Metafísica Ocidental, Metafísica Oriental

por George P. Conger em Moore, C. (org.) Filosofia: Oriente, Ocidente. (1978), Edusp-Cultrix, São Paulo.


Se há necessidade de alguma justificação para a Metafísica, digamos que o termo aqui designa o estudo das principais características gerais do universo. A despeito de muitas tradições, o que é metafísico não deve e não necessita ser meramente o metempírico; qualquer metafísica deve incluir os dados empíricos, ainda que não tente levar mais longe suas explorações. Pensando bem, podemos comparar a Metafísica com a gravidade: de certo modo estamos inextricavelmente envolvidos por ela, e qualquer contravenção alegada ou tentada de sua lei só serve para mostrar-lhe a força em nova manifestação. O perigo, principalmente para alguns ramos do pensamento contemporâneo, não é tanto o de que não haverá Metafísica quanto o de um ou de outro método de obter conhecimento, sobre o qual ainda serão feitas muitas perguntas meramente metodológicas, ser indevidamente transformado em uma Metafísica e considerado resposta ao problema do universo e da posição do Homem nele.
Um estudo das metafísicas oriental e ocidental não é nada desprezível: deve servir para mostrar se ainda se pode dispor de uma estrutura para uma Filosofia de âmbito mundial. É um tipo de estudo em que se poderia passar a vida sobre um prefácio, mas passemos logo aos fundamentos.
Os termos "oriental" e "ocidental" devem ser entendidos em sua habitual flexibilidade. O primeiro significa a Índia, a China e o Japão, e no segundo, por motivos especiais, se incluem o mundo árabe e o palestino, bem como a Europa e as Américas. A linha ou região fronteiriça parece estar nas vizinhanças do Golfo Pérsico, mas contribuições autóctones da Austrália e da África (exceto a de Ikhnaton) (1) podem ser excluídas por serem primitivas.
É de notar, desde logo, que o Oriente e o Ocidente, no sentido em que são tomados aqui, sob vários aspectos não estão bem equilibrados. As culturas orientais são as mais antigas e provêm de territórios mais densamente povoados. No Ocidente, a história conhecida da Filosofia está muito mais intimamente ligada ao pioneirismo econômico, à organização política e ao progresso científico. São diferenças que tiveram seu efeito sobre as respectivas metafísicas; para atravessar todo o território abrangido, uma generalização metafísica, como uma rota de avião, deve ser elevada, deve ter uma visão ampla.
De todas as generalizações, a proporcionada pelas abstrações do número é a que melhor nos serve aqui. Os sistemas metafísicos diferem de acordo com o número de características ou entidades gerais, que são vistas como essenciais para o mundo. Nos sistemas monísticos se considera que tudo é essencialmente uma espécie de coisa; nos sistemas dualistas, duas espécies, e nos pluralistas, muitas espécies. Devemos dizer, de saída, que não há distinção absolutamente precisa entre tais sistemas, e que na maioria dos casos cada um, mais cedo ou mais tarde, contém algo dos outros. Não obstante, quando os sistemas metafísicos orientais e ocidentais são classificados desta maneira, seus traços mais significativos começam a aparecer; e outras generalizações em termos de substância, causalidade, etc., podem ser adaptadas à classificação.
Passamos a uma análise dos sistemas monísticos, com uma série de classificações cruzadas mostradas no quadro.
Na primeira coluna do quadro, os monismos estão agrupados de acordo com as suas descrições da Realidade Una em termos mais ou menos concretos, e similarmente mais ou menos abstratos. Tentativas de definir "concreto" e "abstrato" são como tentativas de definir "norte" e "sul": dependem do ponto de vista que se pressuponha. Quando damos por estabelecida alguma situação real, qualquer coisa que se considera concreta é relativamente mais carregada de conteúdo. É menos analítica e menos remota e leva em conta, ou inclui, mais qualidades realmente encontradas na situação dada como um todo. "Concreto" descreve a maneira como na realidade vivemos, aqui e agora; "abstrato" descreve a maneira como pensamos e teorizamos. Nos sentidos em que os termos são usados aqui, "concreto" se refere mais ou menos completamente à série de qualidades ou processos pessoais, tais como volição, intencionalidade, inteligência, sentimentos, emoções, consciência. Qualquer coisa abstrata tem menos qualidades desse tipo, ou as tem em menor grau.
