Conceituação

por Filmer S. C. Northrop em Moore, C. (org.) Filosofia: Oriente, Ocidente. (1978), Edusp-Cultrix, São Paulo.
____________________________________________________________
Os Possíveis Conceitos por Intuição
Os conceitos por intuição adquirem todo o seu significado do que é imediatamente percebido, cumpre considerar seu caráter geral e os fatores que ele contém a fim de designar os possíveis tipos de tais conceitos.
Devemos começar com a imediação que tudo abarca e de que provém qualquer teoria, oriental ou ocidental. Esta imediação se mostra como um continuum ou campo diferenciado. Pareceria que todas as pessoas concordariam com isto como designação correta do que se percebe imediatamente, por mais diferentemente que pudessem analisá-la à medida que a pesquisa se desenvolve. Será bom ter um nome para este fato que tudo abarca, fato inicial e imediatamente apreendido, com o qual toda tentativa de chegar a uma descrição da experiência deve começar. Chamá-lo-emos o continuum estético diferenciado. A palavra “continuum” e usada para denotar o fato de que o que apreendemos imediatamente é um campo que tudo abarca. A palavra “diferenciado” foi escolhida para indicar que dentro deste campo ocorrem fatores em uma parte diferentes dos de outra. Imediatamente percebemos um campo que é branco aqui e azul ali. O adjetivo “estético” se acrescenta para assegurar que o que se indica é o qualitativamente inefável, emocionalmente comovente continuum de cores, sons e sentimentos que o artista apresenta na imediação dele, e não o continuum logicamente definido da Física matemática que é um conceito por postulação (15); também o que Prall chamou de “superfície estética” considerada em e por si se percebe imediatamente; o objeto externo de senso comum que o objeto estético às vezes simboliza é um conceito por postulação, e não um conceito por intuição. Tal fato inicial, complexo, denotativamente dado, considerado em sua totalidade sem que nada seja deixado de lado, é o que significamos como conceito do continuum estético diferenciado.
Como o continuum estético diferenciado, com toda a sua imediação estética e emotiva, inclui tudo que se percebe imediatamente, todos os outros conceitos por intuição derivam dele por abstração. Com o termo “abstração” queremos referir-nos, em todo este capítulo, à consideração de certos fatores imediatamente percebidos separadamente do seu contexto imediata­mente percebido; não queremos dizer o “abstrato” no sentido do postulado. Já se observou que o continuum diferenciado estético contém dois fatores abstraíveis. Há (a) o campo ou continuum separado das diferenciações que há dentro dele ou das propriedades definidas que o caracterizam, e há (b) as diferenciações ou propriedades definidas separadamente do con­tinuum que as percorre e as abarca. O primeiro, (a), é o que chamaremos de continuum estético indefinido ou não - diferen­ciado, e o último, (b), já que há muitas, as diferenciações.
Chegamos, portanto, aos três principais conceitos por intuição, a saber:
I. O Conceito do Continuum Estético Diferenciado,
II. O Conceito do Continuum Estético do Indefinido ou Não- diferenciado,
III. Os Conceitos das Diferenciações. A estes, por motivos que adiante se darão, denominaremos também Conceitos por Inspeção.
Das denominações dadas acima, deduz-se que são válidas as seguintes relações:
I - II com III;
II - sem III;
III - I sem II.
É importante notar que tais relações não definem os significados destes três conceitos da maneira pela qual os postulados de uma teoria dedutiva prescrevem o significado dos conceitos por postulação dentro dos postulados. Os conceitos 1, II e III são conceitos por intuição. Logo, o leitor, para obter o seu significado, deve verificar o que eles denotam em percepção imediata. Mesmo então o pleno significado só pode ser alcançado mediante a consideração do que é percebido.
