Conjuntura e Panorama Internacional

por Leopold Senghor e Mateo Madridejos (1979), Editora Salvat; Rio de Janeiro.


A conjuntura internacional
A guerra consagrou a hegemonia dos Estados Unidos e da União Soviética, duas potências sem passado colonial que adotaram, por razões opostas, uma mesma política anticolonial. O presidente Franklin Roosevelt (1882-1945), apoiado pelo capitalismo americano, ávido de novos mercados, desde o começo da guerra manifestou seu interesse em «dar uma reviravolta» no mapa do mundo, perante a surpresa e irritação de Winston L. Churchill (1874-1965). Os britânicos, cuja sobrevivência dependia em grande medida da ajuda do governo de Washington, tiveram que resignar-se a que o artigo 3.° da Carta do Atlântico (1941) afirmasse «o direito de cada povo a eleger a forma de governo sob a qual desejasse viver». A liquidação das barreiras impostas ao comércio pelos impérios coloniais constituía um dos objetivos prioritários das grandes companhias americanas; isto manifestou-se quando a grande imprensa daquele país lançou uma feroz campanha contra a obstinação colonialista da Grã-Bretanha e França na Índia, Indochina e Norte de África. Esta atitude só se modificou quando a «guerra fria» se estendeu a todos os continentes.
Pelo seu lado, a União Soviética, que durante a guerra tinha cancelado sua campanha anticolonialista com o objetivo de fortalecer o esforço comum contra o nazismo, adotou de novo uma política agressiva, que atingiu seu zênite após a tomada do poder pelos comunistas na China (1949) e durante a guerra da Coréia (1950-1953).
A Grã-Bretanha, ao patrocinar a criação da Liga Árabe (1945) com o objetivo de perpetuar seus interesses no Oriente Próximo, representou o papel de aprendiz de feiticeiro; de fato não previu a viragem antibritânica de muitos países da região, como conseqüência da situação no Egito, nem o peso cada vez mais decisivo das companhias petrolíferas americanas. Até ao começo da Primeira Guerra Mundial, o Oriente Próximo fora o domínio exclusivo da Irak Petroleum Company Ltd. e da Anglo-lranian Oil Company Ltd.; mas, a partir de 1946, aproveitando as dificuldades econômicas que atravessava a Grã-Bretanha, as companhias americanas obtiveram novas e importantes concessões numa região que acumulava 70% das reservas mundiais de hidrocarbonetos.
Por outro lado, a Liga Árabe não se limitou a denunciar o colonialismo francês no Norte de África, mas acabou convertendo-se no verdugo que assestou o golpe de misericórdia no imperialismo britânico.

As Nações Unidas e o direito à autodeterminação
A coincidência das táticas anticolonialistas dos Estados Unidos e da União Soviética teve reflexo imediato na constituição e atividades da Organização das Nações Unidas, transformando-a progressivamente numa máquina de guerra contra o colonialismo. No artigo 1.°, parágrafo 2.°, a Carta de fundação estabelece que as Nações Unidas se propõem «desenvolver as relações amistosas entre as nações, baseadas no respeito dos princípios da igualdade de direitos e autodeterminação dos povos».
Esse princípio não fora incluído no pacto da velha Sociedade das Nações porque o americano Robert Lansing (1864-1928), então secretário de estado, considerou que ele estava «carregado de dinamite». Os Estados Unidos e a União Soviética, ao patrocinarem agora a inclusão deste princípio na Carta onusiana, estavam persuadidos de que o craque do colonialismo era benéfico para seus interesses. De qualquer forma, o princípio da autodeterminação era inevitável se a nova organização mundial aspirava prevenir a guerra e proscrever o uso da força nas relações internacionais. A Carta, além disso estabelecia como um de seus objetivos prioritários a utilização da nova «maquinaria internacional» para promover «o desenvolvimento econômico e socIal de todos os povos».
A filosofia anticolonialista das Nações Unidas, em que coincidem os dois blocos ideológicos antagônicos, considera que a soberania e a independência constituem o culminar da existência internacional de um povo, isto é, que o progresso político dos povos é incompatível com a dependência imposta por um país estrangeiro.
