China:Esboço sobre uma civilização de acordo com sua própria filosofia da história

O presente estágio de descobertas arqueológicas permite uma datação de cerca de sete mil anos para a civilização na China. Na região de Shanghai (sítio de Songze, em Qingpu), há 51 séculos antes de nossa era já se trabalhava o jade, traço fundamental e característico da grande civilização. E, em Hemudu, na atual província de Zhejiang, descobriram-se evidências do cultivo do arroz em campos inundados (paddy) e igualmente vestígios de instrumentos em osso e madeira, bem como da utilização do búfalo, que permanece até hoje com papel fundamental na agricultura da China meridional. Igualmente no Zhejiang (zona do rio Yangzi, portanto) desenvolveu-se, em torno do terceiro milênio antes de nossa era, a complexa cultura de Liangzhu, igualmente baseada na utilização extensa do jade, visto como veículo de comunicação direta entre ancestrais e descendentes, num espírito de organicismo que pretendia fazer do cosmo, do espaço?tempo um todo indivisível, idéia até hoje subjacente no inconsciente chinês, para o qual tudo se interrelaciona em comunhão universal (noção de REN, virtude básica, que pressupõe união íntima entre todos os elementos da vida).
Léon Vandermeersch, ilustre sinólogo francês, ao classificar a China como "Civilização da Lapidagem", reconheceu o profundo papel do fenômeno lítico para a mente chinesa: "( ... ) a Idade da Pedra já viu os prenúncios de uma psique voltada para a pesquisa interior do material e ( ... ) a primeira representação de um sentido racional, para o espírito dos chineses, teria sido o da imagem de linhas, marcando, numa pedra lascada, o rumo que deveria ser seguido, em sua percussão por outra pedra, para que se obtivesse ( ... ) um novo objeto, melhor acabado, a fim de ser susceptível de ser utilizado sobre outras matérias, elas próprias submetidas à exploração de um ritmo interno racional ( ... )" (Wang Dao - La Voíe Royale).
A constatação dessa supremacia da experiência prática sobre a imaginação teórica, tão essencial para a evolução humana, na Idade da Pedra, jamais abandonou o verdadeiro espírito chinês e iria marcar, definitivamente, a civilização do país de um pragmatismo de base: é da periferia do visível que se parte para o cerne, nem sempre evidente, mas que pode ser atingido se se seguir o rumo da realidade, o ritmo das linhas diretrizes que desfazem a trama dos emaranhados ... E isso, a todos os níveis da vida. Assim, dessa necessidade prática do homem primitivo evoluiu-se para o pensamento abstrato, mas permanece constante, na China, a idéia de que se parte da realidade, lato sensu, vista e comprovada, para a elaboração teórica, que, num estágio maduro vai efetivamente permitir à mente os vôos do espírito, sempre, porém, em cordão umbilical com a realidade reveladora. Talvez a diferença fundamental com o Ocidente que, todos sabemos, é teórico antes de ser prático.
As decorrências da mentalidade pragmática para o pensamento chinês foram várias: a única noção de absoluto traduz-se por dao, que, literalmente, significa "Caminho", rota da periferia visível que abre ao núcleo não-visível subjacente. 0 corolário é a crença de que toda vida decorre de um processo em que elementos em oposição complementar e pertinente jogam entre si sem interferência externa e a análise objetiva desse jogo permite atingir um principio de inteligibilidade do mundo, a que corresponde a noção de "Logos", dita li, em chinês, cujo sentido primeiro é justamente o de "veios do jade e seu ordenamento interno" (zhi li, segundo o mais antigo dicionário etimológico, o shuo wen jie zi, escrito por Xu Shen e que data do século 100 de nossa era.)
