Condições, Correlações

por Filmer S. C. Northrop em Moore, C. (org.) Filosofia: Oriente, Ocidente. (1978), Edusp-Cultrix, São Paulo.


A Diferença entre a Moral Ocidental e Oriental
Temos, também, tendência a considerar as realizações dos ocidentais, quando eles transformam teses limitadas e transitórias em questões morais imortais - destruindo, dessa forma, qualquer possibilidade de entendimento que não sejam guerras mortais -, como a vaidade imatura e ultra - entusiástica de pessoas que não têm a sabedoria necessária para reconhecer o caráter transitório dos objetos limitados e das teses pessoais específicas. Tal era, no fundo, o ponto de vista do chinês de tempos passados, do indiano que não era muçulmano e do japonês budista, antes do advento do nacionalismo ocidental, da Ciência ocidental e dos missionários cristãos.
Hoje - com o Japão dominado pela religião nacionalista tribal do Xintó ressuscitada quando da visita de Perry a Yokohama, e não pela religião não- nacionalista e não-diferenciadora do Budismo; e com a Nova China que tem origem no Cristianismo de Sun Yat-sen, com sua tese determinada de que um homem não é homem a não ser que sacrifique a vida por algum princípio restrito e determinado - o espírito de conciliação desapareceu do Oriente, e os orientais também podem, finalmente, empenhar-se em saudáveis e sangrentas guerras mortais exatamente como qualquer bom ocidental (63). A religião e a moral ocidentais têm seus riscos como têm suas vantagens.
O primeiro lampejo de luz, no que concerne aos males do mundo contemporâneo, surgirá quando a Humanidade despertar para a compreensão de que uma das fontes básicas do seu infortúnio não é nem a natureza má dos homens nem sua incapacidade de estar à altura dos seus ideais, mas a parcialidade e a conseqüente insuficiência desses ideais.
Quando esse despertar ocorrer, o Homem verá que a mais importante tarefa do nosso tempo é uma revisão do nosso conceito do bem. Neste sentido, a análise comparada das doutrinas orientais e ocidentais que vimos fazendo é importante porque mostra como tal conceito do bem se identifica com a nossa concepção filosófica da natureza das coisas e é por ela determinada. O velho Oriente, colocando no continuum estético indefinido a realidade fundamental, tem uma teoria da vida boa, ao passo que o Ocidente tradicional, ao identificar o real com algo determinado que possui uma imortalidade postulada, tem uma teoria que difere de forma equivalente daquela em que consiste a conduta ideal.
Há razões para acreditar que cada lado do mundo - o Oriente com a sua ênfase no indefinido e no esteticamente imediato, o Ocidente com a sua insistência no definido e no cientificamente postulado - tem um elemento essencial de verdade permanente. A tarefa construtiva do nosso tempo é associá-las, no que devemos, entretanto, guiar-nos, não apenas pela Filosofia comparada, mas também pela nova descrição e análise do continuum estético diferenciado que a Filosofia empírica contemporânea e a arte impressionista estão fazendo e pela profunda reconstrução do nosso conceito do que é postulado, na qual se acha agora empenhada a Física matemática.
Um exame dos métodos do Oriente e do Ocidente indicará a direção que tem probabilidade de ser seguida.

Intuição e Lógica no Método Filosófico
O raciocínio formal e a ciência dedutiva não são necessários, se apenas conceitos por intuição forem usados em uma dada cultura. Se o que a Ciência e a Filosofia tentam designar é imediatamente percebido, então, obviamente, tudo que se tem que fazer para conhecê-lo é observá-lo e contemplá-lo. Os métodos de intuição e contemplação se tornam os únicos métodos fidedignos de pesquisa. É precisamente isso o que o Oriente afirma. É precisamente por isso que a sua Ciência nunca progrediu muito tempo além do estágio inicial, da História Natural do desenvolvimento à qual nos limitam os conceitos por intuição.
O método do Oriente, porém, é ligeiramente mais complicado do que este, complicação que surge porque o principal fator a ser conhecido não é tudo que a intuição dá, porém, fundamentalmente, a indeterminação e a continuidade do continuum estético com as diferenciações que ele contém omitidas ou abandonadas.
Embora esse fator indeterminado seja exatamente tão imediata e empiricamente percebido quanto os objetos deter­minados dados através dos sentidos distintivos e por introspecção, sua intuição, em si e por si, não é dada por um sentido específico e de modo algum é fácil. Por conseguinte, é natural que se elaborassem métodos para facilitar esse difícil objetivo.
