O Ocidente contra a China

O problema, velho já de 20 anos, da segregação de mais de 700 milhões de chineses da comunidade huma­na merece, em nossa opinião, bem mais reflexões e análises em profundidade do que as que vemos aparecer na Imprensa mundial, mais dedicada aos assuntos cor­rentes - aos vôos para a Lua e aos golpes de Estado sul-americanos, por exemplo - com os quais enche as suas colunas, do que ao dramático problema do comportamento provável do povo chinês nos anos futuros, perante a conspiração mundial contra a sua existência como povo e como nação.

O Ocidente nunca se preocupou grandemente, é ver­dade, em atentar na existência da China. É por causa dessa atitude um pouco pretensiosa e fundamentalmente errada, adoptada pelo Ocidente em relação aos valores culturais do Oriente, que vivemos sempre na ignorância da verdadeira natureza da China, É por essa razão que, em todas as épocas, e até nos nossos dias, a China tem sido sempre motivo de espanto para os povos ocidentais, a despeito dos seus 4 mil anos de verdadeira civilização, A história dos contactos esporádicos do Ocidente com a China torna sempre a forma de revelações sucessivas, como se, de cada vez, o Ocidente recomeçasse a descobrir a civilização chinesa, permanen­temente ignorada, se bem que houvesse já conhecimento dela muito antes da nossa era. Esse conhecimento foi, no entanto, sempre vago, sempre distante, feito mais de incompreensão e perplexidade do que de apreciação e identificação.
O pendor aristocrático para as diferenças e as separações, tão característico dos povos ocidentais perante o Oriente, obedeceu inicialmente ao critério do pitoresco e do exótico, ou seja, à não aceitação e à subavaliação de tudo o que escapa às experiências sensíveis das suas raças, tendo-se acentuado, no entanto, depois, e colo­cado ao serviço de interesses subalternos: dominar e explorar os povos exóticos, considerados a priori como inferiores e necessitados do amparo e da tutela dos po. vos superiores. Os costumes exóticos e, portanto, bár­baros, desses povos, justificavam numa certa medida que os conquistassem pela força e os explorassem sem qualquer espécie de humanidade. Os índios da América não eram homens mas sim animais. Os chineses também não eram homens mas sim demónios embruxados. Ne­cessário, era, portanto, que fossem sujeitos ao jugo da civilização ocidental para se domesticarem, para adqui­rirem um comportamento mais humano, mais de acordo com o nosso pretenso humanismo.

O lugar-comum de que a China era o «país das aber­rações» e que circulava ,por todo o Ocidente ajudou os ocidentais a aliviar a sua consciencia, tendo contribuído, também, para justificar a incompreensão espalhada entre soldados e missionários, cuja missão não é compreender mas sim conquistar corpos e almas, e até mesmo a in­compreensão dos comerciantes e dos turistas, os quais, segundo a fórmula bastante expressiva de Sartre, não passam de militares arrefecidos, de ratoneiros de uma «guerra fria» na qual a pilhagem é feita graças às armas do câmbio e dos direitos aduaneiros.

Uma mutação estranha
Essa China estranha, produto da ilusão de toda a nossa civilização, mais preocupada em criar um alibi para o seu comportamento moral do que em descobrir, sob a diversidade das aparências que a separam da civilização chinesa, a unidade de substância que une duas culturas, essa China foi recentemente mot'ivo de urna nova e trágica surpresa para o Ocidente; a nossa inex­plicável surpresa perante a realidade social da China nova, que não é afinal mais do que a China eterna e eternamente ignorada pelo Ocidente, amadurecida ao calor de urna filosofia ocidental, o materialismo histórico de Marx-, transportado através da ponte formada pela União Soviética entre a Europa e a Ásia. Uma Surpresa nova para o Ocidente porque os povos ocidentais não podiam deixar de ficar surpreendidos perante a impressionante mutação que se verificou na China e da qual esse país emergiu como uma das grandes potências mundiais. Nada mais desconcertante, mais imprevisto, menos concebível do que ver surgir todo um sistema organizado de dinamização e renovação desse mundo de estagnação e desordem que era a China clássica aos olhos do Ocidente.