O direito à autodeterminação tem dois significados: a nível interno, a liberdade de escolher o regime político sem ingerências exteriores; a nível internacional, a manutenção da independência se se trata de um estado soberano, ou sua aquisição por parte dos povos que reúnem todas as características de uma existência nacional.
Dentro do capítulo do progresso político, com o objetivo de favorecer «as aspirações livremente expressas pelas populações interessadas», a Carta de fundação das Nações Unidas contém duas disposições básicas relacionadas com os territórios coloniais: o regime de tutela (capítulo XII) e a declaração sobre os territórios não autônomos (capítulo XI).
O regime de tutela é uma nova versão do velho sistema de mandatos instituído pelo pacto da Sociedade das Nações: seu objetivo era conduzir os povos dos territórios tutelados até adquirirem a capacidade de se auto-administrarem, e, em última análise, até à independência. No final dos anos 70, já só restava um território sob tutela: a Micronésia, grupo de ilhas do Pacífico, administradas pelos Estados Unidos. Em junho de 1977 os Estados Unidos levaram ao Conselho de Tutela um informe de que constavam os trabalhos destinados a outorgar a este território a independência total. Um dos arquipélagos, as Marianas do Norte, aprovara um convênio, aceito pelo Conselho, para estabelecer um governo estreitamente ligado aos Estados Unidos. O futuro estatuto dos restantes arquipélagos ainda havia de determinar-se. Os Estados Unidos prevêem a conclusão do Tratado de Tutela ou de Fideicomissos cerca de 1981.
A declaração sobre os territórios não autônomos impõe às potências coloniais (artigo 73) a «missão sagrada» de favorecer na medida do possível o bem-estar das populações indígenas.
Entre as obrigações, à mais importante é a que introduz o controle internacional; estabelece que as potências coloniais têm de «comunicar regularmente ao secretário-geral, a título de informação, com reserva das exigências de segurança e considerações de ordem constitucional, os dados estatísticos e outros de natureza técnica».
Por outro lado, a aplicação do direito à autodeterminação tem estado intimamente ligado com os trabalhos das Nações Unidas sobre a proteção internacional aos «direitos do homem», tal como foram reconhecidos na Declaração Universal adotada pela Assembléia Geral em 10 de dezembro de 1948. Uma resolução dessa Assembléia (1950), com respeito a um projeto de pacto internacional sobre esses «direitos», solicitava do Conselho Econômico e Social que convidasse a Comissão dos Direitos do Homem (órgão subsidiário do Conselho) «para que estudassem as vias e os meios para garantirem aos povos e às nações o direito a disporem de si mesmas». A resolução de 5 de fevereiro de 1952 fez incluir no Pacto internacional dos Direitos do Homem o seguinte artigo: «Todos os povos têm o direito a disporem de si mesmos», re- forçando depois que este «é um direito fundamental do homem».
As conseqüências destes princípios, consagrados na Carta e nas resoluções das Nações Unidas, têm sido inumeráveis e importantíssimas. O areópago de Manhattan converteu-se numa caixa de ressonância para as queixas e aspirações dos povos que tinham estado ou ainda se encontravam sob o jugo colonial. Uma resolução adotada pela Assembléia Geral em dezembro de 1954 afirmava o princípio da soberania permanente dos povos sobre suas riquezas e recursos naturais.
A tese mais radical sobre o colonialismo, que condenava a imposição do domínio estrangeiro em qualquer circunstância, foi adotada pela Assembléia Geral na sua famosa «Declaração sobre a concessão de independência aos países e povos coloniais» (14 de dezembro de 1960), baseada na resolução da Conferência de Bandung. A dita declaração denuncia a submissão de um povo por outro como sendo a negação dos direitos humanos e como uma forma de impedir a paz; proclama o direito de todos os países à autodeterminação sem condições nem reservas de espécie alguma, e repudia o regime de tutela ao afirmar que a insuficiência de preparação política, econômica, social ou educativa não devem constituir em caso algum pretexto para atrasar a independência. Esta é a tese que prevaleceu na Ásia e na África, com diferentes matizes e nas mais variadas circunstâncias, durante todo o processo de descolonização iniciado após a Segunda Guerra Mundial.