A Ioga é exatamente tal método prático. A dialética da negação do Budismo, pela qual racionalistamente se rejeitam todos os fatores determinados, quer postulados, quer intuídos, até que reste apenas o simples múltiplo indeterminado, é outro método. E um terceiro é a prática dos primitivos sábios indianos de se sentarem no chão, no meio de uma floresta indiana, tão assoberbados pela diversidade e pela complexidade da sua folhagem tropical que a mente perde toda capacidade de distinguir diferenciações e é deixada na contemplação da insondável e ine­fável intensidade e da inexpressível imediação da própria experiência indeterminada.
Se, por outro lado, aquilo que o conhecimento esta tentando determinar é designado por conceitos por postulação que propõem objetos e estruturas científicos, filosóficos e teológicos muito diferentes do material estético inefável que a mera percepção imediata revela, é evidente que os métodos orientais de observação, intuição e contemplação, embora necessários, são de todo insuficientes.
Surge, portanto, imediatamente, no Ocidente, a questão de saber como os fatores postulados fidedignos podem ser distinguidos dos espúrios. Sem lógica e sem raciocínio dedutivo, isso é impossível. Somente pela aplicação da Lógica formal ou da computação matemática ao que é postulado, para dele se dedu­zirem conseqüências que podem ser submetidas a uma prova empírica num experimento decisivo, é que a proposta de um maníaco pode ser distinguida da de um Newton ou de um Einstein. É por isso que o Ocidente, que introduziu conceitos por postulação em sua Ciência e em sua Filosofia, é necessariamente forçado a sustentar que a Matemática e o raciocínio lógico formal, e não apenas a intuição e a percepção e contemplação empíricas, são absolutamente necessários para obter-se um conhecimento fidedigno.
O método preciso envolve quatro partes: [1] A formulação postulacional das várias hipóteses concernentes às entidades e estruturas não - observadas; [2] a aplicação da Lógica formal aos postulados expostos em termos de conceitos por postulação para deduzir teoremas expostos em termos da mesma espécie de conceitos; [3] a designação do que este autor, em outro local (64), denominou “correlações epistêmicas”, que relacionam os conceitos por postulação, nos teoremas deduzidos, aos corres­pondentes conceitos por intuição, os quais são geralmente con­ceitos por sensação, transpondo assim o abismo que há entre o que é postulado e o que é intuído empiricamente, a fim de tornar possíveis a corroboração empírica ou a falsificação; e [4] a inspeção imediata do fato para observar se ele é o que prescrevem os conceitos por intuição indicados no número [3]. Quando for este o caso, diz-se que existem as entidades postuladas, por exemplo elétrons, átomos ou propagações eletromagnéticas; quando não for, diz-se que os fatores postulados não existem. Desta maneira se distinguem teorias falsas, em termos de conceitos por postulação, de teorias fidedignas.
O que há de importante a notar, para os nossos fins atuais, é que esta distinção entre o conhecimento falso e o fidedigno não é possível sem a formulação dedutiva da teoria de que se tratou nos estágios [1] e [2] e o uso complementar inelutável de definições precisas e da Lógica formal. Eis a razão por que o Ocidente se inclinou a insistir na Matemática e na Lógica, em seu critério de conhecimento genuíno, e por que até os seus tratados éticos, filosóficos e teológicos tiveram a forma siste­mática, técnica e lógica da Ética de Spinoza, da Metafísica de Aristóteles, da Crítica da Razão Pura de Kant, da Suma de Santo Tomás e do Processo e Realidade de Whitehead, em vez da índole intuitiva, informal e poética dos Upanixades ou dos Analectos de Confúcio.
Os estágios [3] e [4] da análise acima do método científico e filosófico ocidental tornam, entretanto, igualmente evidente que o Ocidente, não obstante sua insistência em conceitos por postulação como designativos do conhecimento real, também usa conceitos por intuição. Sem estes, não se pode construir uma ponte que, passando pelas correlações epistêmicas, vá do que é postulado ao que é positivística e esteticamente intuído, o que é essencial se se pretende alcançar confirmação ou falsificação. Não se pode, pois, apoiar a acusação freqüentemente feita pelos orientais de que o Ocidente desdenha inteiramente a intuição. Pode-se duvidar se qualquer pessoa do Oriente jamais intuiu ou contemplou todas as sutis distinções existentes nas diferentes espécies de plantas e animais observados, na me­dida em que isso se possa dizer de um naturalista ocidental como Lineu. O Ocidente tem sua ciência da História Natural, bem como sua Ciência e Filosofia mais madura e dedutivamente formuladas, e mesmo no caso da corroboração desta última, bem como, quase exclusivamente, mesmo na exposição da primeira, usam-se conceitos por intuição e os métodos orientais apropriados.