Como poderia um povo apático e fatalista, tão re­signado e indiferente como parecia ser o povo chinês, lançar-se de corpo e alma numa guerra total contra obstáculos de toda a espécie - naturais e culturais, contra a fúria dos elementos e a incompreensão hostil do mundo, para criar, de um dia para o outro, uma estrutura política coerente e activa, ordenada e criadora, a da nova República da China? Ou nada disso existe, nada dessa China nova da qual os visitantes estrangei­ros falam maravilhados, nada dessa era pós-revolucioná­ria, e a China continua a não ser mais do que um sonho e uma lenda, uma ilusão devida à magia chinesa; ou ela impõe realmente ao mundo a sua realidade, a sua rea­lidade indubitável e terrível, desmascarando assim todos os artifícios do mundo ocidental, o qual, por ignorância ou má-fé, a descrevia como um país perdido, irreme­diàvelmente atolado na sua sórdida miséria e na sua calma apatia.

Baseando-se na noção da psicologia das raças, o Ocidente falseava inteiramente a realidade do povo chi­nês. Para começar, a raça é uma abstracção antropoló­gica sem existência real. O que é autêntico é o povo, produto da mistura constante de diversas raças e da acção condicionante do meio natural e cultural, ou, para usarmos uma linguagem mais directa, produto das cir­cunstâncias. O que equivale a dizer que, se as circuns­tâncias se modificarem, a psicologia do povo modificar­-se-á também: em vez de preguiçoso, poderá tornar-se trabalhador; em vez de diligente, poderá cair num estado de apatia colectiva, dado que os germes de todos os caracteres se encontram em potência na própria natureza da condição humana, do homem semelhante a si próprio sob todas as latitudes, sob os céus mais diversos sob todas as cores de pele - o homem, sempre homem. A substância não muda; o que muda é a densidade.

Assim são os homens, assim são os povos. Na maior parte do tempo, a sua aparência reflecte as circunstâncias, mas a sua realidade mergulha no âmago da sua substância essencial. Como esses psicólogos ocidentais foram ingénuos ao classificar, de maneira definitiva, os povos, depois de terem simplesmente observado as reac­ções de uns tantos indivíduos perante circunstâncias passageiras! Como os chineses sofreram a fome, durante séculos, com estóica resistência, como pareciam resigna­dos perante as ofensas e a opressão do colonialismo, como mantinham o seu sorriso a despeito da pobreza e da miséria em que viviam, foi decidido, de uma vez para sempre, que eles eram apáticos e resignados.

Uma resignação superficial
Essa apatia e essa resignação superficial representa­vam apenas, na realidade, uma táctica perante as cir­cunstâncias, uma maneira de transigir com as aparências, para garantir a perenidade da substância. Foi aí que o Ocidente se deixou iludir: confundiu a aparência com a substância, interpretando as duras vitórias interiores do espírito e a sua adaptação às circunstâncias como a ausência ou o entorpecimento desse espírito, cuja força, no entanto, tão extraordinária era.

Desse fundo de perenidade da China surgiu, há séculos, um protótipo humano, o do homem harmonioso que procura integrar, o mais possível, a sua personalidade nos modelos do mundo. É por isso que não existe civilização mais humana e mais universal do que a chinesa. A característica mais evidente do homem harmo­nioso produzido por essa civilização é a sua aspiração a identificar-se com o mundo, ao passo que o homem heróico produzido pela civiliz.ação ocidental rlspira a do­minar o mundo. Um procura a grandeza do mundo pelo esforço interior; o outro pretende dominar o mundo pela grandeza do seu esforço exterior. Um aspira ao domínio de si próprio para conseguir a alegria de viver; o outro procura dominar o que está fora dele para obter a satisfação do Poder.

O erro dos ocidentais consistiu em misturar as apa­rências e confundir a actividade com a agitação. En­quanto o ocidental vê na placidez chinesa a própria imagem da inactividade, essa placidez traduz, na sua essência, um esforço criador activo, subtil, indiferente a outras solicitações de menor valor e concentrado na procura da felicidade, ou seja, do verdadeiro objectivo da vida.

É a essa aspiração que o povo chinês se consagra com ardor: identificar-se interiormente com o sentido da vida, ainda não decifrado por todos os pensadores do Ocidente. O que Confúcio pregou e o povo chinês aceitou foi uma filosofia da vida assente no aperfeiçoamenlo gradual do comportamento humano para elevar a vida social ao nível da harmonia universal. Uma regra de conduta para tornar os homens iguais aos deuses, uma con­duta que é, portanto, o símbolo de uma ambição quase infinita e não o de uma indiferença infinita, tal como foi interpretada pelos ocidentais.