Mais tarde, foi toda essa visão pragmática conscientizada pelas noções filosóficas de Ti - substância, subjacência do espírito chinês (a parte não-visível do "Caminho" ? dao) e de yong - funcionamento manifesto impulsionado pelo espírito subjacente. Não há como, pois, em termos da China, falar-se em transcendência: o que existe, para eles, chineses, é sempre um aprofundamento da imanência. Nesse não-dualismo tão arraigado, não há, portanto, como falar-se em criação propriamente dita, pois tudo resulta de um processo interno de transformações: a idéia judaico-cristã de um Deus que do exterior engendraria e governaria suas criações não teve aceitação nesse modo de pensar, no qual que a vida é exclusiva conseqüência da inerência de um processo que rege a si próprio.
Em termos da filosofia da história, o efeito da visão pragmática foi a chamada "Teoria do Mandato Celeste" (tian ming), prevalecente desde a dinastia Xia (séculos XX a XVI, antes de nossa era), segundo a qual uma dinastia (ou, em termos modernos, um sistema político) se estabelece por mérito de um Governante?Fundador, passa por ascensão e estabilidade, seguidas de um ligeiro declínio temporário, geralmente contornado por um súdito ou ministro virtuoso (fase de Renovação - zhong xing), após o qual ocorrem decadência definitiva e extinção ( miè ). 0 Governante torna-se então de "perdição": dá-se a "Ruptura do Mandato" (Ge Ming, expressão que, até hoje, é empregada para significar revolução): o povo revolta-se e combate o governo. Essa reação é vista como legítima e a deposição do poder constituído decadente é não somente um direito, mas também um dever da sociedade. Mas o "Céu" (Tian) não é visto como regente externo do processo. 0 sistema chinês é onto-cosmológico-moral e o chamado "Mandato Celeste" consubstancia um fluxo contínuo que traduz a homogeneidade da realidade cósmica de um lado a outro de suas manifestações, do "Céu" ao homem (Tian Ren Heyi - " a Unidade do "Céu" e do humano). Não é que se personifique o "Céu", mas é a psicologia humana que é vista como cosmológica segundo Vandermeersch. A "Teoria do Mandato Celeste" reflete, portanto, a visão de que as situações são regidas por "propensões" internas (Shi): "(...) se a tendência decorrente da situação é inelutável, é que 'aquilo a que ela tende' é eminentemente 'lógico' (...) "(F. Jullien, in : La Propension de Choses).
A China considera que toda sua história tem sido submetida a esse"Logos" (Li). 0 paradigma do raciocínio encontra-se na pesquisa de rumos internos cujo farol foi a experiência lítica; em particular a do jade, pedra simbólica por excelência até nossos dias. E se há um traço comum entre os diversos núcleos culturais da aurora da Civilização na China, tal traço foi o polimento do jade. 0 Vale do Rio Amarelo é a chamada área nuclear (Zhong Yuan) da civilização chinesa. Lá se concentrou a "essência medular" (Jing Sui) dessa civilização de alicerce monolítico e estrutura homogênea, a qual desde muito cedo se identificou, e definitivamente, com a agricultura como modo de subsistência.
Antes da ocidentalização do século XX, ser chinês equivalia essencialmente a aceitar uma série de tradições, usos e costumes ligados à realidade de um grupo social que enveredara por uma rota (Dao) de vida alicerçada na sedentarização exigida pela agricultura evoluída. Mesmo hoje, atrás de uma certa "fachada" de modernização ocidentalizada urbana, está a eternidade do campo chinês. Multirracial desde os primórdios, a nação chinesa (Zhong Guo) não se fundamentou em etnias ou línguas, mas na maneira de pensar de uma sociedade agrícola. Desde logo a China reforçou-se interiormente contra vizinhos nômades (a que chamava de "bárbaros"), organizando uma espécie de Confederação, o Zhong Guo ou "Estados Centrais", expressão que até hoje designa o país. Nela entrava-se mediante a aceitação da idéia de ser pelo produto da terra que se vive: homem e solo são interdependentes (Ren) e formam com a Ordem Celeste uma Tríade, expansão da Unidade. Mas nenhum dos elementos existe isolado: o todo reparte-se, mas não se divide. Outro não é o fundamento do organicismo onto-cosmológico-moral chinês. A agricultura, por ser assim de vocação integral, era o objetivo natural de um povo que via o cosmo como um todo orgânico, no qual era essencial o carisma do governante, pois era ele quem mantinha a Ordem do sistema.