O mais difícil destes três conceitos para a compreensão do ocidental é o segundo. Isso acontece devido à influência de Berkeley e de Hume, que insistiram em que todos os conceitos são conceitos por intuição, mas inclinando-se a considerar o continuum nada além de um conjunto de características secundárias e terciárias. Um exame do que se percebe imediatamente mostrará que isto é falso. Nós inspecionamos diretamente, não apenas o que é branco ou barulhento, mas também as características que estão num campo. O campo é dado tão imediatamente quanto qualquer característica especifica, seja secundária seja terciária, que esteja dentro dele. Além disso, a maior parte do campo percebido diretamente é vago e indefinido. Apenas no que William James chamou seu centro é que há especificidade e exatidão. Assim, é evidente que o continuum indefinido, indeterminado, estético é tão imediatamente apreendido quanto as diferenciações específicas que estão dentro dele. Segue-se que o conceito do continuum indefinido ou indiferenciado, alcançado por abstração do continuum diferenciado estético, é um conceito por intuição, e não um conceito por postulação.
Os conceitos por intuição que são conceitos das diferenciações dividem-se em dois grupos. As diferenciações que se percebem imediatamente podem ser dadas (a) através dos sentidos ou (b) introspectivamente. Às primeiras chamaremos conceitos por sensação e às últimas conceitos por introspecção. “Azul”, no sentido de cor imediatamente sentida, é um conceito por sensação. As “necessidades” e as imagens da fantasia são exemplos dê conceitos por introspecção. Chamaremos também os conceitos por sensação e os conceitos por introspecção, de acordo com o Professor C. l. Lewis, de “conceitos por inspeção”. Os conceitos por inspeção são, na nossa terminologia técnica, idênticos aos conceitos das diferenciações. Esta última terminologia é melhor no sentido de que nos recorda que os dados dos sentidos e as características terciárias não têm existência isolada do continuum ou campo estético dentro do qual aparecem e do qual são abstraídos. A terminologia do Professor Lewis é melhor no sentido de que oferece um único conceito para designar quer os conceitos por sensação quer os conceitos por introspecção. Usaremos a terminologia mais sugestiva em cada caso. Não advirá nenhuma confusão contanto que o leitor se lembre de que os conceitos das diferenciações e os conceitos por inspeção denotam, e portanto significam, já que são conceitos por intuição, precisamente a mesma coisa.
O Professor George P. Conger chamou a minha atenção para um conceito adicional por intuição alcançável do con­tinuum estético diferenciado por abstração. É uma característica específica, a que não se deu a devida atenção, examinada no continuum estético com todas as outras diferenciações, mas não o próprio continuum. Tal conceito por intuição nós o denominaremos conceito de campo por inspeção. Uma filosofia que toma como básico e suficiente este tipo de conceito será posi­tivista no sentido de que admite apenas conceitos por intuição, mas diferirá da maior parte da doutrina positivista ocidental ao sustentar antes uma teoria monista do que pluralista do que é percebido imediatamente. A este respeito, é sugestiva a filosofia de Bradley, como também o é a psicologia da Gestalt.
Chegamos à seguinte classificação dos principais conceitos por intuição:
I. O Conceito do Continuum Estético Diferenciado - A totalidade do imediatamente percebido sem que nada seja abstraído.
II. O Conceito do Continuum Indefinido ou Indiferenciado - O Continuum intuído isolado de todas as dife­renciações.
III. Os Conceitos das Diferenciações Conceitos por Inspe­ção - Conceitos Atômicos por Inspeção - As carac­terísticas específicas examinadas ou as diferenciações consideradas isoladamente do continuum.
(a) Conceitos por Sensação - III dados através dos sentidos.
(b) Conceitos por introspecção - dados introspectivamente.
IV. Conceitos de Campo por Inspeção - qualquer exemplo de III considerado como inseparável de II.
Isto completa a classificação dos diversos tipos possíveis de conceitos a partir dos quais pode ser construída qualquer teoria científica ou filosófica. Como ela esgota os meios possíveis principais de proporcionar significados aos termos, nossa terminolo­gia técnica para a Filosofia comparada pode ser considerada apresentada.
As diversas doutrinas filosóficas podem agora ser compara­das notando-se quais os possíveis tipos de conceitos que admitem. Com esta terminologia também se podem definir diferentes teorias filosóficas. O positivismo, por exemplo, é a tese de que só há conceitos por intuição, O positivismo ocidental, além disso, tem-se inclinado a sustentar que todos os conceitos por intuição são definíveis em termos de conceitos atômicos por inspeção ou redutíveis a eles. Uma teoria metafísica, por outro lado, é a que sustenta que há também conceitos por postulação. Conforme mostramos, a tendência geral da Ciência e da Filosofia ocidentais tem sido no sentido de exigir conceitos por postulação.