A posição das Igrejas
As Igrejas cristãs, comprometidas inicialmente com o poder colonialista, evoluíram lentamente a favor os povos submetidos, processo este não isento de contradições. A «guerra fria» e a adesão do Vaticano à política anti-comunista do Ocidente sob a direção dos Estados Unidos e da Nato (North Atlantic Treaty Organization=Organização do Tratado do Atlântico Norte, OTAN) complicou e debilitou a posição das igrejas locais. O cristianismo tinha predicado uma doutrina igualitária cuja aplicação prática encontrou numerosas restrições. Em 1953, os bispos de Madagáscar, numa pastoral coletiva, reconheciam «o direito dos povos a governarem-se a si mesmos»; mas, um ano depois, a propósito da Guerra da lndochina, como conseqüência da «guerra fria», L'Osservatore Romano comparava os defensores de Dien Bien Phu (1954) a Joana d' Arc.
A encíclica Pacem in Terris (11 de abril de 1963), promulgada pelo papa João XXIII (1881-1963), reconciliou a igreja católica com muitos dos «sinais do nosso tempo»; particularmente com o processo descolonizador. Além de conter um elogio enorme à Declaração Universal dos Direitos do Homem e um apoio claro à ação das Nações Unidas, o documento pontífico chamava a atenção sobre os falsos princípios em que se baseava o colonialismo. «...Algumas comunidades políticas podem superar outras quanto ao grau de cultura, civilização e desenvolvimento econômico; mas isto, longe de justificar seu predomínio, pelo contrário obriga-as a que prestem uma maior contribuição ao trabalho pelo progresso comum. Na realidade, não existem seres humanos superiores por natureza, pois que todos são iguais em dignidade. Por conseguinte, não existem diferenças natural entre as comunidades políticas; todas são iguais em dignidade, sendo corpos cujos membros são os seres humanos. Não se deve esquecer que os povos, com todo o direito, são muito sensíveis às questões de dignidade e honra.» João XXIII felicitou os africanos por «procurarem as bases de uma comunidade cultural africana» (1959), e afirmou que «Cristo fixou um tempo para cada nação» e que «a Igreja sentia-se obrigada a assisti-los maternalmente (aos povos africanos) no seu progresso» (1960). O caminho iniciado seria prosseguido pelo papa Paulo VI na sua encíclica Populorum progressio (26 de março de 1967), que abordava alguns dos problemas mais candentes do Terceiro Mundo. A partir de 1970 a diplomacia do Vaticano e numerosos sacerdotes condenaram, sem reservas, o colonialismo português, o mais recalcitrante.
Se excetuarmos a igreja reformadora holandesa, que continua sendo um dos pilares da política do apartheid (discriminação racial) na República Sul-Africana, as igrejas cristãs, cujos missionários foram um fator importante na expansão colonial, aderiram ao processo descolonizador; têm defendido o direito dos povos à autodeterminação e à luta contra o neocolonialismo. Na Rodésia, por exemplo, o clero revelou-se a oposição principal ao regime racista estabelecido pelos colonos de origem britânica.

As Filipinas iniciam a descolonização e o neocolonialismo
Num ato celebrado em Manila no dia 4 de julho de 1946, para proclamar a independência da República, o presidente filipino Manuel A Roxas (1891- 1948), depois de afirmar que a França e a Grã-Bretanha eram “nações de segunda ordem”, disse: “Para milhões de asiáticos a bandeira norte-americana flutua mais triunfante do que nunca. O governo dos Estados Unidos, ao conceder a independência ao arquipélago, pretendia dar uma lição a seus aliados europeus; estes continuavam empenhados, segundo as palavras do presidente Roosevelt, numa «política colonial caduca”. A independência das Filipinas marcou também um novo rumo: abriu caminho ao neocolonialismo.
Não foi um ato gratuito ou generoso, mas uma operação cuidadosamente estudada pelos estrategos políticos americanos. Em primeiro lugar, o Congresso aprovou a Bell Trad Act, uma lei que outorgava aos cidadãos norte-americanos estabelecidos nas Filipinas os mesmos direitos que aos filipinos; e confiava ao governo de Washington a recuperação econômica e financeira do país. Outra lei, a Philippme Rehabillitation Act, subordinava a ajuda econômica à aceitação da Bell Act. Em virtude de um acordo militar, os Estados Unidos ficaram com o direito de ocuparem 23 bases aeronavais no arquipélago por um período de 99 anos. Nestas circunstâncias, o governo de Washington não teve inconvenientes em dar uma independência que, sem dúvida, era mais rentável que a manutenção direta do domínio.
