O Homem e o Mundo na visão dos chineses

CONFORME parece, na vida do homem chinês, quadro dados revestem-se de uma grande importância: o pensamento, a natureza, a sociedade e o trabalho.

O pensamento
Para os Chineses, a reflexão é de grande quali­dade e a razão vem em primeiro lugar, dominando a paixão. Esta razão, pouco preocupada em especular sobre princípios, procura antes de tudo captar a inteligência das coisas. O que interessa ao espírito chinês é conhecer os princípios que regem a natureza e a sociedade e compreender o seu movimento, que não cessa de suscitar mutações. A descoberta das realidades múltiplas da natureza assim como da sociedade leva também os Chineses a pensar que a verdade não é una e absoluta, mas diversa e relativa e que depende sempre de um lugar, de um tempo, de uma situação.
Alem disso, o espírito chinês, fiel a dialética da filosofia tradicional, faz coexistir na sua reflexão oposições. Para um espírito cartesiano, existe anti­nomia entre o afirmativo e o negativo. Para os pensadores chineses, esta antinomia não existe. Os contrários completam-se e suscitam-se mesmo reciprocamente, o afirmativo incluindo o negativo e vice-versa. Esta dialética dá evidentemente ao pensamento chinês uma estranha flexibilidade e uma grande subtileza.
Por fim para a inteligência chinesa, o conheci­mento e inseparável da ação. Trata-se de compreen­der bem para agir bem, e para agir com eficácia, o que explica porque o chinês, com medo de se enganar ou escolher mal, amadurece a sua decisão e espera muito tempo antes de a dar a conhecer.
O homem chinês esta profundamente ligado ao Céu e a Terra. Tem consciência de ser um elemento de um imenso universo de que descobre as leis para se submeter a elas e de que experimenta as mudanças para se adaptar. Ele sabe, como ensina o Canon do Caminho e da Virtude, que para encontrar a harmonia, no interior de si mesmo com os seres que o rodeiam, deve mergulhar no movimento que anima todo o cosmos.
Para se inserir na indestrutível comunhão que existe entre o Céu e a Terra, o único caminho que se lhe apresenta e colocar-se na escola da natureza. Para o camponês, esta natureza e uma amante implacável que se lhe impõe tanto pela dureza da matéria e a pobreza dos solos como pelo calor escaldante do Sol ou as fantasias do vento e da chuva. No contacto com a natureza, experimenta assim a dimensão do tempo e a importância do ritmo.
O camponês sabe que o tempo e um senhor que impõe sua lei, que é preciso respeitar a todo o custo. Por isso está tão atento a sucessão dos dias e das estações, que comanda a série dos trabalhos agrícola a realizar. Servidor do tempo, o camponês chinês aprende igualmente com ele a necessidade da paciência. Nenhum povo no mundo, sem duvida, pratica o confronto prolongado com um tal sentido da necessidade de dar tempo ao tempo. O camponês chinês esta consciente que tanto o pior como o melhor podem surgir em qualquer instante.
Para o artista, em contrapartida, a natureza apresenta-se como uma maravilhosa inspiradora. Mergulhado no seio desta, o artista descobre a fluidez da matéria que surge perante ele: as terras amarelas das grandes planícies férteis, as poeiras cinzentas dos desertos ardentes, os rochedos negros das gargantas profundas, a magia da selva verde e o discreto murmúrio da água prateada das fontes. Penetra-o de sensações inumeráveis de que se impregna e que exprime através de múltiplas obras variadas e muitas vezes de grande talento.
Tocado pela imensidão do céu assim como pela beleza da terra, sensível ao encantamento das formas, o artista chinês reconstrói segundo a sua Fantasia o espaço e as suas dimensões. O pintor desenha Picos vertiginosos desafiando as leis do equilíbrio e o arquiteto ergue pagodes, templos ou palácios, traça Jardins com formas geométricas inéditas e encantadoras.
Em troca, como premio da sua dedicação a natureza, o homem chinês sabe, como proclama Laozi, que o céu o torna invulnerável.

A sociedade
O homem chinês e um ser essencialmente social. Herdeiro dos esforços de dezenas de gerações, esta inscrito numa longa história de que e beneficiário e que tem a obrigação de prolongar. Rodeado, do nascimento ate a morte, por uma multidão de seres, deve, para existir em paz, evitar a to do o custo as contradições e os confrontos com aqueles que o rodeiam.
Sabendo a que ponto a sociedade está sujeita a variações, tem um longo habito de reserva. Tem cuidado para não dar uma opinião demasiado categórica ou para não se deixar limitar por declarações que o definiriam e o impediriam em seguida de modificar a sua opinião.
O homem chinês tem por outro lado uma muito viva consciência da hierarquia e do res­peito que ela implica, como tem a preocupação duma observação fiel dos rituais, especialmente na ocasião dos casamentos e dos funerais. Em relação aos pais como em relação aos senhores, o homem chinês, tanto por convicção como por tradição, faz questão de marcar a sua deferência e o seu reconhecimento, e é capaz de grande dedicação a esse respeito.
Enfim o homem chinês sabe que, para a sua «sobrevivência» ou o seu «progresso» nesta sociedade tão densa e tão dura, precisa de tecer incansavelmente os laços com pessoas capazes de o ajudar no presente ou no futuro. Este cultivar das «relações» (guanxi) surge como uma das compo­nentes essenciais da vida social chinesa.