Somente nos períodos de transição do desenvolvimento do pensamento ocidental, como o período atual, no qual os conceitos tradicionais por postulação estão-se esboroando e antes que os conceitos científicos que substituíram os antigos sejam ordenados filosoficamente é que aparecem no Ocidente o positivismo e sua tentativa de restringir toda a realidade ao imediatamente percebido.
Os conceitos por intuição são particular e continuamente importantes no Oriente, fato que se tornará claro mediante o exame das mais importantes doutrinas da Filosofia oriental.
No que se segue, deve ser acentuado que estamos buscando o denominador comum de concordância subjacente às inúmeras diferenças que há na Filosofia e na religião orientais, da mesma forma como mais adiante tentaremos indicar o fator comum no Ocidente que distingue a Filosofia ocidental da oriental. O elemento básico de concordância em diferentes sistemas orientais não impede que, em casos especiais, eles introduzam suposições adicionais que em muitos respeitos tornarão algumas das suas posições semelhantes às do Ocidente. Da mesma forma, a principal ênfase em todo o pensamento ocidental que nos distingue do Oriente não impede que os nossos filósofos e teólogos às vezes sustentem posições nitidamente orientais.
Os Principais Sistemas Orientais
Bramanismo
É lugar-comum na Filosofia indiana referir-se ela ao real como algo que não pode ser apreendido pelo raciocínio ou por métodos lógicos. Charles Johnston, em seu comentário sobre o Kena Upanixade (16), resumiu da seguinte maneira a atitude dos hindus: “todas as filosofias racionalistas terminam, e terminam inevitavelmente, em agnosticismo. Tal é a conclusão lógica da busca de conhecimento desta maneira por esse meio (...) inspirado e posto em movimento pela intuição, (...) o filósofo racionalista imediatamente vira as costas à intuição e entrega a tarefa ao espírito inferior, que é incapaz de encontrar a resposta. Tendo começado com a intuição, ele deve continuar com a intuição”. Conforme está expresso no Katha Upanixade, “Nem deve este espírito ser conquistado pelo raciocínio (17); (...) Deve ser percebido (...) por experiência direta (18). Isto significa que o conceito ou conceitos que designam a realidade não podem ser conceitos por postulação e devem ser conceitos por intuição. O nosso problema, portanto, é determinar qual dos quatro principais tipos possíveis de conceito por intuição é usado”.
Na primeira página do prefácio à sua obra clássica sobre A Filosofia dos Upanixades (19) Paul Deussen escreve que os “pensamentos dos Vedanta (...) se tornaram para a Índia uma atmosfera espiritual permanente e característica. (...) Para todos os brâmanes indianos, hoje em dia, os Upanixades são o que o Novo Testamento é para os cristãos”. No capítulo III, sobre “A Concepção Fundamental dos Upanixades”, acrescenta que “todos os pensamentos dos Upanixades se movem em torno de duas idéias fundamentais, a saber, 1) o Brâmane e 2) o Atman (20) Em seguida, mostra que o Brâmane “é idêntico ao Ãtman”, sendo o primeiro o princípio cósmico do Universo e o último este mesmo princípio em seu “caráter psíquico” (21). Se, portanto, concentrarmos a atenção no conceito do Brâmane, teremos o fator fundamental do sistema dominante da Filosofia indiana.
No capítulo V, Deussen nos diz o que significa este conceito. “O Brâmane”, escreve, “é, nos homens e em todos os objetos do universo, aquilo que permanece quando extraímos deles tudo que não seja não- eu, alheio ou diferente” (22). Em outras palavras, o Brâmane é tudo que apreendemos imediatamente, com todas as distinções e diferenciações extraídas de dentro dele. Se o leitor voltar à nossa classificação dos conceitos por intuição possíveis, verá que é precisamente assim que caracterizamos o conceito do continuum estético indefinido ou indiferenciado.
