Dumas filho pelo grande prosador que foi Lin Shu (1852-1924). Sem conhecer nenhuma língua estrangeira, ele fazia com que lhe contassem obras estrangeiras de ficção que ele adaptava: chegou-se a enumerar cento e setenta e nove!

Uma última homenagem ao chinês clássico no momento em que ele não aparecia mais como uma língua universal da co­municação escrita. O chinês escrito, onde cada signo tem um sentido, sem indicação precisa do som, tinha sem dúvida come­çado a separar-se da língua falada nos primeiros séculos da nos­sa era. Esse "chinês antigo", como é hoje chamado na República Popular da China, era igualmente a língua utilizada por todos os vizinhos "civilizados" da China, ou seja, organizados em Es­tado: Coréia, Japão, Vietnam. É verdade que manchus, mon­góis e tibetanos utilizavam um alfabeto de origem indiana, no fundo derivado, como o nosso, daquele inventado na Fenícia.

Desde o século XVII, a escrita filiforme do mongol e do manchu figurava sobre cada uma das moedas que milhões de chineses utilizavam no dia-a-dia, mas o imperador Kangxi (rei­nado: 1662-1722), nas considerações iniciais do famoso dicioná­rio chinês cuja publicação ele tinha ordenado em 1715, admitia que jamais uma escritura fonética poderia aclimatar-se à China. Além disso, a mesma palavra, "wen", cujo sentido básico é "de­senho", tem também a conotação de escritura e civilização. Um wen não-chinês seria uma contradição nos termos.

É bem verdade que a China conheceu outras invasões "bárbaras" antes da conquista manchu em 1644. Nem todos se dei­xaram achinesar tão profundamente quanto esses últimos. Mas os que não assimilaram essa cultura foram expulsos. Nunca os chineses perderam sua língua ou cultura. Pense-se nos ancestrais dos franceses, os gauleses, nas invasões germânicas e nesse produto híbrido derivado do latim que é o francês.

Quando, armado pela revolução industrial, o Ocidente veio bater às portas da China, era um desafio sem precedentes que ele apresentava.

As autoridades chinesas só começarão a realmente tomar consciência do perigo no fim da Primeira Guerra do Ópio, em 1842. Ponham-se em seu lugar: os navios portugueses que atin­giram o litoral chinês a partir de 1516 não pareciam temíveis nem pelo número nem pelo porte. O acelerado progresso de seu armamento não chamava a atenção, uma vez que as autori­dades haviam conseguido estabilizar a situação através dos mé­todos tradicionalmente utilizados em relação aos "bárbaros": controlá-los por meio da limitação de seus contatos e de suas vias de acesso, mesmo que tolerando algum comércio a fim de apaziguar suas veleidades de recorrer à força. Admitia-se que um certo número de produtos chineses era necessário para a sobrevivência daquelas pessoas que viviam nos territórios des­providos, os bárbaros das estepes: chá, metais, cereais. Os de ultramar tinham necessidades bem mais estranhas: alguns pen­savam que, sem ruibarbo, não poderiam resistir muito tempo a uma constipação crônica. O tráfico havia aumentado seria­mente depois que as outras nações ocidentais começaram a dele participar, mas as autoridades não podiam queixar-se, já que a balança comercial será favorável à China até as primeiras déca­das do século XIX. Os russos que surgiam nas fronteiras do império sino-manchu eram eficazmente mantidos à distância da China propriamente dita pelos Tratados de Nertchinsk e de Kiakhta, firmados em 1689 e 1727.