O Trabalho
O homem chinês tem o sentido do esforço. Sabe por experiência, há milênios, que precisa de penar duramente para tirar a sua subsistência de uma terra muitas vezes ingrata. Esta luta para produzir e para se alimentar, apesar das inúmeras dificuldades, devem origem a homens com uma determinação e uma perseverança notáveis.
Onde quer que esteja implantado o homem chinês nunca está a descansar porque, para ele, cada parcela de terra, cada hora do dia é preciosa. No campo ou na cidade, numa região fértil ou numa zona desértica, activa-se para semear, plantar, colher, extrair e construir. Cada dia, apesar de enormes riscos, milhões de homens agarrados aos flancos das montanhas, enfiados nas profundezas da terra ou pendurados em frágeis andaimes, desempenham a sua tarefa com uma extraordinária coragem traduzindo a incrível e perseverante energia de um povo imenso e sem igual.
Há alguns anos, um Ocidental fazia a um amigo chinês a seguinte pergunta: «o que é a verdade?» Depois de, um tempo de reflexão, surgiu uma resposta: «É aquilo que tem sucesso.» O «sucesso», esta definição da verdade, tão inesperada para um espírito cartesiano mas tão de acordo com o realismo do espírito chinês parece ser, no dealbar do ano 2000, o grande critério que guia a China na sua marcha para a frente.

A ideologia confucionista
FORAM os missionários ocidentais que mascararam com o nome de confucionismo o que em chinês se designa com uma expressão que se pode exprimir aproximadamente por «doutrina dos eruditos». Esta doutrina deve efetivamente a Confúcio a primeira elaboração das suas fontes escritas: a compilação, tornada canônica, de tudo o que se tinha conservado ate ai, desde o fim do II milênio, de arquivos de adivinhação, de cantos litúrgicos e corteses, de regras administrativas e rituais, de actos oficiais e de anais. Além disso, Confúcio extraiu das suas fontes ensinamentos que tocavam as práticas tradicionais em matéria de religião, de ética, de política e de comportamento social, ensinamentos que sistematizou no quadro de uma visão do mundo baseada na cosmologia adivinhatória.
O sistema assim desenvolvido foi, no século II a.c., instituído ideologia de Estado. Sob as Seis Dinastias (361-581 da nossa era), o interesse pelo taoísmo e o impulso do budismo, que acabava de ser introdu­zido na China, levaram a uma certa perda de influencia do confucionismo: este, apesar de per­manecer a religião oficial, deixou de ser predo­minante sob os Sui, os Tang e as Cinco Dinastias. Uma magnífica renovação doutrinal da velha ideologia deu-se contudo sob os Song (960-1279), por assimilação de especulações metafísicas e de práticas espirituais retomadas do taoísmo e o budismo. Foi o que chamaram o neoconfucionismo de que os dois maiores representantes foram Zhu Xi (cerca de 1130-1200), sob os Song, e Whang Shomen (ou Wang Yangming, 1472-1529), sob os Ming. O neoconfucionismo foi mais predominante do que tinha sido o confucionismo antigo, como ideologia do Estado, ate ao fim do antigo regime, em 1911.
Tanto sob a sua forma antiga da época confu­ciana como sob a sua forma moderna neoconfucionista, o confucionismo apóia-se essencialmente nos dois pilares que são para ele a moral do ren (virtude de humanidade) e a pratica dos rituais.
A palavra ren é um termo especializado, provavelmente transformado pelo próprio Confúcio na sua forma ideográfica clássica, a qual se compõe do pictograma do homem, tornado como radical (o que justifica a tradução pela palavra de huma­nidade, no sentido de «virtude»), e do algarismo 2, indicando que se trata de relações entre os homens tomados dois a dois. No confucionismo, a virtude de humanidade é, portanto, caracterizada pela singularizarão do bom comportamento a ter perante outrem seguindo a particularidade de cada uma das relações interpessoais que se formam entre indivíduos na sociedade, em função do lugar próprio a cada um.
Vimos com efeito que, no familiarismo chinês, os deveres de cada membra de uma comunidade em relação aos outras membros eram determinados por uma hierarquização social levada ao extremo na diferenciação muito precisa das posições de cada um. «Que o príncipe se comporte como príncipe, o súbdito como súbdito, o pai como pai, o filho como filho», gostava de dizer Confúcio. Vê-se como a concepção confuciana da virtude de humanidade esta no oposto do sentido de humanidade tal como se encontra na tradição crista ocidental. O humanis­mo cristão mostra em qualquer homem o seu seme­lhante, todos os homens sendo criados semelhantes a imagem de Deus. No humanismo confuciano, os homens são todos diferentes, e o homem de bem e aquele que sabe sempre comportar-se honro­samente com os outros, quaisquer que sejam as diferenças de posição.
Preconceito de desigualdade revoltante? Diga­mos antes que a moral confuciana, que se interessa não pelo estatuto das almas, mas pela repartição dos papéis na sociedade, e rebelde a qualquer idéia de nivelamento igualitário das diferenciações sociais, mas afirma com força, quando falamos de igual­dade de direitos, a reciprocidade dos deveres. Reciprocidade do amor paternal e da piedade filial, da benevolência e do reconhecimento, da justiça e da lealdade, que não tem nada a ver com uma compensação troca por troca, mas e inscrita na consciência humana pela natureza das coisas.