Quase ao mesmo tempo, em Londres, Paris e Haia traçavam-se planos para recuperar ou manter os impérios coloniais; pelo menos para tentar limitar os efeitos de um abandono destes, como se a guerra tivesse sido um acontecimento sem importância para as colônias. As tropas francesas puseram de novo os pés na lndochina para reforçar as unidades que aí tinham ficado após a capitulação japonesa; os holandeses voltaram à lnsulíndia; os britânicos realizaram na Índia manobras de última hora...
As reformas inevitáveis nas colônias de inicio limitaram-se a simples mudanças terminológicas. Os britânicos já não falavam no «Império», mas na Commonwealth. A Constituição francesa de 1946 criou a Union Francese, baseada teoricamente na igualdade de direitos e deveres, mas presidida na prática pelos velhos princípios da soberania francesa e da república “indivisível”; desta faziam parte as antigas colônias transformadas em «territórios do ultramar»; só os chamados «estados associados» (antigos protetorados) não se integravam no território nacional. A Câmara dos Comuns decidiu (1947) que o termo Commonwealth, até então aplicado apenas aos países de origem britânica, ou pelo menos de civilização ocidental, podia englobar todos os territórios do império; assim construía os alicerces para uma mutação posterior. Em Portugal, o regime de António de Oliveira Salazar (1889-1970) substitui o nome de colônias pelo de «províncias portuguesas do ultramar».
No entanto, logo foi possível observar que os movimentos de emancipação nacional tinham adquirido um impulso impossível de deter com meras medidas administrativas ou com retoques constitucionais a uma ordem que pretendia ser imutável. O velho colonialismo europeu começou então a travar um combate de retaguarda, tentando atrasar o inevitável; quando não o conseguiu, resignou-se à independência de suas antigas colônias. Tentou freqüentemente associar a esta independência tratados de cooperação econômica, teoricamente concebidos para benefício mútuo, mas que, na realidade, assentavam as bases para uma dominação mais sutil, no estilo daquela que os Estados Unidos tinham imposto às Filipinas.
Ao processo descolonizador, que constitui um período pouco edificante da história das grandes potências coloniais, presidiram as exigências econômicas, tal como na expansão colonial no século anterior. Salvo raras exceções, a concessão da independência nunca foi o simples reconhecimento de um direito, mas sim o resultado de um cálculo ou a conseqüência dolorosa de uma guerra. Não obstante, é de estabelecer algumas diferenças na atuação das grandes potências.
Em geral, o pragmatismo britânico deu melhores resultados que o rígido «racionalismo» francês. Os britânicos conseguiram quase sempre um entendimento com as elites nacionalistas que reclamavam a independência, evitando o confronto armado; lograram preservar inúmeras vantagens comerciais através da Commonwealth. A França, pelo contrário, talvez em conseqüência da debilidade congênita dos governos da IV República (1945-1958) sofreu uma descolonização sangrenta, sem que a terrível lição da Indochina fosse aproveitada para evitar a tragédia argelina.
Apesar dos britânicos terem sabido arrear oportunamente sua bandeira, não se mostraram menos obstinados que os franceses nos territórios aonde uma hipotética «ameaça comunista» pusesse em grande perigo a estratégia da sua retirada política; pois jamais se poderia falar de retirada econômica e militar. O caso mais claro é encontrado na implacável repressão levada a cabo na Malásia (1951).
A Holanda, ao impor uma guerra feroz aos indonésios, comprometeu durante muito tempo as relações com sua ex-colônia; praticamente estas não foram restabelecidas antes da destituição de Sukarno (1967). Posteriormente, tanto os holandeses na Indonésia quanto os belgas no Congo viram-se suplantados pelos Estados Unidos. O colonialismo português foi o mais irredutível e o mais oneroso, se se tiver em conta o enorme sacrifício suportado por um país com nove milhões de habitantes. Em última análise, a negativa para empreender a descolonização provocou uma revolução interna que pôs fim a uma ditadura de 48 anos e liquidou um império de cinco séculos (25 de abril de 1974).