Desse modo, aquilo que parecia ser resignação aos olhos do ocidental era apenas preparação interior. Sob a superfície plácida desse imenso mar humano estavam a formar-se as grandes correntes submarinas que viriam a pôr em acção um complexo sistema de forças capaz de provocar toda uma renovação social. E tudo isso sem que o Ocidente o pressentisse, se bem que os ventos que vinham desse lado devessem vir a ter uma influência decisiva na explosão da tempestade. Foi, na realidade, a Europa que, durante os quase quatro séculos da sua dominação elo Oriente, inoculou nos povos asiáticos, tanto pelo jogo da resistência como pela capacidade de adaptação desses povos, uma mentalldade e uma consciência novas que lhes permitiram retomar, pouco a pouco, a sua independência e a sua força criadora, tal como o salientou, muito justamente, o escritor indiano Pannikkar.

A revolução chinesa e a nova estrutura social desse país constituem o resultado mais surpreendente e mais precioso desse contacto entre a civilização moderna ocidental e a civilização tradicional chinesa. Daí a sua originalidade e o seu dualismo, mercê dos quais as suas torres de porcelana e os seus telhados de faiança con­tinuam a subsistir, lado a lado, com as suas fábricas, os seus arsenais e as suas máquinas ultramodernas. O que está a construir-se na China de hoje é qualquer coisa que tem o mesmo alcance e o mesmo significado histó­rico do cristianismo e do islamismo, considerados por Toynbee como a expressão de um contra-ataque dos mundos sírio e judaico perante a penetração greco-romana. Trata-se, portanto, de produtos típicos do contacto de culturas diferentes. Toynbee recorda ainda que as pa­lavras de Jesus Cristo, que tanta importância têm para o Ocidente, são o testemunho do encontro da civilização greco-romana com a civilização síria, do qual surgiu o cristianismo: Jesus deriva da terceira pessoa do singular de um verbo semita, e Cristo do particípio passado de um verbo grego. Segundo a conclusão de Toynbee, esses dois nomes constituem a prova de que o cristianismo nasceu do contacto de duas culturas.

É evidente que uma tal união não pode ser feita sem grandes dificuldades, sem choques e conflitos de toda a espécie. No caso da China, não foi fácil à civilização ocidental penetrar a essencia da sua cultura para poder fecundá-Ia.

Fazendo uso da técnica importada, os chineses pro­curaram libertar-se pela revolução de 1911, mas não tardaram a verificar que o instrumento - essa nova técnica - não era o suficiente e que necessitavam, também, de aprender a utilizá-lo de uma maneira nova ou diferente, diferente da dos ocidentais, cuja estrutura económica e relações sociais estavam longe de facilitar a libertação dos povos subdensenvolvidos. Foi por isso que os chineses apelaram para um terceiro elemento: uma filosofia social que lhes permitisse tirar partido desse instrumento, dessa técnica que, até então, havia sido utilizada em seu detrimento. E essa filosofia social foi o marxismo, produto da civilização ocidental, uma espécie de heresia cristã transplantada pelos russos para o quadro da Ásia.

A China deixou-se empolgar pelo marxismo, ou antes, pelo marxismo-Ieninismo, porque descobriu nessa dou­trina a possibilidade de utilizar a sua enorme força laten­te para se libertar do jugo da fome e da miséria sob o qual o colonialismo a mantinha sujeita. O marxismo não foi mais do que o catalizador que fez cristalizar, bruscamente, todo esse anseio contido de reivindicações nacionalistas, todo esse desejo de libertação e autodeterminação. Com a força da sua civilização tradicional, associada à técnica ocidental e revivescida por uma ideo­logia que lhe dava novas esperanças, o povo chinês lan­çou-se, de corpo e alma, na luta pela sua libertação, da qual viria a surgir uma China nova, transformada em potência mundial. Se bem que a sociedade chinesa actual conte na sua composição ingredientes de diversas ori­gens, nem por isso os fundamentos da sua civilização se mantêm menos inalteráveis. O que a revolução provocou, na realidade, foi a subida à superfície, aparentemente estagnada, dessa civilização, de todas as formas, de todos os impulsos que agiam por baixo, como outras tantas forças de adaptação e resistência, constantes afinal da sua civilização.

Aquilo a que se chama a China nova não é, pois, na verdade, mais do que a China eterna, a velha China liber­tada do jugo colonial e erguida à superfície, graças ao poder que revolucionou a estrutura do Estado e fez nas· cer, nesse velho país, um espírito criador novo, um novo sentido da vida.

Sobre o fundo de eternidade destaca-se um traço característico na paisagem humana da China nova: a exal­tação em que vive hoje o seu povo, o seu entusiasmo, verdadeiro acto de afirmação constante, uma espécie de convalescença após a longa e sombria doença da ocupa­ção colonial. No rosto dos primeiros chineses que vê, o estrangeiro nota logo esse estado de exaltação, mais impressionante do que a própria felicidade porque é, por excelência, um estado fecundo, activo e criador. Sente-se que o povo chinês, libertado da opressão estrangeira, se afirma com a confiança de quem compreende que a China tem hoje uma dignidade e um futuro.