Os Upanixades corroboram esta conclusão. O Brihãdara­tjyaka Upanixade contém a seguinte passagem representativa: “Não se demonstrou que o Brâmane, o objeto do conhecimento, é livre de todas as diferenças, como antes de, atrás de e “circunstâncias semelhantes, uniforme e, como um torrão de sal, de um gosto só?” (23) A referência ao gosto mostra que estamos lidando com um conceito por intuição, e a liberdade “de todas as diferenças” indica que o conceito por intuição em questão não pode ser outra coisa senão o conceito do continuum indiferenciado ou indefinido.
O mesmo Upanixade também acrescenta explicitamente que o conceito básico não é um conceito por intuição que é um conceito por inspeção. “Aquilo que os sábios chamam imperecível (...) não é grosso nem fino, nem curto nem longo, nem vermelho (como fogo) nem fluido (como água), nem sombreado nem escuro, nem vento nem éter (espaço), nem adesivo (como goma), sem gosto nem cheiro, sem olho nem ouvido, sem fala, seta compreensão, sem força vital e sem respiração, sem boca nem tamanho, sem interior nem exterior; nunca consumindo nada, nem sendo consumido por qualquer coisa” (24). Em outras palavras, o fato imediatamente apreendido denotado pelo Brâmane não é nem uma característica secundária dada aos sentidos nem uma qualidade terciária conhecida introspectivamente. Como é conhecido, não pela intuição mas pela razão ou pela postulação, nada resta para ele senão ser o continuum indefinido ou indiferen­ciado dentro do qual aparecem as características transitórias secundárias e terciárias.
O hindu não nega conceitos por intuição que são conceitos por inspeção. As diferenciações inspecionadas dentro do continuum intuído existem, mas são transitórias exatamente na medida em que são percebidas. Como rejeitou a razão e os seus conceitos por postulação, não há atribuição de imortalidade ao que é examinado como temporário, à maneira das “for­mas” de Aristóteles, das “essências” de Santayana ou dos “objetos eternos” de Whitehead. O hindu rejeita todos os conceitos lógicos por inspeção. Todos os conceitos das diferenciações são puros conceitos por intuição sem que se acrescente nenhum caráter ou imortalidade lógicos postulados. Neste ponto, como em todos os outros, o hindu é um positivista completo. Não há conceitos por postulação, mas apenas por intuição.
Mesmo com relação ao Brâmane, nada é postulado, tudo é imediatamente apreendido. Na discussão entre a Morte e Nachiketas na Casa da Morte há a seguinte conversação:
“Morte:‘Um mortal que ouviu isto e o abraçou, que o separou de todas as suas características, e que assim alcançou o Ser sutil, regozija-se, (...) A casa do Brâmane está aberta, creio eu, ó Nachiketas.’
Nachiketas: ‘Fala do que vês como nem isto nem aquilo, co­mo nem efeito nem causa, como nem passado nem futuro’” (25).
Evidentemente o Brâmane é aquilo “de (que) todas as características” foram “separadas”. Também não é uma entidade postulada não vista, imaginada ou pensada; é “aquilo que se vê”; está imediatamente “aberto” para a gente. Quando se separam todas as diferenciações e características distinguíveis da totalidade do imediatamente apreendido apenas resta o con­tinuum indefinido ou indiferenciado.
Como o que percebemos imediatamente é um continuum que abarca tudo que percebemos, o continuum indiferenciado e o princípio cósmico” ou Brâmane. Como o eu imediatamente percebido é o continuum intuído ilimitado que abarca as características e sentimentos locais perscrutados transitórios, e não apenas os últimos, o continuum indiferenciado intuído é “o princípio físico” ou o “eu” ou o Ãtman. Assim, conforme mostrou Deussen, o Brâmane e o Ãtman são idênticos. Na nossa termi­nologia técnica, o eu é um conceito de campo por intuição, não um mero conjunto transitório de conceitos atômicos por inspeção.
O caráter de campo do Brâmane e do Atman (o Eu) que é idêntico ao Brâmane está explicitamente afirmado nos livros sagrados da doutrina hindu. “Um oceano é o que vê, sem qual­quer qualidade; este é o mundo - Brâmane”. O eu “não conhece nada que esteja fora, nada que esteja dentro”. Tudo que é imediatamente apreendido está no continuum. “Mas não há então nenhum segundo, nada mais diferente dele que ele chegasse a ver”. Sua “natureza é como o éter” (26).