Quando suas descrições de uma Realidade Una são, assim, consideradas como relativamente mais ou menos concretas, os monismos podem ser ordenados, como na primeira coluna, em uma espécie de espectro, começando com descrições totalmente abrangentes quanto às qualidades e propriedades e estendendo-se, em gradações mais ou menos definidas, por uma longa série, até chegarem a meras referências que tendem a conservar as qualidades descritivas ou atribuídas em proporção mínima. A palavra "espiritualista" se usa antes no seu sentido filosófico do que no popular: não deve ser confundida com "espírita". Deve-se frisar que em toda a série é difícil fixar quaisquer linhas claras de demarcação: os termos são usados por vários autores com diferentes nuanças de significado, e mesmo quando um significado está bem determinado, tende a transformar-se gradativamente em alguns dos demais.
Na segunda coluna, as palavras "conhecido, realizado ou alcançado" se referem a procedimentos relacionados na terceira coluna, e os monismos são classificados como reais, imediatos, finais ou alguma combinação destes. Se um monismo é efetivamente conhecido, realizado ou alcançado, nenhum outro procedimento se faz necessário para defini-lo à pessoa que o experimenta. Se é conhecido como imediato, procedimentos de raciocínio, treinamento ou disciplina podem ser necessários antes de a pessoa chegar à realização final. Pode-se dizer que os monismos finais, como veremos, incluem alguns, se não todos os chamados dualismos.
Na terceira coluna, a classificação destaca vários procedimentos e métodos usados em tentativas de conhecer ou realizar que a Realidade é Una. Primeiro relacionamos a percepção, embora poucos defendessem a opinião de que qualquer monismo final é apreendido por mera percepção, ou que somente ela é importante. A palavra "intuição" às vezes é usada como percepção imediata, porém sugere tantos componentes, especialmente emocionais, que é melhor reservar o termo para uma experiência mais intimamente integral, como abaixo. Muito freqüente na literatura do monismo está o apelo ao debate, à razão. Isto tem por vezes resultado em muita ingenuidade, mas freqüentemente, por outro lado, tem havido critica severa e apurada, com afirmações ponderosas e sutil dialética. De acordo com muitos escritores e escolas, a unidade final do mundo deve ser apreendida pelo exercício da vontade, ou por respostas exaltadas e mais ou menos imoderadas, ou pelas disciplinas da meditação, ou por intuição direta e imediata que integra e funde todos os recursos do organismo e da personalidade humana.

Sistemas Monísticos
1. A Realidade Una descrita com vários graus de concretitude (e graus correspondentes de abstração) em termos
. panteísticos
. personalísticos
. espiritualísticos
. idealísticos
. pan - psiquísticos
. naturalistas
. materialistas
. mecanicistas
. matemáticos
. neutros
ou
. referida simplesmente como um também não descrita
ou
. tida como inefável.
2. A Realidade Una descrita como conhecida, realizada ou alcançada
. de forma real
. de forma imediata
. de forma final
. ou em alguma combinação destas formas
3. A Realidade Una descrita como procurada pela
. percepção (às vezes chamada "intuição", mas vide abaixo)
. razão, mais ou menos critica ou dialética
. vontade, com disciplina mais ou menos voluntária
. emoção
. meditação
. intuição (no sentido mais comum deste termo)
. ou por alguma combinação destes procedimentos
Os monismos assim analisados podem ser reagrupados em grande número de permutações e combinações. Alguns deles talvez não tenham sido provados, mesmo na longa história da Filosofia, mas muitos outros são prontamente reconhecíveis, principalmente quando se não se levarem em conta algumas limitações de menor importância.
