O Ocidente longínquo

Da querela dos séculos XVII e XVIII sobre a cronologia chi­nesa, permanece a idéia tenaz de que a civilização chinesa é a mais antiga do mundo. Depois que os séculos XIX e XX nos revelaram a Antigüidade egípcia e depois a babilônica, a civili­zação chinesa, mesmo não lhe devendo nada, viu-se precedida de vários milênios que a jovem arqueologia chinesa não conse­guiu ainda cobrir. O que não impede que muitos historiadores concordem na estimativa de que a China havia conquistado um avanço global- tecnologia e nível de produção - sobre o Oci­dente em torno do século III antes da nossa era, avanço que ela só perderá por volta do século XV. Dito isso, a marcha das ci­vilizações não é, evidentemente, uma competição onde cada uma delas avançaria sobre um mesmo trajeto. É inútil demorar-se sobre esses problemas espinhosos e complexos de civilizações comparadas.

No que se refere ao conhecimento que os dois grandes im­périos em expansão das extremidades da Eurásia tinham um do outro, é preciso também conceder à China um avanço relativo.

A seda figurava entre os distantes produtos de luxo de que a triunfante Roma estava ávida. Virgílio (c.70-19 a.c.) já aludia aos finos veios que os Seres arrancam com pentes das folhas de certas árvores. Plínio, o Jovem (61-c.114), que lamenta a fuga de metais preciosos devido a esse luxo inútil, uma centena de milhões de sestércios por ano, segundo afirma, não parece mais bem informado, ao falar dessas pessoas "célebres pela lã de suas florestas: os homens destacam a penugem branca das folhas regando-as com água; depois as mulheres executam o duplo trabalho de dobar e de tecer ( ... )"

Transportada em uma bola compacta, a seda, ao que cons­ta, era separada em Roma. Era, então, teci da, transformando-se em um produto de uma transparência que permitia às mulheres parecerem nuas mesmo estando vestidas - "ut denudet feminas vestis", escreve Plínio.

Era evidentemente difícil de imaginar que esse produto têxtil maravilhoso fosse tirado do casulo da lagarta, mesmo que os chineses conhecessem seu uso desde o neolítico. Os romanos não parecem ter sabido muito mais do que isso, nem mesmo ler tido alguma vaga idéia da existência de um poderoso impé­rio no Oriente extremo.

As crônicas chinesas, em contrapartida, já nas proximida­des da era cristã, falam do império dos "grandes Kin", muito longe a oeste, um país onde as pessoas são tão belas quanto os chineses, e imponentes construções de pedra ornam as cidades. Com a preocupação de arrancar o controle da seda de seus ini­migos da estepe - os Xiongnu, geralmente identificados aos hu­nos -, o imperador Wu (que reinou de 140 a 87, e está à altura de seu nome, uma vez que "wu" significa "marcial") tinha le­vado suas conquistas bem mais longe a oeste do que jamais fize­ram os romanos a este. O protetorado geral dos "territórios do Oeste" exercia sua autoridade a vários milhares de quilômetros do último posto chinês da grande muralha, até Fergana. Os chi­neses estavam desejosos de entrar em contato com as autoridades desse poderoso império ocidental, na esperança de atacar por trás a confederação inimiga dos nômades dominados pelo Xiongnu. Eles buscavam também abrir novas rotas comerciais e controlá-las.

As populações que se beneficiavam de sua situação de intermediárias, na Ásia central e no sul da Rússia européia, não tinham nenhum interesse em facilitar os contatos dos dois gran­des impérios. É significativo que no século II da nossa era uma das últimas embaixadas chinesas tenha sido persuadida pelos par­tos, esses cavaleiros imbatíveis contra os quais todas as campa­nhas romanas fracassaram, a não se arriscar em demasia na sua marcha para o oeste, além do mar Negro.