Conseqüentemente, há um sentido muito definido no qual a Filosofia do Ocidente é mais inclusiva do que a dos principais sistemas do Oriente. Enquanto esses últimos tendem a excluir os métodos e conceitos lógicos por postulação como positivamente designativos de qualquer coisa finalmente real ou importante no conhecimento, o Ocidente, em sua insistência nos conceitos por Postulação e em seu método lógico formal complementar como essencial para o real conhecimento do que existe, também usa. não obstante, conceitos por intuição.
Por tal razão, o Oriente, para conseguir uma compreensão do aspecto da realidade apreendido pelo Ocidente, deve aceitar como fatores positivos os conceitos por postulação e os métodos formais aos quais os sábios do Oriente no máximo deram um valor negativo. O Ocidente, entretanto, a fim de incluir em sua perspectiva a introvisão básica do Oriente, necessita apenas de começar com os seus atuais conceitos por intuição, que tendem a restringir-se aos que são conceitos por inspeção (65), e a notar sua percepção, não como elementos atômicos, mas como dife­renciações transitórias do múltiplo igualmente intuído. Quando este múltiplo for considerado uma abstração em si, isolado das diferenciações, como indeterminado, o Ocidente terá o conceito básico por intuição do Oriente.
Ainda assim, o Ocidente ainda tem muito que avançar para compreender o verdadeiro significado do que o Oriente tem para ensinar-lhe. Porque a tendência do Ocidente, quando face a face com o imediatamente percebido, é ou confundi-lo e corrompê-lo com o que é postulado ou usá-lo apenas como sinal da presença do que é postulado e abandoná-lo incontinenti, como se inclinavam a fazer Platão e os outros filósofos metafí­sicos do Ocidente. Assim, o Ocidente, mesmo nos seus breves e ocasionais intervalos de positivismo ou no caso dos seus filósofos que, como Bergson, deram ênfase à intuição, nunca aprendeu a reconhecer plenamente o que é imediatamente percebido em si e por si. Como conseqüência, o ocidental se inclinou a ficar emocional e espiritualmente inane. Foi salvo em teoria mas ficou insatisfeito em espírito. O que deve ser apreendido é a introvisão fundamental do Oriente de que o intuído é bem diferente do que é científica, filosófica e teologicamente postu­lado e é, não obstante, um componente final e essencial da realidade digno de atenção e contemplação em si e por si mesmo.
A arte ocidental contemporânea, que está libertando os materiais estéticos imediatamente percebidos da sua correlação epistêmica com o antigo senso comum postulado e com as referências simbólicas teológicas, é um desenvolvimento nesta nova direção (66). Há outras provas de que este movimento pelo Oriente e pelo Ocidente em direção a uma filosofia mundial totalmente abrangente já está em evolução.

A Filosofia Mundial de Amanhã
Basta conversar com qualquer líder contemporâneo da China ou do Japão ou observar o que esses países estão fazendo agora para compreender que o principal fator que eles se propõem aprender do Ocidente é sua tecnologia. Seus aventureiros militares da nossa era tornam isto ainda mais necessário. Com relação à religião, à arte e ao humanístico por oposição à Filosofia científica, muitos orientais importantes consideram que o Ocidente pouco tem a ensinar-lhes.
Para usar a tecnologia ocidental com eficiência, o oriental precisa dominar as teorias científicas ocidentais das quais ela provém. Essas teorias científicas já tornaram os orientais conscientes da importância positiva dos conceitos por postulação e da necessidade de métodos formais, lógicos e matemáticos de que depende seu uso fidedigno. Dessa maneira, o Oriente está sendo forçado a ampliar seu conceito da natureza das coisas para incluir o componente de realidade postulado descoberto pelo Ocidente. Por conseguinte, a Filosofia de amanhã, mesmo na parte mais passiva e contemplativa do Oriente, bem como no Ocidente movimentado, ativo e técnico, será uma filosofia da Ciência Natural. Não é por mero capricho, mas em virtude de uma compreensão profunda da tarefa básica da sua própria cultura, que o Professor Junjiro Takakusu, com a idade de setenta e dois anos, depois de passar toda a vida estudando o sânscrito e outras fontes históricas da religião budista, dedicou a maior parte da sua meditação e do seu tempo ao estudo da filosofia da Ciência Natural.