Voltando aos grandes sistemas orientais, vemos que a filosofia central dos Upanixades e do Vedanta, muitas vezes considerada panteísta, seria descrita com mais precisão como um monismo espiritualista. Exemplo melhor de panteísmo é apresentado pelo Deus de Spinoza com um número infinito de atributos. No Advaita Vedanta o Brâmane é caracterizado por sat (ser), cit (inteligência) e ãnanda (bem-aventurança), em vez de toda a gama de atributos pessoais; as modificações de Rãmãnuja na doutrina advaitista atribuem qualidades pessoais mais ricas ao Brâmane, mas com esse desenvolvimento se dirige antes para um personalismo do que para um panteísmo. Em qualquer das duas versões do Vedanta, o Brâmane é alcançado pelo indivíduo que chega a compreender sua própria identidade com a da Realidade Una. Tal conhecimento, realização ou saber é real ou final, de acordo com a interpretação do avidya, ignorância, e o grau de dificuldade que o estado de ignorância impõe. O conhecimento da própria identidade com o Um vem como imediato pela razão, bem como por disciplinas tomadas de empréstimo à Ioga ou nela refletidas, mas a consumação de todo o processo é uma intuição inefável. É para essa intuição que aponta o debate da razão, e nela repousa finalmente o debate. O Tao, ou Caminho, do Taoísmo é um objetivo ou estado final. É referido pelo uso de um termo singular, e deve receber seu lugar entre os monismos. Descrições específicas delas são reduzidas a um mínimo, mas como, em face dos sentimentos religiosos, apenas com grande dificuldade se pode sustentar qualquer abstração elevada, oferecem-se algumas pistas ao que busca. Algumas pistas nunca se livram do paradoxo, mas em conjunto seu significado é claro. O Taoísmo, com toda a sua vaguidão, proporciona uma espécie de disciplina cósmica. Para Lao - Tsé, e também para Chuang -Tsé, há um fundamento para todas as coisas. Se visto pelo prisma chinês, em vez do ponto de vista de alguns estrangeiros, o Tao é mais naturalista e menos espiritualista do que o Brâmane do Vedanta. Uma pessoa não se torna idêntica ao Tao, embora se possa identificar com ele. Há pouca especulação e relativamente pouco misticismo sobre ele; o Tao é obumbrado pela razão, mas é alcançado pela tranqüila observância de uma vida simples que se recusa a ser perturbada por males que são superficiais, porque alcança vê-los na perspectiva de ideais remotos.
A característica inclinação chinesa para as filosofias "tanto-como" aparece quando se faz qualquer tentativa de classificar o Confucionismo. O sistema é humanista e prático, mas, ainda assim, há uma ordem moral última com a qual o Homem deve unir-se. O verdadeiro conhecimento é alcançado de maneira bem positiva "pela investigação das coisas". O Neoconfucionismo é pelo menos monístico em seu relato dos princípios; um T'ai Chi (Grande Final) dá origem a uma díade, iniciando, assim, o processo cósmico que é impregnado pelo Li, o principio da razão; mas aqui também os interesses humanistas sobrevêm às teorias metafísicas e quase as ocultam. Aqui, como no Taoísmo, a Realidade Una dificilmente pode ser chamada espiritual ou psíquica: se tem qualidades, parecem qualidades que nos são familiares na Natureza.
O Budismo é tão variado que as combinações que apresenta são difíceis de identificar, para não falar na dificuldade de harmonizá-las. É, fundamentalmente, uma disciplina pessoal na qual a razão, muitas vezes pelo uso de uma dialética muito sutil, ajuda a encontrar o caminho para uma realidade final. Se queremos compreender os sistemas budistas, não devemos ser contidos por dificuldades comuns. As negações budistas e o niilismo, por exemplo, significam, não que o budista negue tudo e nada tenha a dizer, mas que ele pensa que penetrou além do âmbito da experiência ordinária e ali encontrou algo que não pode ser dito. De qualquer modo, a palavra "nada" é sempre um termo de referência, usada para um objeto considerado como portador de um mínimo de qualidades. Não significa ausência de tudo, e sim presença de algo meramente referido e também deixado sem descrição.
O Budismo tipicamente aponta para algo final (p. ex., Identidade, Nirvana, Dharmadhãtu) que "não e vazio, mas destituído" de qualidades específicas; sob estes aspectos, seu lugar é com os outros monismos de referência que examinamos. Visto sob outras perspectivas, por exemplo, na doutrina de Asvaghosha da reserva - de - ideação, na obra da etapa mais avançada de Vasubandhu e na escola Yogãcãra, em que a tradição adquire um feitio idealista, o Budismo se aproxima muito dos monismos conhecidos. O negativismo Mãdhyamika também é suficientemente completo para ser monista; é uma espécie de imagem especular de um monismo positivo, alcançado pelo tratamento dialético de alternativas nas quais nenhum dos passos sucessivos é inteiramente final, mas cada um é de certo modo relacionado aos outros como são as classes de classes numa teoria de tipos. O habitual negativismo de Nãgãrjuna se 'compreenderá melhor como uma espécie de teoria de tipos negativos, pois em uma de suas obras ele expôs seu monismo de modo mais afirmativo.