O colonialismo organiza sua sobrevivência
«O colonialismo, que já não se atreve a proclamar-se como tal e a atuar sem embuços, organiza sua sobrevivência parcial anunciando projetos de cooperação e emancipação progressiva.» Esta tese do economista francês François Perroux resume os esforços tremendos feitos pelas potências coloniais européias para manter sua hegemonia nos países colonizados. As razões desta atitude, definida com freqüência como egoísmo cego e obstinado, se encontram na necessidade de conservar mercados e reservas de matérias-primas; o mundo tornara-se mais pequeno para o grande capital em conseqüência da formação do bloco socialista na Europa oriental e do triunfo do comunismo na China.
Para manter suas posições e assegurar a exploração das matérias-primas necessárias às suas indústrias em constante expansão, os Estados Unidos e as potências coloniais européias recorreram aos mais variados métodos, sobretudo a partir do começo da «guerra fria» em 1947. O processo descolonizador oferece inúmeros exemplos de como os países ocidentais esqueceram os princípios que proclamavam defender no momento de perpetuarem a dominação econômica sobre os países a quem haviam concedido a independência política.
As táticas empregadas foram quase sempre uma resposta à atitude do colonizado que queria alcançar sua libertação. Conscientes da complexidade deste processo, atrevemo-nos a propor a seguinte síntese:
1) Geralmente, a descolonização pacífica implicou a aliança ou o entendimento do poder colonial com a burguesia autóctone, quando esta existia; ou então com os chefes ou autoridades tradicionais ou, inclusive, com um líder carismático e seus colaboradores do partido único. Ao conceder a independência, as potências coloniais trataram de limitar os prejuízos da descolonização e prolongar o seu domínio sobre formas muitos mais discretas. Assim alcançaram a independência a maior parte dos países da África negra.
2) O poder colonial provocou divergências entre as forças políticas ou religiosas da colônia, a fim de impor melhor suas condições ou assegurar sua presença na zona. A divisão da Índia é um exemplo do fanatismo religioso excitado pela metrópole para enfraquecer o Partido do Congresso.
3) Quando a independência foi reclamada por um movimento popular que ameaçava fazer mudar o país de «campo» ideológico, a guerrilha ou a guerra aberta foram fenômenos correntes, como na lndochina, Malásia e Argélia.
4) Em alguns países divididos ou em guerra civil, as potências européias aliaram-se aos nacionalistas conservadores, alguns dos quais tinham, inclusive, colaborado com os japoneses na Segunda Guerra Mundial, e não duvidaram em apoiar os regimes ditatoriais como nas Filipinas, na República do Vietnã (Sul), na República Democrática da Coréia (Sul) e em Taiwan (Formosa).

A guerra da Indochina
A derrota da França em 1940, o estabelecimento do governo colaboracionista em Vichy (1940-1944), o apelo do general Charles de Gaulle (1890-1970) para prosseguir o combate, foram três fatores que provocaram a primeira cisão no edifício colonial francês. O Líbano e a Síria erodiram imediatamente a autoridade da metrópole e alcançaram a independência respectivamente em 1941 e 1943, em pleno conflito bélico.
Enquanto a África negra se orientava progressivamente a favor da política do general De Gaulle, os dirigentes do Norte de África optavam por permanecer fiéis ao marechal H. Philippe Pétain (1856-1951); mas, a partir de outubro de 1943, após a capitulação alemã na Tunísia, todo o império ficou debaixo da autoridade da França Livre, simbolizada pela figura de De Gaulle.
A Conferencia de Brazzaville (30 de Janeiro de 1944) estabeleceu as bases para uma Comunidade Francesa que englobava todos os territórios coloniais; adotaram-se algumas disposições para promover a evolução das populações indígenas, mas reafirmou-se o princípio da soberania francesa. Em Marrocos e na Tunísia, em parte influenciados pelos americanos, os nacionalistas começaram a dar sinais de vida em 1944; os manifestos do partido AI Istiqlal e da Frente Tunisina condenaram o protetorado e reclamaram a independência.