A própria filosofia intuitiva dos orientais também será conservada. Tornou isto claro um adepto da ciência ocidental, o Dr. Hu Shih, que, na Introdução à sua The Development of the Logical Method in Ancient China, escreveu o seguinte: “Haveria, sem dúvida, um prejuízo grande para a Humanidade se a aceitação desta nova civilização (do Ocidente) assumisse a forma de um deslocamento abrupto, em vez de uma assimilação orgânica” (67). Para isto, propõe ele uma volta dos antigos clássicos chineses em cujas obras os começos dos métodos científicos ocidentais foram sugeridos mas nunca levados adiante. Um dos resultados de tal volta pode ser a redescoberta do conceito intuitivo do continuum indeterminado que está na base do Confucionismo, como mostramos anteriormente, e a manutenção disto juntamente com os conceitos por postulação da Ciência ocidental. Entre estes dois fatores não há qualquer conflito. Dessa maneira, a doutrina básica do Oriente e o uso singular dos conceitos por postulação do Ocidente podem ser combinados.
Há um movimento contrário no Ocidente que já o está levando à mesmo posição. Este movimento tem origem na intensa análise do método de ciência dedutiva e empírica que atual­mente se desenvolve, análise que se centra em torno da pergunta concernente à maneira como podem ser confirmadas as teorias sobre os objetos científicos não observados designados por conceitos por postulação. As correlações epistêmicas a que antes nos referimos respondem a esta pergunta. Também tornam evidente, porém, que qualquer filosofia da ciência completa e apropriada deve ter um conceito por intuição irredutível, bem como conceitos por postulação irredutíveis. De outra forma teorias formuladas em termos destes últimos conceitos jamais poderiam ser corroboradas, e somente haveria o que é teoricamente concebido, mas não um mundo diretamente intuível, com toda a sua imediação estética móvel, para perceber e contemplar. Dessa maneira, a análise do método de confirmação dos objetos científicos designados por conceitos por postulação está levando o Ocidente à aceitação de um conceito por intuição como também essencial.
Outro desenvolvimento no Ocidente está impondo a mesma conclusão. Sua filosofia moderna começou com a convicção de Descartes da certeza indubitável da existência do seu próprio eu como substância mental. É significativo que Descartes justificou essa conclusão, não com bases empíricas de intuição e contemplação, mas com o fundamento racionalístico de que ela era logicamente pressuposta no fato perscrutado de sua própria dúvida. Somente a dúvida, não o que duvidava, foi dada por percepção imediata. Assim, a substância mental de Descartes era um conceito por postulação. Seus conceitos de Deus e da matéria eram da mesma espécie.
Isto se aplica também às substâncias mentais e materiais de Locke, que surgiram como resultado da tentativa necessária de esclarecer a relação entre os átomos postulados da física de Newton e as cores, sons e odores diretamente inspecionados dados aos sentidos. Como acentuou Newton, apenas os últimos eram conceitos por intuição.
Ponto essencial das teorias de Descartes e Locke era que as cores, os sons e todas as outras impressões estéticas imediatamente percebidas tiveram por base apenas a ação das substâncias materiais sobre as substâncias mentais. Em resumo, a moderna Filosofia ocidental foi erigida sobre a tentativa de definir o intuído em termos de uma interação do postulado.
A história da Filosofia moderna é a história do fracasso desta tentativa. Berkeley e Hume mostraram que, com tal fundamento, o conhecedor nunca poderia conseguir os significados necessários para formular sequer a noção de uma substância, seja mental seja material. A Psicologia e a Psicobiologia modernas confirmaram as análises de Berkeley e de Hume. Todas as tentativas de esclarecer a maneira pela qual os átomos de Física e suas emissões de energia agem sobre a substância mental para fazer com que este projete o continuum supostamente fenomenal de cores e sons têm sido infrutíferas. A teoria agora mostrou ser uma hipótese científica dedutivamente vã. Os resultados em Epistemologia têm sido semelhantes. Todas as tentativas dos filósofos modernos posteriores a Descartes e Locke no sentido de resolver as dificuldades epistemológicas, nas quais nos atira esta moderna tentativa ocidental de reduzir o intuído ao postulado, terminaram em malogro.