As diferenciações dentro do continuum intuído que é o eu são transitórias. O campo, ou o próprio continuum intuído, isolado das diferenciações que vão e vêm dentro dele, não e transitório. Esta distinção entre estes dois tipos de fatores intuídos que constituem o eu complexo, diferenciado, intuído, é a chave para a doutrina da salvação na religião oriental.
Para compreender isto, e necessário tentar compreender por que os hindus e, como mostraremos, todos os principais líderes filosóficos e religiosos orientais consideram a percepção imediata, sem qualquer recurso aos postulados da razão, capazes de garantir o caráter imortal ou não - transitório do continuum imediatamente apreendido e indiferenciado que é a parte “verdadeira” do eu. A razão é que o transitório é o temporal, e somente a intuição nos informa de que o tempo não abarca todo o con­tinuum, desse modo tornando este último transitório, mas é, ao Invés, intuído como apenas uma dimensão que se projeta contra as dimensões espaciais distinguíveis. O continuum integral, envolvendo dimensões espaciais outras que não a dimensão temporal, é mais do que o temporal e, portanto, está fora dele, e assim escapa à transitoriedade de qualquer coisa temporal. O temporal e o transitório estão dentro do continuum em vez de estar o continuum dentro do tempo. Conseqüentemente, o campo componente do eu complexo e intuído não está sujeito aos estragos do tempo.
Uma vez compreendido isto, a Filosofia e a religião dos Upanixades se tornam inteligíveis como tese puramente empírica. Não há realidade a não ser a que é imediatamente apreendida. Aquilo que é imediatamente apreendido é divisível em dois fatores: um, as diferenciações específicas dadas através dos sentidos ou introspectivamente; o outro, o continuum imediata­mente apreendido que não é dado por qualquer sentido específico. O continuum imediatamente inspecionado, considerado isoladamente das suas diferenciações, é não - transitório. As diferenciações são todas temporárias e condenadas a morrer. Como afirma o Katha Upanixade,
“Aquilo que permanece inaudível, intangível, invisível,
que não pode ser nem provado nem cheirado, imperecível,
É o que se mantém eterno, sem princípio nem fim, maior do que o Maior.
Quem sabe disso escapou das faces da morte” (27).
Um ocidental pode perguntar-se como o conhecimento do que é denotado pelo conceito do continuum indeterminado permitirá que se escape das “faces da morte”. Esta pergunta marca também a transição do Brâmane para o Ãtman. O conhecedor imediatamente percebido, porém, considerado como uma criatura determinada, não é primordial e irredutível. Ele, como o objeto determinado e intuído do conhecimento, precisamente devido à sua diferença com relação ao objeto do conhecimento, é uma diferenciação no múltiplo intuído que a outros respeitos é indiferenciado. Mas compreender isto é perceber que o conhecedor é o campo intuído indefinido comum ao seu eu determinado e a todas as outras coisas intuídas determinadas, tanto quanto é o complexo determinado de características transitórias que inspeciona quando imediatamente se reconhece através dos sentidos ou introspectivamente. Isto se segue porque, para o hindu, todos os conceitos por inspeção são conceitos de campo por inspeção. Como o continuum indeterminado está fora do tempo, em virtude do seu caráter de campo que tudo abrange, conforme se mostrou no parágrafo anterior, o eu neste sentido também “escapa às fauces da morte”.
Como diz o Katha Upanixade, “O homem sábio, conside­rando que a atividade dos poderes de percepção e ação (a parte diferenciada do eu intuído) está separada do seu ser real (o fator de campo indiferenciado no eu intuído e em todos os objetos intuídos) (28) e que eles têm seu nascer e seu poente, como de atividades que nascem isoladamente dele, não se lamenta” (29).