Certamente a embaixada britânica enviada a Pequim em 1793, na vã esperança de fazer com que a China se abrisse mais ao comércio, não deixou de causar alguma inquietação. E o que confirma a correspondência secreta do grande imperador que foi Qianlong (1711-1799), informado da posição dominante da marinha inglesa em Cantão e preocupado em evitar uma coali­zão das nações marítimas. Mas essa visão à distância, para a qual seguramente contribuiu a presença dos jesuítas na corte, não pa­rece ter sido partilhada por seus sucessores. Pelo desabafo do imperador Jiaqing, que reinou de 1796 a 1820, é preciso reco­nhecer que missão britânica seguinte, comandada pelo lorde Amherst em 1816, fora descortês, orgulhosa em anunciar as vi­tórias sobre Napoleão e intratável sobre a questão do ketu ou kowtow - a etiqueta da corte chinesa exigia, diante do impera­dor, uma prosternação completa, a ponto de tocar o solo com a testa. Os enviados britânicos recusavam-se até mesmo a ajoelhar-se. A reação do imperador Jiaqing traduz uma perfeita inconsciência da nova situação do mundo. Eis as explicações da rejeição da segunda embaixada britânica, na tradução de Arnold Vissiere (1858-1930):

"No 7 (leia-se: 25 da sétima lua, ou seja, 29 de agosto de 1816), dia fixado para me contemplar em audiência, teus envia­dos tendo já chegado às portas do palácio (o Palácio de Verão, que será saqueado pelas tropas anglo-francesas em 18ó0), eu ia tomar meu lugar na sala do trono quando teu primeiro envia­do declarou que uma doença súbita não lhe permitia mexer-se ou andar (...) Considerei ser possível que o primeiro enviado tivesse tido um mal-estar súbito; assim, prescrevi que deixassem entrar somente os segundos enviados. Todavia, os segundos enviados declararam que também eles estavam doentes. A descor­tesia foi então inigualável. Não os repreendi severamente, mas os fiz partir no mesmo dia, para que voltassem a seu país. Não tendo teus enviados comparecido à minha presença, não houve oportunidade para que a tua petição me fosse entregue: ela vol­tou junto com teus enviados. Entretanto, pensando que tu, rei, tinhas me endereçado essa comissão e essas oferendas através de milhares de léguas de distância, e que, se teus enviados ha­viam agido de modo desrespeitoso para me transmitir a expres­são de teus sentimentos, a falta era de teus enviados, discerni que tu, rei, tinhas um coração respeitoso e de boa vontade (...) No futuro, não haverá necessidade de encarregares teus envia­dos de vir tão longe, esforçando-se inutilmente em uma viagem por terra e por mar. Sabe somente mostrar o fundo do teu co­ração e dedicar-te ao estudo da tua pessoa com boa vontade, e poder-se-á dizer, então, sem que seja necessário que tu envies regularmente representantes à minha Corte, que caminhas pa­ra a transformação civilizadora. E a fim de que tu obedeças a esta exortação por muito tempo que te envio esta Ordem im­perial" .

Sem nos enganarmos com uma tradução que acentua a condescendência imperial, retomando exatamente uma linguagem formalizada e usada a ponto de ser banal, reconheçamos que tal linguagem trai um despreparo tanto mental quanto mate­rial. O esforço no sentido de corrigi-la será, por isso, ainda mais espetacular, meio século mais tarde. Pelas informações que eles difundiram sobre o Ocidente, a contribuição dos nossos viajan­tes letrados não poderia ser subestimada. A ignorância ­entenda-se indiferença - seguia-se a hostilidade: é preciso ter em mente esse contexto para prestar homenagem a seus dons de observação, à lucidez e à racionalidade que assinalam, não obstante as diferenças de mentalidade, a profunda unidade do espírito humano.

Foi-lhes preciso que formassem uma nova imagem do mun­do. Nada, em sua formação de letrados confucianos, os prepa­rava para tal coisa. Mal se imagina hoje em dia o que era o globo antes da revolução dos transportes. E, no entanto, tratava-se das duas metades do mesmo continente. Sem pretender examinar a fundo a documentação, revejamos algumas páginas.


Por LEVY, A. Novas cartas do extremo ocidente. São Paulo: Círculo do livro, 1989.