Todavia, para a França, os problemas mais graves surgiram na Indochina; a ocupação japonesa criara uma situação propícia à resistência nacionalista, agrupada na Liga Patriótica para a Independência do Vietnã (Vietminh) desde 1941. Sob a direção de Ho Chi Minh, as forças populares aproveitaram a capitulação nipônica para proclamarem, em Hanói, a República Independente do Vietnã (2 de setembro de 1945). Pela primeira vez, o Governo de Paris encontrou-se perante o fato consumado de ter um poder nacionalista implantado em uma de suas colônias.
Apesar das pressões dos Estados Unidos, a França não se resignou. A tática empregada para recuperar o poder baseou-se no anticomunismo e na submissão do imperador Bao-Dai; após o fracasso das negociações com Ho Chi Minh em Fontainebleau (julho de 1946) foram buscar o ex-imperador ao seu retiro para presidir à formação de um «Estado vietnamita» na Cochinchina. O bombardeamento do porto de Haifong e o retorno das tropas francesas a Hanói assinalaram o começo da guerra entre a França e o Vietnã; esta terminou com a derrota francesa na célebre batalha de Dien Bien Phu e com os acordos de Genebra (julho de 1954); o país ficou dividido em dois ao longo do paralelo 17, fórmula que trazia já os germens do conflito posterior.
A guerra da Indochina não desandou o colonialismo francês. Face às reivindicações dos nacionalistas no Norte da África, o Governo pôs a circular a tese da «co-soberania». Os distúrbios no território tunisino a partir de 1950 e as tensões marroquinas, exacerbadas pelo pró-consulado do marechal Alphonse- Henri Juin (1888-1967) combinaram-se com o desastre da Indochina para criar uma grave crise política na metrópole; esta foi resolvida com a chegada de Pierre Mendês-France ao poder executivo como primeiro liquidador do império. Quando a França reconheceu a independência da Tunísia e do Marrocos (1956), fazia mais de um ano que fora criada, na Argélia, a Frente de libertação Nacional (FLN; 1 de novembro de 1954), que prosseguiria a luta até 1960.
Durante o mesmo período, a União Democrática Africana e o Grupo dos Independentes do Ultramar começaram a defender a emancipação dos territórios da África negra. A resposta francesa à agitação nacionalista revelou uma obstinação perigosa por parte dos governos da IV República, uma vez esgotada a experiência inteligente de Mendês-France. A Lei das Bases (23 de junho de 1956), se bem que criando assembléias territoriais, eleitas e dotadas de poderes deliberativos, manteve o princípio da República “una e indivisível”. Esta política colonial acabaria por provocar uma mudança de regime; ela veio com o general De Gaulle (junho de 1958) e a proclamação da V República.

A independência da Índia e da Indonésia
No final da Segunda Guerra Mundial, os ingleses encontraram uma situação explosiva na Índia. A libertação dos principais dirigentes do Partido do Congresso, encarcerados durante o conflito, e o separatismo da Liga Muçulmana, aumentaram os riscos de uma guerra civil. Em fevereiro de 1947, Clement R. Attlee (1883-1967) declarou que a Grã-Bretanha transferiria os poderes «para mãos indianas» o mais tardar em junho de 1948, o que desencadeou imediatamente graves distúrbios intercomunitários. A soberania britânica foi efetivamente transferida para os novos Domínios da Índia e do Paquistão em 15 de agosto de 1947. A divisão do território originou um êxodo gigantesco e violentas lutas entre hindus e muçulmanos, nas quais pereceram mais de um milhão de pessoas. O próprio Gandhi foi vítima do fanatismo religioso.
O mesmo caminho seguiram o Ceilão e a Birmânia (1948), se bem que este país não tivesse querido ingressar na Commonwealth. Na Malásia, operários e camponeses reagiram violentamente face à perspectiva de continuarem dominados pelas companhias européias que dirigiam indústrias e plantações. A guerrilha, constituída principalmente pela população de origem chinesa, teve seu apogeu no período de 1948-1952. O alto comissário britânico, investido com poderes praticamente ilimitados da Emergency (estado de emergência) procedeu à deslocação maciça das populações e ordenou o desenrolar de operações sangrentas na selva, em que morreram cerca de 150.000 pessoas. A independência foi dada apenas em 1957, com a aliança do poder neocolonial com as elites malaias e a burguesia chinesa das cidades; os britânicos continuaram dominando as indústrias da borracha e do estanho, o comércio exterior, os bancos e seguros.