Esta citação torna claro que as diferenciações perscrutadas no continuum estético que constituem o eu empírico são tão transitórias quanto as diferenciações percebidas no mesmo continuum que constituem o objeto empírico. O sujeito determinado e o objeto determinado, como diferenciações que são dentro do continuum comum a ambos, são igualmente transitórios. Por esta razão, não há imortalidade da personalidade determinada na religião hindu. Apenas o continuum indeterminado que, como abarca a distinção entre sujeito e objeto (30), é tanto princípio cósmico externo (Brâmane) quanto o princípio psíquico subjetivo (Ãtman), é imortal. A identificação hindu entre o Brâmane e o Ãtman e sua doutrina da imortalidade são conseqüências da sua observação de que todos os conceitos por inspe­ção são conceitos de campo por intuição. Toda diferenciação é uma diferenciação dentro do único e mesmo continuum intuído.
A indeterminação do continuum indiferenciado é tão importante quanto a sua continuidade intuída que tudo abarca. É devido a esta indefinição que a realidade fundamental nunca pôde ser positivamente descrita para os orientais. Conforme escreve Dasgupta, “Verificaram que quaisquer que tenham sido os meios que eles tentaram para dar um conteúdo positivo e claro da realidade final, o Brâmane, falharam. As definições positivas eram impossíveis”(31). Isto se dá porque qualquer atributo positivo dá uma diferenciação do continuum sob outros aspectos indeterminados, em vez do próprio continuum indeterminado.
Por tal motivo, não há nada de comum entre o Brâmane e a realidade final como é concebida por Demócrito, Platão ou Aristóteles. Os átomos de Demócrito, as idéias de Platão e as formas de Aristóteles eram coisas determinadas e claras, a própria antítese do indeterminável Brâmane. Também os átomos democritianos, as idéias platônicas e o Motor Não - movido aris­totélico foram conceitos por postulação, ao passo que o Brâmane, além de indeterminado, é um conceito por intuição.
Para encontrar o Brâmane não é necessária nenhuma mudança do que é imediatamente reconhecido para um mundo postulado não observado, conhecido apenas pela imaginação ou pelo intelecto. Tendo começado com a intuição, isto é, com a que é dada com imediação, o hindu permanece com a intuição. Até o fim ele é um consumado empiricista e positivista. Apenas transfere sua atenção, dentro do complexo continuum estético diferenciado, das diferenciações para o continuum do qual elas são as diferenciações. Dessa forma, ele aprende a ver a conduta e a vida do ponto de vista do múltiplo indeterminado dentro do eu intuído e determinado da pessoa e de todos os dados intuídos determinados, e não apenas do ponto de vista do eu determinado considerado como nada mais que o conjunto tran­sitório de impressões sucessivas denotadas apenas pelos conceitos atômicos por inspeção.
“Se ele chegou ao conhecimento d’ Ele (Brâmane) na vida presente, este é o bem supremo. (...) Procurando-O e descobrindo-O em todas as coisas existentes, os sábios, partindo deste mundo, tornam-se imortais” (32). Como disse Charles Johnston, em seu comentário desta passagem: “O que é necessário é a direção da atenção para o que já está lá” (33). Não se abandona o complexo múltiplo diferenciado dado em apreensão imediata recorrendo a uma realidade inobservável designada por conceitos por postulação; apenas se desdenha a diferenciação enquanto se retém o campo e se dirige a atenção para este campo em e por ele, bem à maneira pela qual, ao perceber uma forma colo­rida, se poderia dirigir a atenção para a cor enquanto se des­preza a forma, ou para a forma enquanto se despreza a cor.
No Apêndice a The System of the Vedanta (34), Deussen sa­lienta que os livros sagrados dos Vedanta “distinguem duas formas (rupa) de Brâmane: o Brâmane superior, sem atributo (param, nirgurnam), e o inferior, que possui atributos (aparam, sagunam)”. Acrescenta que “No primeiro caso se ensina que o Brâmane não tem quaisquer atributos (guna), diferenças (visésha), formas (akara) ou limitações (upadhi) - no último, para fins de culto muitos atributos, diferenças, formas e limitações lhe são atribuídos”.
Se esse meio-termo, no interesse da conveniência, afinal corrompeu e ofuscou a doutrina fundamental, é ponto que não precisa preocupar-nos aqui. O que é importante é que a necessidade de um novo movimento surgiu na Índia levando-nos de volta ao conceito de um múltiplo irredutível intuído que é indeterminado e indiferenciado. Esse movimento é o Budismo.