A razão é muito simples. Foi ofuscada devido ao descaso com que se tratou a distinção entre conceitos por intuição e conceitos por postulação. Como as cores e os sons são imediatamente percebidos, as coisas são fatores denotados por conceitos por intuição. Como as substâncias mentais e materiais são fatores postulados não observados, são entidades designadas por conceitos por postulação. E, já que estes dois tipos de conceitos adquirem seus significados de diferentes maneiras, referem-se a diferentes mundos de discurso. Os métodos lógicos de definição e dedução podem mover-se dentro de um dado mundo de discurso, mas não podem mover-se de um determinado mundo de discurso para outro inteiramente diferente. É esta a razão por que não há manipulação lógica que, por meio de definição ou dedução, possa levar-nos do comprimento de onda para “azul”, que é um conceito por postulação, ao “azul” imediatamente percebido, que é um conceito por intuição. Todavia, é isto, exatamente, que procurou fazer a moderna tentativa de derivar os fatores esteticamente imediatos, que percebemos dire­tamente, da interação dos fatores postulados mentais e matéria.
A Filosofia moderna terminou em fracasso porque sua tese básica, de que o esteticamente imediato é um fator secundário e puramente fenomenal, derivado do postulado, tenta o que é logicamente impossível, a saber, a derivação ou dedução lógica de conceitos por intuição de conceitos por postulação.
Por conseguinte, os epistemologistas ocidentais modernos estão sendo gradualmente forçados à mesma posição a que os lógicos modernos foram levados, como conseqüência de sua análise da relação entre fatores intuídos empíricos e fatores teóricos postulados no método científico; a saber, à conclusão de que deve haver um conceito irredutível por intuição, bem como conceitos irredutíveis por postulação. Mas admitir isto é aceitar a tese fundamental do Oriente de que o esteticamente imediato, conhecido apenas por intuição e contemplação, repre­senta algo científica e filosoficamente irredutível e final.
As conseqüências psicológicas, epistemológicas, religiosas e culturais disto, quando se apreendem todas as suas implicações, serão enormes. Terá ocorrido uma verdadeira revolução no pensamento ocidental. Em vez de se definir o esteticamente imediato como mera projeção fenomenal resultante da interação de mente e corpo, o corpo e a mente e o meio pelo qual eles são ligados serão definidos, cada um separadamente e todos juntos, em termos da relação entre o que é esteticamente imediato, denotado por conceitos por intuição, e o que é teoricamente ontológico, designado por conceitos por postulação. Em resumo, em vez de se definirem a Estética e a Lógica, inclusive a Matemática, em termos de uma relação entre Psicologia e Física, Psicologia e Física serão derivadas de uma estética e de uma lógica mais primária. Ou, dito de forma mais concisa, isto significa que, em vez de considerar a consciência uma faculdade ou propriedade de um conhecedor, mediante a qual ele apreende e se toma consciente de materiais estéticos puramente subjetivos, tais como cores e sons, um conhecedor será tido como consciente porque se compõe de materiais estéticos irredutíveis e inefáveis. É esta primazia do estético e a inefabilidade de qualquer coisa conhecida com imediação que são a fonte da chamada consciência do indivíduo, e não a consciência do indivíduo que é a fonte dos materiais estéticos. Assim, a Estética e a Lógica, inclusive a Matemática definida em termos de Lógica, tornam-se os temas primordiais, um tão irredutível, fundamental e importante quanto o outro, e a Psicologia, a Física e até a religião serão derivados deles - inversão completa das presunções básicas do moderno pensamento ocidental.
Assim como sua importação de tecnologia ocidental está forçando o oriental a suplementar sua insistência tradicional na primazia e a irredutibilidade do intuído com igual situação para o que é postulado, da mesma forma os recentes desenvolvimentos da Lógica e da Epistemologia empíricas estão levando o ocidental a suplementar sua ênfase tradicional na primazia do postulado com um reconhecimento semelhante da importância do intuído.