Entre os séculos III e VI, a China sucumbe às invasões bár­baras e se divide: é forçoso que ela renuncie aos grandes desíg­nios. Mas seus produtos manufaturados não deixam de passar para o oeste sob a forma de seda e porcelana. Não se encontra­ram fragmentos chineses nas escavações recentes dos subsolos do Louvre? Esqueceu-se hoje em dia da corrente do cristianismo oriental sob sua forma nestoriana, que se difunde na Ásia central e se implanta inclusive na China, ainda que em comuni­dades relativamente fechadas à cultura chinesa que as envolve. As crônicas oficiais chinesas de então conservam o eco da existência do Império Bizantino, designado pelo nome de Fulin, Fu­lom na pronúncia chinesa antiga, o que quer dizer Roma em persa - Constantinopla era sua herdeira aos olhos do mundo oriental. Teria a ascensão do Islã no século VII levado a alguma aliança sino-bizantina? Somente as fontes chinesas assinalam uma meia dúzia de supostas embaixadas de Bizâncio entre os séculos VII e VIII; de fato tudo indica tratar-se de comerciantes ou de padres. Sem dúvida, faltava uma justa apreciação do perigo. Nos séculos IX e X, o Império Chinês estará envolvido em confli­tos internos e externos bem graves com seus vizinhos imedia­tos, para poder pensar em operações de tão ampla envergadura.

Estendendo e consolidando suas conquistas, o Islã transforma-se em uma cortina praticamente opaca entre as duas metades do continente eurasiático, que se ignoram e esquecem o pouco que sabiam uma da outra. A aventura das cruzadas, e sobretudo seus fracassos, no século XII, farão reviver a idéia de atacar o inimigo por trás - fala-se, mais longe, a este, de mis­terioso e mítico reino do "preste João". Um tão grande objeti­vo não estava ao alcance da Europa feudal. O acontecimento decisivo seria a extraordinária cavalgada mongol. Paris e Pequim teriam sido provavelmente submetidas ao mesmo governo se a morte de Gengis Khan, em 1227, não tivesse incitado seus fi­lhos a desistir de estender mais a oeste suas conquistas. A Pax mongolica estabelecia comunicações relativamente seguras de les­te a oeste e no sentido contrário. Gravemente ferido, o Islã de­certo se recompunha, mas não constituía mais o obstáculo de outrora. E nessa época que se firma no imaginário do Ocidente a realidade de um Oriente muito rico, poderoso, populoso. Basta evocar os nomes de Pian del Carpini (c. 1182-c. 1251), Odorico da Pordenona (c. 1265-1331), Montecorvino (1247-1328), e so­bretudo Marco Polo ( c. 1254-1324), mas sem esquecer que de­vemos seu espantoso testemunho a um encontro fortuito com um escritor profissional em uma prisão genovesa.

Em sentido contrário, o que se passa? Por que os chineses, na esteira dos mongóis, não se lançam à descoberta do Ociden­te extremo? Em primeiro lugar, existe a distância física, que mis­sionários, comerciantes e aventureiros podem atravessar, mas não o intelectual chinês, depois que o neoconfucionismo triun­fante do século XI fez prevalecer o saber livresco sobre qual­quer outro talento. Existe o obstáculo da língua e da escritura não-alfabética. O letrado, instruído pelo chinês clássico, cuja li­teratura é venerada em todo o Extremo Oriente, ignora e até mesmo despreza as outras. Ao que se juntam o ódio e o desprezo que opõem conquistadores e conquistados. A China foi o país que resistiu por mais tempo ao irresistível avanço mongol: Cantão só cairá em 1279. No começo de sua ocupação, os ven­cedores multiplicam as medidas discriminatórias em relação aos novos súditos. Os letrados são relegados a última posição, de­pois das prostitutas. Os mongóis recorrem sistematicamente a estrangeiros em sua alta administração. Entre eles Marco Polo, que não parece ter percebido a existência de uma escrita particular na China. E a esses marginais, em relação a cultura chine­sa dominante, que se dirigem os mongóis para conduzir uma política na escala do continente asiático. Quem se lembra de que, há sete séculos, pela primeira vez na hist6ria, um homem nascido em Pequim visitou o Ocidente extremo? Ele nos dei­xou um relato detalhado de sua missão na Europa em 1287, efe­tuada a partir do mar Negro, via Constantinopla. Mas a descrição das maravilhas do Ocidente está escrita em siríaco, a língua sa­grada dos nestorianos. Os mongóis, repelidos pelos mamelucos, visavam tirar partido da solidariedade cristã para enfraquecer o Islã. Na "grande cidade" de Paris, onde Rabban Sauma, nos­so pequinês, e seus companheiros ficaram um mês e visitaram tudo o que havia, a delegação foi muito bem acolhida pelo rei da França, Filipe, o Belo, que, garante o cronista, se mostrou imediatamente favorável aos projetos que ela estava encarrega­da de apresentar:

"Se é verdade que os mong6is, mesmo não sendo cristãos, estão prontos a combater os árabes para tomar Jerusalém, con­vém que n6s, em particular, lutemos junto com eles, e, se assim quiser Nosso Senhor, com toda a nossa força". Em seguida, eles foram até o rei da Inglaterra, na Gasco­nha. Ao final de vinte dias, atingiram sua cidade (dos ingleses), Bordeaux (...) Depois de ter-se apresentado e celebrado a mis­sa, Rabban Sauma pediu ao rei Eduardo I: 'Solicitamos de tua graça a ordem de nos mostrarem todas as igrejas e santuários da região para que possamos, em nosso retorno, levar a descri­ção aos filhos da Cristandade do Leste' (...)"

Rabban Sauma, sem dúvida, nascera em uma família origi­nária da Ásia central. O fervor religioso que anima seu relato é o suficiente para mostrar que ele se destinava a seus irmãos orientais de fé cristã. Nenhum eco disso parece ter chegado aos ouvidos dos letrados chineses que, de qualquer modo, não esta­vam associados as missões organizadas pelos dirigentes mongóis.

Estes, no entanto, interessavam-se por todas as técnicas, tanto materiais quanto espirituais. O único relato de viagem que go­zou de algum crédito junto aos leitores chineses na época é o do monge taoísta da seita Plena-Sublimação, Changchun (1148-1227): ele tinha estado junto a Gengis Khan, mas sem ul­trapassar o território do atual Afeganistão.

Os descendentes dos mongóis não tardarão a deixar-se isla­mizar. Os da China serão expulsos em 1368 do país que eles tinham conquistado menos de um século antes. Para a dinastia chinesa dos Ming, que se instala, o perigo principal sempre virá dos mongóis. Não haviam eles por duas vezes, em incursões 'au­daciosas, ameaçado diretamente Pequim, em meados dos sécu­los XV e XVI?

A ameaça manchu, que só se concretizará no segundo quartel do século XVII, não parece ter sido tomada muito a sério: a fortiori, são essas populações marítimas que aparecem nas cos­tas meridionais da China depois dos portugueses a partir de 1515, com modestas esquadras, em comparação às que o imperador Yongle havia lançado três quartos de século antes. Essas pes­soas, oriundas de um país de que não se tinha até então ouvido falar, que não se encontravam mencionadas em nenhuma obra antiga, chamaram a atenção dos cronistas e da administração. Não infligiremos ao leitor uma análise desses documentos: que ele imagine 'a perplexidade das autoridades chinesas diante da variedade das transcrições que os intérpretes propunham para esses nomes desconhecidos. Elas rapidamente tiveram contato com a agressividade dos recém-chegados. O sultão de Malaca, expulso de seu território pelos portugueses, fora reclamar na corte da China. O imperador, então, intimou os agressores a restituir aquilo de que eles tinham indevidamente se apossado. Mas de que portugueses se tratava? Um modus vivendi estabeleceu-se bem depressa. A superioridade do armamento na­val dos recém-chegados tornava-os invencíveis no mar, mas fa­zia deles auxiliares inestimáveis na luta contra a pirataria e o contrabando. Para ser breve, uma vez acantonados em Macau, a partir de 1557, os portugueses não mais criaram para autori­dades chinesas problemas dignos de menção. Elas certamente não consideraram as intenções belicosas do governador das Fi­lipinas, que se gabava de poder conquistar toda a China com dez mil espanhóis e o mesmo número de mercenários japone­ses ou filipinos; não conseguirá jamais convencer Filipe a lhe fornecer esses soldados. O "fechamento" do Japão depois de 1614 e reintegração de Formosa em 1683 talvez parecessem afastar definitivamente qualquer perigo vindo do mar: o estudo de horizontes distantes provinha de uma curiosidade tanto fútil quanto malsã. Para que selecionar e precisar a massa de infor­mações acumuladas? Essa falta de motivação não podia apare­cer de modo mais claro que na parte geográfica da história oficial dos Ming. Na China tradicional, era costume que cada dinastia reinante fizesse redigir a história da precedente: a dinastia man­chu dos Qing (1644-1911) levará quase um século para produ­zir a versão definitiva da história dos Ming (1368-1644). Era um trabalho de gabinete, compilado a partir de documentos e cons­tituído de uma junção ordenada de extratos considerados signi­ficativos. Em poucas palavras, o texto, pelas próprias imperfeições, resulta na lista dos conhecimentos e desconheci­mentos das autoridades chinesas no que concerne ao Extremo Ocidente em meados do século XVIII.