Essa afirmação de vida, esse new deal emocional, constitui, a meu ver, o factor mais activo na reconstru­ção da China. Mais eficazes do que a própria técnica e a transformação das estruturas sociais são a transfor­mação e a transfiguração dos homens que dão aos diversos programas de desenvolvimento esse amparo e esse apoio populares, essa adesão completa e maciça capaz de realizar verdadeiros milagres. Não será, com efeito, um milagre esse ultrapassamento das forças hu­manas que permitiu vencer a fome, num pais de fome por excelência, em vinte anos de Governo? E isso sem grandes recursos técnicos ou financeiros, mas graças apenas a uma vontade colectiva inabalável.

Com a adopção de uma técnica e de uma filosofia social nascidas no Ocidente, a China saiu do seu maras­mo aparente e lançou-se numa obra ciclópica: dar um novo estilo de vida à população mais numerosa do mundo com os seus 800 milhões de habitantes. A China propõe~se, no entanto, fazê-lo num estilo que está longe de renegar os fundamentos da sua civilização clássica. É sobre esse fundo de autenticidade chinesa - da China real e não da China de pacotilha que o Ocidente conhece- que estão a ser erguidas as novas estruturas sociais.

A despeito da técnica ocidental, do marxismo ger­mânico e do leninismo eslavo, a China eterna subsiste e parece absorver esses novos traços de cultura quase sem alterar a substáncia mais íntima da sua própria civilização. O advento da China nova representa, por­tanto, uma mutação cultural, um acontecimento histó­rico irredutível que o mundo tem de aceitar e encarar de frente e cujas consequências terá, necessàriamente, de suportar.

Tendo chegado ao primeiro plano da História como grande potência na segunda metade deste século, como irá comportar-se a China nas suas relações com o resto do mundo? Como irá estabelecer-se o diálogo entre a China e o mundo, agora que, economicamente indepen­dente e dotada do poder atómico, a China pesa indiscutI­velmente no destino da Humanidade? No mundo asiático, o problema é perfeitamente claro. O prestígio da China está a aumentar de maneira impressionante em quase todos os países desse continente. Embora de culturas diferentes, todos esses países têm, neste momento, uma aspiração nacionalista comum: a conquista das suas liber­dades políticas.

É esse despertar que as grandes realizações da China nova proclamam hoje, como um hino de vitória, por toda a Ásia. Em contrapartida, os sentimentos dos oci­dentais perante essa transformação mostram-se um tanto complexos e contraditórios. Alguns vêem nesse aconteci­mento o renascimento ameaçador do “perigo amarelo”, o reaparecimento das hordas mongólicas, dispostas a de­vastar todo o Ocidente como nos tempos de Gengis Khan; outros encaram o humanismo cultural da China e a universaIidade da sua civilização corno o renascer da esperança de que o mundo alcançará um dia essa solidariedade cultural de que nos fala Elie Faure.

O comportamento da China perante o mundo oci­dental não depende unicamente, na realidade, das ca­racterísticas da sua cultura, das suas tendências his­tóricas e das suas aspirações de vida; depende, sobre­tudo, da atitude do Ocidente perante a realidade político-social da China. Se o Ocidente se recusar a aceitar essa realidade e pretender opor-se, pela força, aos desígnios da -História, procurando fazer reviver essa época de dominação que, iniciada no século XV com Vasco da Gama, só terminou em 1945 e, durante a qual, no dizer de Toynbee, O mundo sofreu agressões impla­cáveis e incessantes do Ocidente, é evidente que este encontrará na China um bastião formidável, disposto a defender por todos os meios a liberdade que conquistou à custa de tanto suor, tanto sangue e tantas humilhações.

Nessa defesa desesperada, a China poderá ir até ao fanatismo da guerra nuclear, ou seja, até ao suicídio da espécie humana. Mas se o Ocidente reconhecer que o colonialismo está na agonia, que a Ásia está a tomar consciência do seu destino e que os seus povos não podem ser já dominados por meio da opressão ou ela corrupção, nesse caso ele encontrará na China toda a receptividade necessária para se chegar a um entendímento mútuo que vá para além da simples coexistência e da tolerância e conduza à estima recíproca e a uma colaboração activa para a construção de um mundo melhor.