Surge imediatamente a pergunta: que conceito por intui­ção deve o Ocidente considerar primordial? Duas considerações mostram a resposta: uma que surge da análise contemporânea do método científico e que tem que ver (a) com a situação das correlações epistêmicas, e outra ditada (b) pelo princípio da parcimônia.

A Condição das Correlações Epistêmicas
A necessidade destas relações para ligar os conceitos por postulação na teoria científica com os conceitos por intuição e, desta forma, tomar possível a confirmação, já foi mostrada. Ocorre a pergunta: estas correlações são meras convenções arbitrárias ou significam algo na natureza do mundo que o cientista está investigando? Como os objetos científicos designados por conceitos por postulação existem, segundo os cientistas, quando, com recurso a estas correlações, sua existência postu­lada se confirma, é difícil escapar à conclusão de que, de certo modo, estas correlações epistêsmicas também existem. Em que pode consistir tal “existência”?
Considere-se o que relacionam as correlações epistêmicas. Elas juntam a realidade intuída à realidade postulada. Ou, para formular a questão de modo mais concreto, juntam qualquer coisa tal como conhecida por apreensão imediata ao que é, em certo sentido, aquela mesma coisa tal como é conhecida por uma teoria postulada e sistematicamente formulada que é confirmada indireta e experimentalmente através das suas conseqüências dedutivas. Qual natureza do intuído poderia definir tal relação com o postulado? Uma resposta seria: o caráter simbólico do imediatamente apreendido - sua capacidade de apontar além de si mesmo para o postulado.
Ninguém pode negar que este caráter simbólico do intuído existe. É impossível, a qualquer de nós, inspecionar uma dada imagem visual sem ser forçado, por esse dado imediatamente apreendido, a decretar se se trata do sinal sensorial de um objeto postulado, como uma mesa ou uma cadeira em espaço público.
É precisamente por causa deste caráter simbólico que tem o intuído de desviar a atenção de si mesmo para o postulado, que nós, no Ocidente, nos tornamos emocionalmente inanes, com a nossa preocupação com o postulado e por causa do nosso desdém pelo intuído em si e por si mesmo. É também por esta mesma razão que o Oriente teve que elaborar métodos especí­ficos como a Ioga e a dialética negativa do Budismo a fim de compelir a mente humana a permanecer com o imediatamente percebido tempo suficiente para garantir o amparo emocional, estético e espiritual que ele proporciona, tamanho é o poder simbólico do intuído para desviar a atenção de si para o que é postulado.
O resultado de qualquer observação indutiva do continuum estético diferenciado é sugerir, à mente de senso comum e científica, o que é postulado. Somente desta maneira podemos chegar, instintivamente, sem reflexão consciente e deliberada, como procedemos quando criancinhas, a um mundo público de objetos externos. Isto o intuído só pode realizar para nós se, por si mesmo e isoladamente das nossas mentes e vontades conscientes, tiver um caráter simbólico. Somos, portanto, levados a esta teoria da situação das correlações epistêmicas: não são meras convenções, mas têm sua base no caráter simbólico das qualidades imediatamente apreendidas do continuum estético diferenciado.
O Oriente nunca perseguiu estes últimos materiais para descobrir e corroborar o postulado e a Ciência do Ocidente altamente desenvolvida e que lhe é complementar, porque, como no Hinduismo, no Budismo e no taoísmo, ou ele desdenhou as diferenciações do continuum estético para dirigir a atenção para o continuum indefinido ou, como no Confucionismo, somente considerou os conceitos por inspeção em suas relações transitórias mútuas e relativas. As correlações epistêmicas existem na Ciência e representam uma referência simbólica na natureza das coisas porque o que é determinadamente intuído simboliza um fator postulado definido que vai além de si mesmo, e porque o que é verdadeiramente (isto é, dedutiva e experimentalmente confirmado) postulado apenas se torna real analogicamente no intuído empiricamente, em proporção suficiente para distinguir-se do que é possível apenas hipoteticamente, me­diante a introdução de diferenciações no continuum estético intuído e, sob outros aspectos, indefinido e indiferenciado.
Parece, portanto, que o componente postulado da realidade do Ocidente e o componente estético ou intuído do Oriente são ambos finais e, pelo menos em parte, irredutíveis, sendo um o complemento simbólico do outro.