Budismo
O Budismo é uma filosofia e uma religião de caráter inter - racial e internacional. Surgiu na índia, passou ao Tibete, à China e à Coréia e hoje existe em forma notavelmente pura no Japão. Por isso, para dar-lhe o tratamento adequado deve­mos não apenas ocupar-nos dos textos sanscríticos originais, mas também do seu desenvolvimento em diferentes textos e escolas chinesas e japonesas. Não é exagero dizer que o estudioso que, talvez acima de todos os outros, investigou o Budismo desta maneira completa e abrangente é o Dr. Junjira Takakusu, Professor Emérito de Sânscrito na Universidade Imperial de Tó­quio. Vamos, pois, em nossa análise do Budismo, basear-nos muito intensamente nas conferências e no volume mimeografado (35) escrito pelo Professor Takakusu para os participantes do seu curso sobre o Budismo no curso de verão da Universidade do Havaí, realizado em coordenação com a Conferência Oriente - Ocidente de Filósofos.
A primeira coisa que impressiona quem examina o Budismo à luz da sistemática análise do Professor Takakusu é o grande número de sistemas técnicos em que ela é formulada. Encon­tram-se teorias desenvolvidas com termos e distinções técnicos tão sutis, formais e intricadas como os das mais abstratas e sofisticadas teorias filosóficas ocidentais. Examinaremos os qua­tro sistemas principais pela forma como são designados pelo Professor Takakusu, dos quais derivam muitos outros diferentes sistemas. São [1] o Hinayanistico Realista, [2] o Hinayanistico Niilista, [3] o Semi- Mahãyanístico e [4] o Budismo Mahayãnístico Niilista.
Os sistemas [1] e [3] foram formulados por Vasubandhu (420-500 d.C.); o Sistema [2] é a obra de Harivarman (apro­ximadamente 250-350 d.C.) e o Sistema [4] é a criação de Nãgãrjuna (aproximadamente 100-200 d.C.). Por estes quatro sistemas, da maneira como foram inter-relacionados através de reflexões feitas em épocas posteriores, perpassa uma dialética de negação que culmina no minucioso niilismo do Budismo Mahãyãnístico [4] de Nãgãrjuna. Somente no último sistema o método lógico usado para se chegar a todos os quatro sistemas alcança sua culminação.
Um exame das datas dos quatro sistemas revela um ponto muito interessante. A ordem lógica da dialética não é a ordem cronológica da formulação original das quatro teorias. O produto final da dialética da negação, o Budismo Mahãyinistico niilista de Nãgãrjuna, foi o primeiro sistema a ser formulado cronologicamente. Assim, a dialética racionalista da negação, pela maneira como foi desenvolvida por estudiosos mais recentes e aplicada aos quatro sistemas, nada mais nos deu além do que tínhamos a princípio, antes de a dialética ser aplicada. Isto significa que o produto do método dialético racionalista foi real­mente descoberto e, portanto, deve ser conhecível inteiramente à parte do método. Se o resultado a que leva a dialética é algo conhecível por apreensão imediata, tal como denotado por um conceito por intuição, e se a função da dialética não é apresentar a verdade diretamente mas eliminar o erro passo a passo, deixando, finalmente, o que falta ser conhecido pela intuição, então se torna inteligível o fato de que o que vem em último lugar logicamente é o primeiro cronologicamente. Este é o caso.
A dialética começa com a doutrina ordinária do senso comum. De acordo com essa doutrina, o mundo deve ser consi­derado como um sistema de (a) objetos físicos externos em relação com (b) pessoas persistentes que têm (c) idéias sobre esses objetos e elas próprias.
O Sistema [1], o Budismo Realístico Hinayãnístico, é o resultado de aplicar-se o princípio de negação à doutrina de senso comum do eu pessoal persistente. Sua tese fundamental é a pudgala- sunyatâ que, pela forma como foi traduzida pelo Professor Takakusu, significa “vazio- de- personalidade”, isto é, o vazio do conceito do eu determinado persistente. É este pre­cisamente o fato estabelecido por Hume com respeito a Berkeley para a Filosofia ocidental. A tese é que a noção do eu pessoal como uma substância persistente designada por conceitos por postulação que são conceitos por percepção não designa nada real; há apenas, no que diz respeito ao eu, apenas o múltiplo intuído com a sua sucessão transitória de fatores determinados denotados apenas por conceitos de intuição. Desta maneira nasce a doutrina da escola Sarvaasti de Vasabandhu {Sistema [1]}.