A prática dos rituais
Para assegurar a conformidade do bom compor­tamento social de cada um com esta natureza das coisas, foram elaboradas formas através das quais se pode modelar o comportamento: os rituais. Seguir os rituais, e estar seguro de não se afastar do carni­nho da razão. Ritual e racional identificam-se no pen­samento chinês clássico, como simetricamente se identifica como irracional o que e contrário aos rituais.
Donde vêm estes rituais? Originalmente, eram as formas das cerimônias do culto, cujos detalhes foram pouco a pouco acertados a luz dos resultados de muito numerosas divindades, durante séculos. Mas o confucionismo extrapolou o principio do for­malismo das cerimônias do culto para o aplicar ao regulamento dos comportamentos sociais. O ritua­lismo é assim a arte de explorar o ritual para fins já não religiosos, mas sociais. Opõe-se as instituições jurídicas desenvolvidas pela cultura ocidental, pelo fato de aplicar ao funcionamento da sociedade rituais em vez da norma do direito.
A China imperial conhecia decerto a lei penal, de que o confucionismo tinha horror, mas tinha de a admitir como a pior das hipóteses, quando a recusa de se submeter aos rituais não deixava outra saída senão a repressão. Em contrapartida, o sistema institucional ignorou qualquer direito civil digno desse nome. E porque, no direito, são os parceiros sociais que constroem eles próprios, entre eles, as relações de direito e de obrigação que as instituições jurídicas autorizam. Ora, na ordem social fami­liarista, só existem como vimos, direitos prescritos a priori pela lei do Céu e que as instituições precisam nos mais pequenos detalhes. A partir dai só resta induzir os parceiros sociais a adequarem entre eles, espontaneamente, tudo o que está prescrito. Foi com esta finalidade que foram cuidadosamente elaborados rituais que definem minuciosamente, gesto por gesto, o cerimonial a observar em toda uma serie de manifestações paradigmáticas das relações sociais susceptíveis de intervir nas mais variadas circunstâncias da vida: rituais de admissão do recém-nascido na família, de imposição do boné viril ao adolescente ou do alfinete de cabeça a adolescente, de casamento, de enterro, de sacrifício aos antepassados, de banquete, de reunião, de visita a um superior, de recepção de um subordinado e muitos outros. Cada gesto de cada cerimonial exprime nas suas formas o sentido do comporta­mento social prescrito ao executante.
Quanto à filosofia do ritualismo, esta toda con­tida na idéia de que, a força de multiplicar em inumeráveis cerimônias esses gestos puramente for­mais, portanto vazios de implicações afetivas e em conseqüência mais fáceis de executar porque não custam nada, a norma moral que esses gestos exte­riorizam acabara por se interiorizar e por levar aquele que sempre executou as cerimônias como deve ser a comportar-se espontaneamente, na vida corrente, como os rituais prescrevem.
Dizemos no Ocidente que o habito cria uma segunda natureza. O confucionismo considera antes que os rituais, a partir da exteriorização dos gestos, penetram no interior da consciência e decapam a natureza moral do homem do conjunto de maus hábitos que falseia a verdadeira espontaneidade, a qual se inscreve no sentido da lei do Céu. E pre­cisamente essa dimensão de interiorização que, no confucionismo, distingue o ritualismo da hipocrisia. Resta que a exteriorização sistemática dos comportamentos reforçou extraordinariamente o sentimento da face, tão característico da cultura chinesa, em que perder a face e pior que morrer. Sem um sentimento tão exacerbado, o ritualismo não poderia funcionar; vê bem nas nossas sociedades ocidentais, onde mesmo os rituais religiosos são muitas vezes social­mente tratados com zombaria.

por VANDERMEERSCH, L. Sabedorias Chinesas. Lisboa: Piaget, 2005.