A Prescrição do Princípio de Parcimônia
O principio de parcimônia recorda-nos que não devemos multiplicar além do necessário nossos conceitos primitivos, quer os princípios por intuição quer os que existem por postulação. Deve, portanto, guiar-nos ao conceito ou conceitos por intuição que nós, no Ocidente, devemos considerar primordiais.
Enquanto se dedicava a este tópico, há uns dez anos, no contexto de uma tentativa de esclarecer a relação entre elementos estéticos e científicos na Ciência e na Filosofia ocidentais, este autor descobriu que não é necessário levar em conta todos os quatro conceitos na nossa classificação dos quatro principais tipos possíveis de conceitos por intuição como primitivos. É suficiente escolher, como único conceito indefinível e irredutível por intuição, o conceito do continuum indefinido ou indiferenciada, ou, como foi então denominado (68) e que vem a dar no mesmo, “simples característica experimentada indeterminada, (...) o determinável de todos os determináveis”. Em termos do continuum estético indiferenciado e dos primitivos conceitos por postulação, juntamente com a noção dos correlatos epistê­micos, podem ser definidos os outros três conceitos por intuição.
A função do primitivo intuído - o continuum indiferenciado estético - é assegurar uma realidade intuída que é um múltiplo único de experiência imediata. Tem o mérito adicional de conservar as cores percebidas do céu estético no continuum estético, onde elas são realmente observadas, em vez de situá-las na mente do observador, onde a tradicional Ciência e a tradicional Filosofia ocidentais modernas foram obrigadas a colocá-las. A função do primitivo postulado é assegurar uma realidade determinada, persistente, imediatamente não- observada e teoricamente concebida. Mas estes dois, os componentes intuicionais e postulacionais da realidade, não estão isolados. Devido à relação simbólica existente entre eles e definida pelas correlações epistêmicas, elas se combinam para gerar as diferenciações simbólicas específicas denotadas por conceitos atômicos por inspeção e que a totalidade do fato imediatamente percebido que é o continuum estético diferenciado. Assim, dado o conceito do continuum indiferenciado e os conceitos por postulação não - definidos como primitivos, juntamente com as correlações epistêmicas, todos os outros conceitos podem ser derivados como conceitos definidos.
Desta maneira, guiado apenas pela necessidade de esclarecer a relação entre os fatores indutivos e teóricos da Ciência e da Filosofia ocidental, sem qualquer cogitação de Filosofia oriental, este autor foi levado ao próprio conceito por intuição como irredutível e, pois, final, que este estudo mostrou ser a concepção básica dos cinco principais sistemas filosóficos e religiosos do Oriente. Parece que, através de desenvolvimentos independentes no Oriente e no Ocidente, está-se ordenando uma Filosofia nova e mais abrangente na qual o fator intuído básico, há muito tempo descoberto no Oriente, está sendo combinado com o recém-concebido componente postulado da natureza das coisas, exigido pelas recentes descobertas cientificas revolucionárias do Ocidente. Esta nova Filosofia, ampliando a perspectiva e os valores de cada parte do mundo para incluir os do outro, pode bem servir de critério fidedigno do bem para uma ordem mundial verdadeiramente cosmopolita e internacional, na qual as diferentes concepções básicas e as conseqüentes avaliações de duas grandes culturas se combinem numa única civilização mundial, mais rica e melhor porque inclui, em harmonia reciprocamente complementar, com ênfase equilibrada, as mais profundas e maduras introvisões de cada uma.
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(63) Excelente descrição desta diferença entre o conceito oriental antigo e o ocidental tradicional do bem pode ser encontrada no animado debate entre o velho pai chinês e seu filho ocidentalizado, nacionalizado e cristianizado, no romance Xangai, 1937, de Vick Baum, págs. 511- 521.
(64) The Journal of Unified Science, Vol. IX, págs. 125-128. Vide, também, “The Method and Theories of Physical Science in Their Bearing on Biological Organization”, Growth Supplement (1940), págs. 127-154.
(65) Há exceções, em algumas doutrinas pós-kantianas como as de Schopenhauer e na filosofia de Bérgson. e também na psicologia da Gestalt.
(66) Para maior desenvolvimento deste ponto vide, deste autor, “The Functions and Future of Poetry”, in Furioso, Vol. 1, n.0 4 (New Haven, Connecticut, 1941), págs. 71-82).
(67) Pág. 7. (68) Science and First Principies (Nova Iorque e Cambridge, Inglaterra: University Press, 1931), págs. 256-261.