A anarquia não é chinesa e o carisma do governante continuou a ser a busca de todo detentor do poder, em pleno século XX. Sun Yat?sen, Chiang Kai?shek, Mao Zedong e Deng Xiaoping não fugiram à regra. Tanto no continente, quanto em Taiwan, quem governa procura sempre demonstrar que possui carisma. Em toda a longa história chinesa, de civilização contínua, os governantes preocuparam-se com a elaboração correta de calendários e a observação astronômica, que permitiam o ordenamento do sistema orgânico visto como o ideal. 0 incidente de Tiananmen, em última análise, pode ser encarado como uma tentativa de manutenção de ordem, tendo em vista o caos que os chineses viam imperar na decomposição do mundo comunista europeu.
0 Vale do Rio Amarelo foi certamente, como se disse, a "área nuclear" de civilização. Lá se esboçou, há 600 mil anos, a própria raça chinesa (Homem de Pequim, Homem de Lantian, já com características físicas do "stock" mongolóide); lá se desenvolveram as culturas neolíticas ditas de yangshao, caracterizada por cerâmica avermelhada pintada com o mesmo tipo de pincel ainda hoje usado na escrita, e de longshan, cujos objetos eram de cerâmica negra polida - ambas constatadas, em estratigrafia superposta, no sítio de Miaodigou. Mas fora da área nuclear", sabe-se hoje, houve centros regionais onde a civilização, apesar de ligada à do Vale do Rio Amarelo, evoluiu com importantes características próprias: a cultura de Hongshan, no Nordeste (Mandchúria e parte da Mongólia atuais) e a cultura de Guanghan, no sudoeste, por exemplo. Um traço comum une os fragmentos: o trabalho do jade, embora em Guanghan se observe a escultura de imagens humanas, em bronze de grandes dimensões, desconhecida na área nuclear.
Visto sob o prisma da "Teoria do Mandato Celeste", regido por "propensões" internas (Shi), o mecanismo da história, na China, é extraordinariamente repetitivo. Entre ascensão, apogeu e declínio de grandes dinastias (Shang, Zhou, Han, Tang, Song, Ming e Qing ... ) colocam-se períodos de desunião política, necessários (mas temporários) para a aparição de um Sábio-Fundador. Mas o século XX foi peculiar. Reinava a dinastia alienígena dos Qing (1644?1911), fundada por mandchus, pois a última dinastia nacional foi a dos Ming (1368?1644). Além disso, as grandes navegações européias introduziram o dado novo de forte influência estrangeira, que crescia à medida em que os Qing mostravam sinais de decadência. 0 apogeu da intromissão européia ocorreu desde 1839, com as Guerras do Ópio desencadeadas para atender a interesses comerciais ingleses (mais tarde europeus e americanos em geral). Perdedora, a China é obrigada ao Free Trade e perde parte da soberania. Mas o fato é que a dinastia já se achava enfraquecida, o que é evidente pela Revolta dos Taiping (1850?64), só aniquilada com ajuda estrangeira. Conscientes da superioridade técnica dos europeus, mas que não consideravam como cultural, certos chineses esclarecidos (Wei Yuan, Lin Zexu e Zuo Zongtang, por exemplo) tentam empreender a modernização da China. O ápice do esforço foi a Reforma dos Cem Dias (junho a setembro de 1898), inspirada por Kang Youei e adaptada pelo Imperador reinante Guangxu: o tal movimento consubstanciaria uma espécie de "alquimia" da tradição chinesa. Em síntese, adequar a China às técnicas ocidentais, sem perder o substrato (Ti) da civilização: mudar em nível funcional (Yong): "(...) gênese de uma nova cultura, em que estaria inserida, reavaliada, a herança do passado, suporte da identidade nacional ( ... )" segundo M. Bastid. A tirânica e conservadora ex-regente Cixi arquitetou então, com sucesso, um golpe de estado em que o Imperador é feito prisioneiro e todo o projeto condena-se ao aborto. Kang Youwei refugia-se no Japão, onde vai dirigir a Sociedade de Proteção ao Imperador (Bao Huâng Hui), que luta pela monarquia constitucional. O que se segue é uma anomalia no processo clássico chinês que conduzia às renovações políticas: a elite intelectual passa a desacreditar nos valores tradicionais. Dir-se-ia, entretanto, que a "propensão" (Shi) política impulsiona o sentimento republicano. Rival do monarquista Kang, Sun Yat?Sen propugna pela República, que finalmente é proclamada em 10 de outubro de 1911, após a malfadada Revolta (xenófoba) dos Boxers, em que a China declara guerra às potências européias e aos Estados Unidos.