No realismo das escolas Sarvãstivãdin e Vaibhãsika do Budismo, como no Sãnkhya, o monismo é mais difícil de ver. O mundo é essencialmente independente de nós: não o absorvemos, nem nos tornamos idênticos a ele; livramo-nos dele e o deixamos de lado. O mundo de que nos livramos presumivelmente não deixa de existir, mas é, na melhor hipótese, inteiramente inútil, e podemos dizer que estes realismos resultam em um monismo prático ou avaliativo, embora teoricamente estejam entre os dualismos.
O Ocidente, como veremos, tornou o monoteísmo mais característico do seu pensamento do que o monismo; os monismos, onde surgiram, foram concepções ou pontos de vista de minorias. Os místicos ocidentais sempre ecoaram ou rivalizaram com os místicos orientais em seus relatos semiarticulados da Realidade Una; tenderam a descrever sua relação com ela antes como comunhão do que como união, mas defenderam esta com freqüência suficiente para torná-la familiar nesta parte do mundo.
O pensador ocidental que talvez tenha sido o mais oriental em seu modo de ver a Realidade final muito provavelmente chegou a ela por influência indiana. Plotino, com sua doutrina de que todas as coisas emanam do inefável Ser Primeiro e de que nós, afinal, pela razão, vontade, emoção e intuição, atingimos a reabsorção naquela fonte, está entre os monistas finais. Sua ênfase acha-se aí, no objetivo e não no curso, embora a adaptação das suas opiniões para atender às necessidades da teologia cristã o leve a parecer dualista.
Depois de Plotino, Spinoza foi a montanha monística seguinte. Notamos que Spinoza, em seu panteísmo, atribuiu a Deus um número infinito de atributos (apenas dois dos quais, o pensamento e a extensão, foram especificados ou considerados conhecíveis por nós). Mas o panteísmo, como o próprio Spinoza, nunca esteve inteiramente à vontade no Ocidente, porque a luz e a sombra do teísmo foram fortes demais. Também para os personalistas tem sido difícil alcançar o monismo. As mais elevadas qualidades pessoais parecem prosperar melhor em contraste: precisam ser gravadas em um pano de fundo, e não incorporadas a ele.
As sínteses recorrentes das teses e antíteses de Hegel colocam-no entre os monistas idealistas finais, para os quais o real é o racional e a nossa auto - realização é a auto - realização do Absoluto. Os sistemas de Bradley, Bosanquet e Royce diferem em suas descrições da Realidade Absoluta Una, mas em seus argumentos para fundamentá-la procuram ficar firmemente em terreno monístico. O voluntarismo de Fichte, assim como o de Schopenhauer, resulta no monismo idealista, e de muitas maneiras anuncia o pragmatismo posterior sem se deixar despedaçar em fragmentos pluralistas.
O evolucionismo criador de Bérgson não é dualista como às vezes o interpretam: é panvitalismo (e não pan - psiquismo), a menos que se pretenda que a visão mística de Deus seja entendida como algo que suplanta todas as outras teorias e princípios. Outros evolucionismos recentes, especialmente os de S. Alexander e R. W. Sellars, têm sido mais naturalistas; são versões metafísicas de tendências monistas nas Ciências, nas quais a crescente tendência a tudo exprimir sob forma matemática contribui para um monismo formal e abstrato. Quaisquer aspectos não- matemáticos ou não- métricos do mundo têm probabilidade de ser negados, desdenhados ou minimizados, exceto por Eddington e alguns como ele.

Sistemas Dualistas
Fizemos ver que o limite entre os sistemas monistas e dualistas não está fixado com precisão e que estes últimos tendem todos, ao cabo de contas, a passar para os primeiros. Talvez não haja nenhum dualismo final, mas a concepção mais característica da Filosofia ocidental é tão mais notória em seus traços dualistas do que nos monistas, que pode ser contrastada com os sistemas que examinamos. Esta concepção é a do monoteísmo, a doutrina de que há um Deus pessoal distinto do universo da Natureza. Aqui, a Metafísica se integra com a Filosofia da religião, e mesmo com as formas de Filosofia institucionalmente sancionadas que constituem teologias. Durante muitos séculos, o monoteísmo dominou a Filosofia ocidental; tem sido praticamente sempre o monoteísmo ético das religiões semitas, a doutrina do Deus íntegro, justo, mas também misericordioso, do Judaísmo, do Cristianismo e do Islamismo.