A política seguida pelo governo britânico no Sueste asiático não implicava, segundo a pretensão oficial, uma ruptura com o passado, mas a «adaptação a novas necessidades». Instituições decalcadas do modelo britânico foram estabelecidas em populações subalimentadas e ignorantes; considerou-se que a interdependência econômica, absolutamente impossível entre dois sócios tão desiguais, criaria novos laços entre a metrópole e as antigas colônias; em 1948 instituiu-se a Colonial Development Corporation, para favorecer os planos de desenvolvimento das riquezas do ultramar e garantir os investimentos do capitalismo britânico.
Nas Índias holandesas, onde o triunfo japonês foi fulgurante, os nacionalistas fortaleceram-se consideravelmente durante a guerra. Tal como Ho Chi Minh na lndochina, Ahmed Sukarno aproveitou a capitulação japonesa para proclamar imediatamente a independência da Indonésia (17 de agosto de 1945). Os holandeses tentaram impor-se primeiro pela negociação, depois pela força. As Nações Unidas intervieram (1947) para ordenar o cessar fogo e o reatamento das negociações, celebradas num navio americano ancorado no porto indonésio de Jakarta: estavam bem patentes as pressões do governo de Washington contra o colonialismo, que considerava suicida.
A insurreição comunista em Madiun, ainda insuficientemente esclarecida, transformou o combate pela independência numa guerra social e civil; os holandeses aproveitaram para prenderem Sukarno e numerosos ministros do seu governo. No entanto, a resistência passiva da população e, sobretudo, o apoio moral dos Estados Unidos e das Nações Unidas aos nacionalistas, obrigaram as autoridades holandesas a pôr fim à sua empresa. A transferência de soberania efetuou-se em dezembro de 1949, após o acordo adotado em uma conferência celebrada em Haia.

A criação do Estado de Israel
Decidido a liquidar os problemas coloniais mais perigosos, o governo trabalhista britânico mostrou desde o primeiro momento seu propósito de abandonar o mandato da Palestina. Após a decisão das Nações Unidas de ser dividido o território em dois estados, um judaico e o outro palestino, ficando Jerusalém sob estatuto internacional, o exército britânico foi repatriado. Sabia-se, no entanto que o confronto entre as duas comunidades era inevitável. Poucas horas após a proclamação do Estado de Israel (14 de maio de 1948), os exércitos dos seis países árabes vizinhos invadiram a Palestina; foram derrotados pelas tropas israelitas. O armistício de 1949 fixava as fronteiras de Israel sobre a linha do cessar fogo; este abarcava um território muito mais extenso que o outorgado pelas Nações Unidas, e dele fugiram quase um milhão de árabes palestinos.
A derrota na Palestina revelou a corrupção e incapacidade dos regimes árabes, e provocou um surto nacionalista que viria a ter influência decisiva numa das zonas mais estratégicas do mundo. O acontecimento mais importante foi o derrube da monarquia egípcia (23 de julho de 1952) pelos Oficiais Livres dirigidos pelo tenente-coronel Gamal Abdel Nasser (1918-1970), que proclamaram a República presidida pelo general Ali Mohammed Naguib. O novo regime egípcio, que inicialmente se virou para o Ocidente, conseguiu que os ingleses abandonassem primeiro o Sudão (fevereiro de 1953) e depois o Canal de Suez (julho de 1956). Deposto o general Naguib (março de 1949), o nasserismo transformou o Cairo na capital do renascimento árabe, violentamente oposto ao imperialismo ocidental.

A Conferência de Bandung
Segundo Léopold S. Senghor, presidente do Senegal, a Conferencia de Bandung foi a expressão da rebelião moral contra a dominação européia. Convocada pelos cinco países do «grupo de Colombo» (Índia, Paquistão, Ceilão, Birmânia e Indonésia), reuniu pela primeira vez os chefes de estado ou governo de 29 países de Ásia e África, de 18 a 24 de abril de 1955, na cidade indonésia de Bandung.