O importante a notar com relação a esta doutrina budista é que ela ainda conserva a crença no objeto material determi­nado persistente, embora tenha rejeitado o eu pessoal determinado persistente. Assim, dificilmente se encontrará uma contrapartida desta doutrina no mundo ocidental. A moderna Filosofia ocidental, com Descartes e Berkeley, perdeu a confiança no postulado da existência do objeto material persistente embora mantivesse absoluta confiança no eu persistente antes de rejeitar o postulado de um eu determinado persistente com Hume. Em vez de começar com a certeza do eu como a Filosofia ocidental moderna com Descartes, o Budismo, na escola Hinayanística de Vasubandhu, oferece o exemplo de uma filosofia que nega o eu determinado persistente enquanto ainda conserva a crença nos objetos físicos e no mundo externo postulado. A aplicação do princípio de negação à última doutrina produz o Sistema [2], o Budismo Hinãyanístico niilista de Harivarman, representado pela escola Satyasiddhi. A tese funda­mental desta escola é “Sarva-dharma-fanyata”, que, traduzida literalmente, significa “vazio- de- todos- os- elementos”. Em outras palavras, não apenas os eus postulados, mas até os objetos externos postulados do senso comum são negados. Não há nem substâncias mentais determinadas nem substâncias materiais determinadas que sejam persistentes. Os conceitos por postulação que são conceitos por percepção não designam nada real.

______________________________
(15) Por esta razão não deve ser confundido com o conceito de campo da Física de campo ou com o espaço público dos objetos perceptuais de senso comum que são ambos, como acima dissemos, conceitos monistas por postulação.
(16) The Great Upanishads, Vol. 1 (Nova Iorque: The Quarterly Book Department, 1927), pág. 83.
(17) Traduzido por Charles Johnston, Ibid., pág. 222.
(18) Ibid., pág. 232.
(19) The Philosophy of the Upanishads: tradução inglesa autorizada, feita pelo Reverendo A. S. Geden (Edimburgo: T. & T. Clark, 1906).
(20) Ibid., pág. 38.
(21) The Philosophy of the Upanishads: tradução inglesa autorizada, feita pelo Reverendo A. S. Geden (Edimburgo: T. & T. Clark, 1906), pág. 39.
(22) Ibid., pág. 157. Vide, também, P. Deussen, The System of the Vedanta, tradução autorizada feita por Charles Johnston (Chicago: Open Court Publishing Co., 1912), pág. 94. Aqui Deussen escreve que “O Brâmane mesmo está livre de todas as diferenças”.
(23) Citado por P. Deussen em The System of the Vedanta (Chicago: Open Court Publishing Co., 1912), pág. 95.
(24) Citado por P. Deussen e traduzido por A. S. Geden em The Philasophy of the Upanishads, pág. 147.
(25) Traduzido em The Bible of the World. Org. por Robert O. Bailou, Friedrich Spiegelberg e Horace L. Friess (Nova Iorque: The Viking Press, 1939), pág. 47. Os grifos são meus.
(26) The Bible of The World, Op. cit., págs. 58, 57, 60.
(27) Citado por P. Deussen em The Philosophy of the Upa­níshads, pág. 148.
(28) As observações entre parênteses são minhas.
(29) Charles Johnston, The Great Upanishads, Vol. 1, págs. 23 1-232.
(30) Cf. P. Deussen, The System of the Vedunta, pág. 95.
(31) Surendranath Dasgupta, A Hístory of Indian Philosophy (Cambridge: University Press, 1922), Vol. 1, pág. 44.
(32) The Great Upanishads, Op. cit., pág. 212.
(33) Ibid., págs. 72-73.
(34) Loc. cit., pág. 456. (35) J. Takakusu, Buddhist Philosophy and Philosophy of the Buddhist Religion, 1939.