Esta afirmação sobre o domínio do monoteísmo no pensamento ocidental se faz a despeito de três ressalvas que são importantes, embora permaneçam em plano secundário.
Primeiro, os grandes gregos dificilmente podem ser considerados monoteístas, pelo menos no sentido pleno. Platão às vezes fala de Deus no singular, mas de um modo geral ele é mais fiel ao platonismo. Aristóteles pode ser chamado monoteísta, mas quase por falta de termo mais preciso; introduz o seu Primeiro Motor partindo antes de razões lógicas e ontológicas do que teológicas ou religiosas. Mas os gregos, e com eles Plotino, estavam suficientemente próximos dos monoteísmos semitas para terem sua utilidade. O Cristianismo, principalmente, saiu da Palestina para o mundo mediterrâneo com grande dinamismo religioso, mas com uma metafísica apenas ingênua e super pitoresca - um sobrenaturalismo refinado mas intelectualmente simples. Foi aos lugares aos quais o pensamento grego levara mais maturidade intelectual, porém menos influência moral. Das tradições semitas e gregas, cada uma tinha o que faltava à outra, e o resultado foi que o Cristianismo, o Judaísmo e o Islamismo se valeram, todos eles, dos recursos da Metafísica grega. As idéias gregas se incorporaram de tal forma ao Cristianismo, que várias gerações de estudiosos mal as perceberam. Incidentalmente, foi isto, sobretudo, que assegurou a preservação e a transmissão da literatura platônica e aristotélica: Platão, Aristóteles e Plotino foram mais úteis para os cristãos do que Demócrito, por exemplo. Assim, o próprio fato de termos os documentos gregos, com todas as variações que os diferenciam do monoteísmo semita, comprova a influência deste último, que era fraco bastante para deles precisar, mas poderoso bastante para absorver ou ofuscar suas diferenças.
A segunda ressalva é que, conforme notamos, nenhum dos três monoteísmos semitas se libertou inteiramente de concepções inegavelmente monistas. O Judaísmo teve o seu Spinoza, o Cristianismo o seu Hegel, e até o Islamismo os seus místicos Sufi.
Uma terceira limitação se deve ao fato de que grande parte do pensamento contemporâneo está rompendo inteiramente com o sobrenaturalismo e o monoteísmo. Se se considerarem apenas os pensadores contemporâneos, de modo algum ficará evidente que o monoteísmo atualmente domina o pensamento ocidental. Recentes ressurreições do sobrenaturalismo (o neo - escolasticismo católico, o fundamentalismo protestante, o barthianismo, o buchmanismo, e o que vier a surgir da guerra) (2) representam reações, e não progressos. Suas novas maneiras de insistir em antigas filosofias testemunham a força dos recentes ataques. O moderno conflito científico e. econômico - social com o monoteísmo é recente demais para que o seu valor seja julgado ou a sua direção prevista; mas é, de qualquer maneira, recente, questão de dois ou três séculos, e fica, portanto, de pé a afirmação de que historicamente o monoteísmo dominou o pensamento ocidental. Agostinho, Tomás de Aquino, Descartes e Leibnitz, para não falar de Kant, são fortes demais para serem contestados. Mesmo nos dias atuais, o virtual pan - psiquismo de Whitehead é contrabalançado pelo seu teísmo (bem como pelo seu platonismo), de modo que ele pode ser incluído entre os dualistas.
Com estes fatos históricos em vista, toma-se evidente o principal contraste entre as metafísicas oriental e ocidental: é o contraste entre um monismo final predominante, por um lado, e de outro, um monoteísmo predominante, que gradualmente se transforma em monismo. Para o pensamento indiano, o mundo comum tende a dissolver-se. Pouco importam as distinções: o Homem como indivíduo, e os deuses, da mesma forma ao final desaparecerão. Na China, há muito mais preocupação com as relações humanas; o monismo está, indiscutivelmente, no fundo, mas ali permanece. Tanto na Índia como na China há, provavelmente, mais despreocupação e serenidade para um ajustamento ético. Seja devido ao clima, à densidade da população, a uma introvisão superior, ou a todos os três, o ideal é estar contente com a vida em vez de estar todo o tempo preocupado em mudá-la (3). No Ocidente temos um agudo contraste do monoteísmo entre Deus e o mundo, assim como entre o bem e o mal. Ao passo que no Oriente todas as diferenças tendem a desaparecer na Realidade Una, no Ocidente elas tendem a ser garantidas, tanto aqui como no além, pelo bom Deus. Os que vêem tais contrastes em termos geográficos ou raciais verificam - se não de forma significativa pelo menos curiosa - que na fronteira entre o Oriente e o Ocidente, na região do Golfo Pérsico, aparece o Zoroastrianismo, com o seu monismo final, mas seu dualismo imediato dos princípios da luz e da escuridão, do bem e do mal.