A Conferência celebrou-se após o primeiro assalto da descolonização na Ásia, prelúdio do que muito em breve se desenrolaria na África. Os participantes apenas tinham em comum a hostilidade à opressão colonial. «O colonialismo terminou», dizia um jornal americano ao comentar a convocatória dessa Conferencia. «A Ásia é livre. Este pode ser o maior acontecimento do nosso século.» Com efeito, os «países brancos» foram excluídos; mas um simples relembrar das alianças em que estavam comprometidos alguns dos participantes teria bastado para se dar conta que essa exclusão era mais teórica que real. Alguns delegados deixaram bem claro que temiam tanto ou mais o comunismo que o imperialismo. Os neutros estiveram em minoria.
Dois temas dominaram os debates: o colonialismo e o terror atômico. Os delegados acordaram em manter a independência a todo o custo, se bem que não tivessem chegado a um acordo sobre os meios de consegui-lo. Aceitaram uma planificação autoritária e uma acumulação forçada de capital, como estava fazendo a República Popular da China. A ajuda externa, nas suas diversas formas - empréstimos, concessão de capitais ou serviços, etc. - era absolutamente necessária para superar o subdesenvolvimento, pois a maior parte das entradas de divisas provinha das exportações de matérias-primas e seus preços fixados no mercado internacional dominado pelos Estados Unidos e antigos poderes coloniais. Contudo, a tese defendida pelo representante chinês, Chou En-Iai, não conseguiu muitos adeptos. A guerra que muitos países tinham sofrido no primeiro período da descolonização arruinara qualquer esperança de desenvolvimento.
Não pôde resolver-se uma contradição essencial: as consignas independentistas chocavam com os imperativos da realidade econômica. Os discursos de Nehru sobre a necessidade de uma terceira força que favorecesse a coexistência entre o Leste e o Ocidente não conseguiram sucesso entre as outras delegações. À corrente neutra lista faltava-lhe força para contrariar as exigências da «guerra fria» e as posições americanas na Ásia e África. Apesar de tudo, a Conferência assinalou a irrupção do Terceiro Mundo na cena internacional, mesmo precariamente armado com apenas os dez princípios do comunicado que resumia os trabalhos da Conferência.
Os apóstolos do neutralismo não fizeram mossa no sistema de pactos criado pelo governo dos Estados Unidos, sob o impulso de John Foster Dulles (1888-1959), para conter o progresso do comunismo. Instalado no maniqueísmo da «guerra fria», o governo americano estava disposto a combater a emancipação real dos antigos povos coloniais em nome do anticomunismo; mas utilizava métodos diferentes dos da Grã-Bretanha e da França. Por seu lado, a União Soviética após a morte de Josef Stalin (1879- 1953), tinha lentamente evoluído para uma apreciação positiva dos esforços das burguesias nacionais para sacudirem o jugo colonial, mesmo não alinhando com os partidos comunistas.

Anexo:
Conferência de Bandung - Comunicado oficial que resume os 10 princípios fundamentais sobre os quais haveria de basear-se a coexistência entre os povos
1) Respeito dos direitos humanos fundamentais, conforme os fins e os princípios da Carta das Nações Unidas.
2) Respeito pela soberania e integridade territorial de todas as nações.
3) Reconhecimento da igualdade de todas as raças e da igualdade de todas as nações, grandes e pequenas.
4) Não intervenção e não ingerência nos assuntos internos de outros países.
5) Respeito do direito de cada nação a defender-se individual ou coletivamente conforme foi estipulado na Carta das Nações Unidas.
6) a) Recusa de todo o pacto de defesa coletiva destinado a servir os interesses das grandes potências, seja quais forem.
b) Recusa de toda a pressão que uma potência pretenda exercer, seja qual for a potência.
7) Abstenção de atos ou ameaças de agressão, ou de emprego da força contra a integridade territorial ou a independência política de um país.
8) Solução de todos os conflitos por métodos pacíficos, tais como a negociação ou conciliação, arbritagem e acordo perante tribunais, assim como pelo emprego de outros meios pacíficos que os países interessados poderão escolher, conforme a Carta das Nações Unidas.
9) Estímulo dos interesses mútuos e da cooperação.
10) Respeito à justiça e às obrigações internacionais. ]