A Sun Yat-sen cabe o governo provisório, mas faltam-lhe qualidades de administração. O país mergulha num estado típico de desunião política e a fragmentação só termina quando o sucessor de Sun, Chiang Kai-shek, em 1926, com apoio popular massivo (e também do Partido Comunista - Gongchangdang - fundado em 1921) empreende a reunificação da China sob a égide do Partido Nacionalista - Guomindang. Em 1927, entretanto, Chiang rompe com os comunistas. Consolida o poder centralizado em Nanquim. O que sobra da elite comunista que escapa dos massacres em Xangai (12 de abril 1927) recua para o Centro-Sul, num primeiro tempo e, em seguida, empreende a Longa Marcha, retirada pela qual o Gongchangdang encontra refúgio no remoto Noroeste (Yanian, no Shaanxi). Lá Mao Zedong torna-se a figura de proa, por advogar a construção progressiva de um poder político baseado no campesinato, na reforma agrária e na expansão de um exército popular coeso, em contraposição a outros líderes do Partido (Li Lisan por exemplo), que propugnam pela luta urbana que permita a rápida conquista de cidades importantes. Ao fazê-lo, Mao distancia-se das próprias teorias soviéticas, mas ganha apoio popular. O soldado, antes um desclassificado na hierarquia social, passa a gozar de prestígio: o exército conta pelas tropas, não pelo comando; apóia-se nas milícias camponesas. Em 1937, ocorre o avanço do imperialismo japonês, o que pressiona Chiang-shek a aceitar uma Frente Unida com os comunistas. O curso posterior da história é bem conhecido. Vencido o Japão, a situação política no território continental deteriora-se rapidamente: as tropas nacionalistas recuam para Formosa (Taiwan) e, em 1º de outubro de 49, Mao proclama a República Popular. Os primeiros anos, em Taiwan, são duros e autocráticos. Mas, após a morte de Chiang (1975), o Governo de Taipei democratiza-se progressivamente, reconstrói a economia e moderniza a ilha-província. No continente, o organismo chinês articula-se por ritmos traduzidos por avanços e retrocessos das teorias ditas "idealistas" e "pragmáticas", jogo dialético entre visões de pureza ideológica e de desenvolvimento econômico. O ápice do idealismo foi certamente a chamada Revolução Cultural de 1966-76, em que Mao desenvolve todo um dogmatismo e um culto à sua personalidade que golpeiam seriamente a civilização da China. Em 1978 restabelece-se a diretiva pragmática, que culmina na filosofia de Deng Xiaoping de "um país, dois sistemas" e no conceito de "Civilização Espiritual do Socialismo" (Shehui Jingshen Wenming, 1986).
"Um país, dois sistemas" consubstanciaria, talvez, uma aplicação moderna do velho fundo filosófico de "subjacência"(Ti) e de "Aspecto Funcional" (Yong). Não seria, então, a era pós-Mao um prenúncio de síntese, de retomada de consciência, depois da consciência da perda (do Mandato Celeste pela última dinastia), da tese que levou à perda de consciência, antítese ocorrida nos primeiros anos caóticos da República? É possível que esse jogo dialético tenha valor numa análise da China.

por Ricardo Joppert, Doutor em estudos do extremo-oriente Sorbonne,Paris; Vice-Diretor do Museu Histórico e Diplomático - Itamaraty