Fixado o ponto principal, não se deve deixar de acrescentar que, juntamente com tais monismos e monoteísmos, também encontramos no Oriente importantes sistemas que, embora dualistas, são no máximo apenas vagamente teístas. Além do caso extremo zoroastriano, o Oriente mostra esta tendência na filosofia Sankhya da Índia e nas doutrinas de yin e yang que impregnam o pensamento chinês. No Ocidente, Platão, com seu reino de idéias, podia, como mencionamos, ser justamente incluído entre os dualistas, e Aristóteles, ainda que se lhe atribua apenas um monoteísmo formal, ainda é dualista, exatamente como seu mestre.
Nenhuma descrição dos dualismos estará completa sem se passar da Metafísica à Epistemologia, onde a "bifurcação de natureza" entre os componentes subjetivos e objetivos tem sido um procedimento típico, e onde o "dualismo epistemológico" proporcionou material para muitas controvérsias. Se devemos dar ênfase ao processo de conhecimento, deverá ele destacar-se em contraste com alguma outra coisa. No Sãnkhya, no Nyãya e no Vaiseshika hindus, na escola Sarvãstivãdin budista e nos típicos realismos ocidentais, a alma, o eu ou o espírito contrasta com o mundo objetivo comum, do qual, se conseguir conquistar a salvação, ele deverá escapar de alguma forma. Nas epistemologias ocidentais mais críticas, há mais ênfase na contribuição do espírito para alguma matéria-prima que, de alguma maneira ou de outra (conforme se siga Locke, Hume ou Kant), é trabalhada para vir a constituir o mundo que conhecemos. A doutrina de Fichte do não- ego como postulado do ego traz de volta a um monismo final as epistemologias críticas.
Os dualismos epistemológicos do espírito e do mundo cruzam e recruzam as linhas dos dualismos metafísicos do espírito e da matéria. Assim, os nossos espíritos às vezes são considerados espirituais e contrastados, como em Berkeley, com uma Realidade espiritual mais elevada. Também neste caso, nossas mentes são consideradas não muito mais do que materiais, e contrastadas, como no neo - sobrenaturalismo, como uma Deidade inteiramente transcendente. As fronteiras - oriental e ocidental - são de tal forma confundidas por seculares controvérsias, que provavelmente é difícil colher qualquer coisa de real valor; aprofunda-se a convicção de que o que se vier a encontrar será encontrado antes nas avenidas da Metafísica do que nos atalhos, da Epistemologia.

Sistemas Pluralistas
Os sistemas pluralistas, se realmente os há, podem ser tratados ligeiramente; geralmente, os traços pluralistas vêm combinados com alguma forma de monismo ou dualismo. Os pluralismos qualitativos são mais importantes do que os quantitativos, mas qualquer das duas espécies tem dificuldades em manter-se contra a corrente das outras concepções. No estado atual, o pluralismo não vai muito além de um convite à Filosofia; é uma pergunta à qual o monismo ou o dualismo tentam responder.
Se o que precede descreve adequadamente as tradições e a situação, podemos perguntar quais são as perspectivas de uma Metafísica mundial. Há um século atrás, a questão se discutiria em torno de pontos consagrados pelo tempo, entre os monismos orientais e os monoteísmos ocidentais. Era significativo que mesmo os primeiros estavam filiados a vários politeísmos e os últimos a um ocasional panteísmo; cada um tinha bastante da principal ênfase do outro para evitar qualquer interrupção completa, e mesmo sugerir uma possível ponte entre eles. No século XIX, sobretudo entre os hegelianos, algumas pessoas pensavam que viam e possuíam o caminho para a compreensão e a síntese. Se o panorama filosófico não tivesse mudado, a pergunta poderia ter sido respondida - primeiro, por uma fusão dos idealismos orientais e ocidentais (que poderiam não ter exigido muito mais do que uns ajustamentos verbais e metodológicos) e, segundo, compondo-se as diferenças tanto entre estes monismos quanto entre os monoteísmos, de modo a permitir que cada concepção se dissolvesse na outra, na medida em que a mente ou o mundo se voltava para este ou para aquele lado. Foi este o sonho de alguns e deve ter sido o sonho de todos os idealistas.