Não compreendo a razão por que o mundo se obstina em não estender a mão e falar cara a cara com a China. A razão é, taIvez, o medo. O medo dessa massa fervi­Ihante de perto de 800 milhões de homens, O medo da ideologia que a galvaniza: o comunismo. O medo de que essa massa obcecada possa repetir o apocalipse das in­vasões mangólicas que devastaram as campinas da Eu­ropa Oriental: Convém, no entanto, não esquecer que esses mongóis que invadiram o Ocidente invadiram, de igual modo, a China. E que a China não invadiu jamais qualquer país do mundo.

Porquê ter-se, então, tanto medo, e porquê, mercê desse medo insensato, chegar-se a um estado de coisas em que o medo virá a tornar-se justificado? No fundo, a característica mais vincada desse povo não mudou depois da revolução de 1949, tanto mais que a campanha que encontrou maior ressonância depois da vitória de Mao Tsé Tung foi precisamente a campanha a favor da paz mundial, essa suprema aspiração.

Depois de 1949, o ano da revolução, os chineses não se puseram a ameaçar fosse quem fosse, tratando apenas de trabalhar, nos campos como agricultores e nas fábricas como operários, para realizar um vasto plano de expansão da economia nacional e de integração social da massa humana. Na realização desse gigantesco esforço, a China encontrou apenas um país disposto a ajudá-Ia: a União Soviética. Durante os 10 anos que se seguiram à vitória de Mao Tsé Tung, de 1949 a 1959, a U. R. S. S. concedeu créditos à China num montante calculado em 2 biliões de dólares para esta poder equipar-se. Forneceu, por outro lado, cerca de 7 mil técnicos para cola­borarem na instalação de indústrias nesse país, tendo recebido nos seus centros de estudos e formação 12 mil chineses. Com essa assistência técnica e financeira, a sua aliada chinesa progrediu rapidamente no caminho do desenvolvimento socialista. Em 1959, a China havia eliminado já, de todo o seu território, o flagelo da fome - uma vitória espectacular num país que era o símbolo da fome.

O Ocidente mantinha-se, no entanto, na sua reserva, indiferente ou hostil a esse esforço sobre-humano. Embora alguns países tivessem reconhecido o Governo chinês, a maioria não quis ter qualquer contacto com essa nação. Nas Nações Unidas, sob a orientação dos Estados Unidos, os quais exigem o isolamento da China, a maioria dos países membros tem bloqueado sempre a entrada desse grande país para a Organização mundial. Foi essa política de isolamento forçado, de verdadeira segregação e discriminação do povo mais numeroso da Terra, que levou a China a considerar o Ocidente um inimigo implacável que urge combater e exterminar até, se a sobrevivência dos chineses assim o exigir.

Não é ao barrar à China o acesso às Nações Unidas, ou ao estabelecer, como pretendem fazer os Estados Unidos, um cordão sanitário para isolar a China do resto da Ásia e do mundo, que o Ocidente poderá recon­quistar a confiança dos chineses; só poderá fazê-lo se se tornar mais receptivo aos seus valores culturais, mais sinceramente desejoso de colaborar com eles com vista ao progresso social.

Se fosse aceite um diálogo franco entre a cultura ocidental e a cultura chinesa, é bem possível que se chegasse a um conceito universal de cultura, concebido como uma suprema conquista da liberdade; que se atin­gisse aquele grau superior que a cultura ocidental, se tem esforçado por atingir com a sua universalidade, sem obter, no entanto, mais do que um revés total, pelo sim­ples facto de ter violado a alma das outras culturas com as quais tem entrado em contacto. As vitórias es­pectaculares da China contra a fome e a miséria exer­cem uma influência enorme na maior parte dos países subdesenvolvidos do mundo, deixando entrever uma pos­sível realização da profecia do grande poeta indiano Rabindranath Tagore, quando ele disse que: «Os men­digos esfarrapados do Oriente hão-de conquistar um dia a liberdade para a Humanidade inteira.»

Não se pode pensar nessa imensa massa humana, freneticamente ocupada a conquistar o seu lugar ao sol, sem que surja no nosso espírito a inquietadora questão de se saber qual será o comportamento do povo chinês perante o resto do mundo nas três proxímas décadas do século XX. Numa época em que a ciência da pros­pectiva continua a ser tida, cada vez mais, como um ins­trumento indispensável à sobrevivência da Humanidade, a qual não pode aguardar passivamente o que o futuro lhe reserva e pretende antes avançar corajosamente para o construir pelas suas próprias mãos, nenhuma prospec­tiva de uma nova ordem mundial poderá ser considerada válida se não tiver em conta, com uma consciência crítica bastante clara, o papel a desempenhar pelo povo chinês nesta época de transmutação radical que o mundo está a atravessar.


Josué de Castro, em Le Monde diplomatique, dezembro de 1969.