Entretanto, desde o século XIX novas influências se fizeram sentir cada vez mais e começaram, à sua própria maneira, a reescrever os prolegômenos a qualquer Metafísica futura. Um deles é a Ciência empírica que, embora apenas gradualmente se estivesse libertando dos cueiros epistemológicos, e nem mesmo ainda além do alcance do principio do argumento da indeterminação da ignorância, aponta inegavelmente na direção do naturalismo. Outro é a máquina do poder que, embora em algumas partes do mundo esteja efetuando com lentidão suas transformações, e no pragmatismo contemporâneo seja mal interpretada no sentido de dar ao Homem uma sensação exagerada de sua importância, está gradualmente transformando o comportamento do Homem e, assim, suas idéias sobre a natureza das coisas. Um terceiro é a exaustão, que se aproxima, das áreas em que o pioneirismo econômico pode ser impulsionado - influência que tende a empurrar os homens de volta aos fatos e levá-los a reconsiderar algumas idéias, cedo demais descartadas, sobre o mundo natural. Estes fatores reunidos, em sua ação e reação uns sobre os outros, estão lentamente refazendo as filosofias humanas. A questão não é saber se os tradicionais monismos e monoteísmos são compatíveis entre si, mas de que maneira qualquer um deles pode persistir no realismo e no naturalismo do futuro (4).
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(1) Ikhnaton ou Akhenaton: Nome adotado pelo faraó Amenotep (Amenenófis) IV, que reinou de 1379 a 1362 a.C. e realizou importante revolução religiosa, tendo introduzido o monoteísmo com o culto de Aton, o "disco solar". (N. do T.)
(2) A II Guerra Mundial (N. do T)
(3) O A. aqui faz um jogo de palavras cuja expressividade não é possível reproduzir em português: content "contente" e intent "preocupado", "atento", "resolvido" (N. do T).
(4) A fim de não terminar sem indicar algumas possibilidades de uma teoria construtiva, acrescentemos que, se forem feitas algumas concessões mútuas, o naturalismo poderá não ser tão escuro quanto se pinta nem tão severo com os valores associados ao idealismo e ao monoteísmo monísticos. Em primeiro lugar, no que diz respeito à concessão, os monismos, principalmente o idealismo, não devem insistir em que o mundo tem de ser infinito ou absoluto; se estas palavras forem usadas, que signifiquem apenas a nossa recusa a impor limites ou certas reservas específicas à Natureza. Os monismos devem admitir que qualquer mundo em que pensarmos é um mundo selecionado contra um pano de fundo desdenhado; qualquer monismo carrega uma dualidade implícita. Em segundo lugar, os naturalismos devem submeter a cuidadoso estudo os dados da evolução, a fim de ver se não é verdade que a matéria, a vida e o espírito se assemelham em suas estruturas e processos de tal forma que o Homem não é apenas apical, mas também, de certa forma, típico do universo - que, como inúmeros filósofos orientais e ocidentais sustentaram, o Homem, quando estudado empiricamente, é um microcosmo do conjunto e, assim, de especial significação dentro dele. Finalmente, os sobrenaturalismos e teísmos devem admitir que o espírito e a matéria não são, de forma alguma, necessariamente antagônicos; que na Natureza e na História, conjuntamente, algum bem evolveu em contraste com o que quer que seja mau; e que este bem em evolução é capaz de reconhecimento como objeto de devoção religiosa. As semelhanças empiricamente detectadas nas estruturas e processos de matéria, vida e espírito, ao mostrarem que o Homem, sob certos aspectos específicos, e um microcosmo, estarão, então, em condições de interpretar esse bem com referência às qualidades pessoais que nos monoteísmos foram atribuídos a Deus. Desta forma, as teorias correntes do Homem como um microcosmo, tanto as orientais como as ocidentais, podem fornecer uma base para a compreensão, ainda que idealismos contemporâneos, naturalismos e sobrenaturalismos não o façam.