Pela primeira vez, quatro países do Ocidente recebem as honras de uma compilação oficial, três ou quatro páginas cada um, das cerca de oito mil que totalizam a obra. Os países são a Espanha, Portugal, Holanda e Itália.

Está-se distante do nível de uma obra como a admirável Des­crição geográfica, histórica, cronológica, política e física do Impé­rio da China, que o padre de Halde (1674-1743) lançou em 1739. Assim, tem-se a surpresa de encontrar a Espanha em compa­nhia do arquipélago Ryu-Kyu, cuja ilha principal é Okinawa: é que os compiladores confundiam as Filipinas com a Espanha, uma como a outra chamadas de Lusong, do nome de Luçon, a ilha principal do arquipélago. Em outros trechos, contudo, parece que se considera que são os Folangji que se apossaram desses territórios. A palavra deriva da forma árabe de "franco", termo que designava os cristãos da Europa. Os chineses identi­ficavam os Folangji aos (maus) portugueses em uma situação que lembra o mito da fundação de Cartago por Dido:

"Lusong situa-se nos mares do sul, não longe de Changchou (na região de Amoy) (...) Ele trouxe o tributo em companhia de Pangasinan em 1410, mas não se manifestou mais. Em 1576, o tributo foi restabelecido como recompensa pela ajuda que de­ram os habitantes da região contra os piratas. Os Folangji ha­viam se tornado poderosos, então, e já comerciavam havia tempo com Lusong. Vendo que lhes seria fácil apossar-se do país, que era fraco, eles ofereceram ao rei presentes valiosos para que ele lhes concedesse um pedaço de terreno não maior do que uma pele de boi, suficiente para construir uma simples habitação. O rei deixou-se iludir e consentiu. Cortando a pele em finas tiras, essas pessoas obtiveram uma extensão de vários milhares de toesas, um vasto território. O rei ficou muito alarmado, mas havia feito uma promessa e não podia desdizer-se. Contentou­-se em lhes impor modestas taxas de acordo com as leis do país. Uma vez instaladas, essas pessoas puseram-se a construir forti­ficações, a posicionar armas de fogo e outros meios de defesa e observação. Finalmente, aproveitando-se da surpresa, mataram o rei, expulsaram a população e ocuparam todo o país, que conserva o nome de Lusong, sendo na realidade Folangji ( ... )"

Os portugueses, em companhia dos holandeses, figuram dois capítulos adiante, no capítulo 325 da obra, associados a vários países da Malásia e da Indonésia, evidentemente pela razão aná­loga de que eles ocupavam territórios de há muito conhecidos dos chineses. Imagina-se a inquieta perplexidade das autorida­des quando viram aparecer esses novos forasteiros no século XVII, a bordo de navios mais poderosos ainda. Ela transparece na secura do relatório administrativo:

"A Holanda, também chamada 'país dos bárbaros de cabe­los vermelhos', está localizada perto de Portugal. No correr de suas sete expedições, no começo do século XV, nos mares oci­dentais (os chineses chamavam assim os mares do sul), o almi­rante Zheng He identificou .várias dezenas de países estrangeiros, mas nenhum corresponde a esse nome de Holanda, Helan. As pessoas de lá têm os olhos fundos e o nariz longo; os cabelos, as sobrancelhas, a barba e os bigodes vermelhos. Eles têm alta estatura, o dobro da normal, e têm grandes pés ( ... )"

No final do capítulo, a Itália substitui a palavra "Europa" que constava da primeira versão. O país é imediatamente iden­tificado ao "grande Qin" e ao Fulin da Antigüidade: uma in­formação notavelmente precisa comparada com aquela referente aos outros países da Europa. Os jesuítas passaram por lá e indu­bitavelmente levaram mais do que todas as esquadras portugue­sa, espanhola ou holandesa:

"A Itália situa-se no 'grande oceano ocidental' ('grande' pa­ra distingui-lo do 'pequeno' oceano ocidental que designava os mares do sul) e nunca teve relações com a China. Quando Mat­teo Ricci, desse país, chegou a Pequim, criou o Painel completo de todos os países, declarando que o mundo se dividia em cinco continentes: 1) a Ásia, com uma centena de países, entre os quais a China; 2) a Europa: com mais de setenta países, inclusive a Itália; 3) a Líbia (Liweiya, ou seja, a África): com uma centena de países também; 4) a América, com um território ainda maior, 1101 verdade dois continentes ligados por um istmo. Enfim, o quinto, a Melanésia.

Essa seria a totalidade dos territórios que existem. Suas afirmações são inverificáveis. Todavia, não se pode duvidar inteiramente da descrição de uma pessoa que, além de tudo, tem tão bom conhecimento da terra chinesa (...)"

Termina por uma lista de eminentes sábios letrados do Ocidente, mas indicando o seu país de origem a partir do latim dos jesuítas, de tal modo que a identidade de Lusong com Yixibaniya (Hispania) ou de Folangji com Poeorduwaer (Portugalia) de­via escapar completamente aos chineses. Em todo caso, a monografia ao menos menciona a inquietação do ministério dos ritos, cuja boa-fé não parecia estar acima de qualquer suspeita. Chega mesmo a duvidar da existência desse "grande oceano oci­dental", com o argumento de que a grande compilação das ins­tituições da dinastia reinante só menciona "oceano ocidental" - foi efetivamente a solução mais fácil que os chineses encon­traram para designar o conjunto dos mares desconhecidos do Extremo Ocidente. Membros desse mesmo ministério inquietavam-se com as atividades do padre Vagnoni (1568-1640) em Nanquim, cujos discípulos pregam a superioridade das pes­soas e dos costumes daqueles estranhos países. A doutrina do Senhor do Céu (o catolicismo) desorienta as multidões e exerce sua sedução tanto sobre os letrados da classe dirigente quanto sobre o populacho, garantiam. Mais grave: era possível consi­derar que todos esses missionários fossem, na realidade, Folangji, e, então, convinha expulsá-los antes que fosse muito tarde.

Essa crescente desconfiança explica parcialmente o esquecimento em que caíram muitas obras de geografia européia e uni­versal redigidas em chinês clássico pelos jesuítas, curiosamente discretos sobre os países não-católicos, precisamente aqueles que se mostravam mais ativos no litoral chinês no século XVIII. O atraso e as lacunas de informação dos meios oficiais chineses sobre o Extremo Ocidente aparecem ainda mais claramente na­quilo que se pode considerar uma atualização do saber na maté­ria, o Ensaio de monografia de Macau, iniciado em 1744 e concluído em 1751 por dois mandarins, que, devido às altas fun­ções que exerciam na província, foram levados a entrar em contato com esses bárbaros do Ocidente. Sua informação, raramente de primeira mão, é quase toda fundada sobre uma documenta­ção escrita conforme a versão oficial que figura na história dos Ming. Os complementos da segunda parte introduzem confu­sões suplementares. Assim, nova etapa na confusão sobre a pa­lavra Folangji (francos): ficamos sabendo que tal tinha sido o nome dos portugueses que, em seguida, fizeram-se chamar Gan­xila (ou seja, Castilha, Castela, como conseqüência, sem dúvi­da, da união ibérica de 1580 a 1640) e daí em diante Folangxi (uma confusão com Folanxi, a transcriçã9 de França apresenta­da em Cantão por sua Companhia das Índias). Afirmam que os óculos, introduzidos na China um século antes, são usados no Ocidente por todas as crianças a partir de dez anos a fim de "alimentar os seus olhos". A figura de Matteo Ricci que, pas­sado dos cinqüenta, parecia sempre ter vinte anos, só é evocada para assegurar que, segundo o sábio letrado do Ocidente, a ter­ra era uma espécie de cubo suspenso no espaço. O cristianismo seria apenas um produto híbrido, mistura de budismo e de islã. A escritura de uns e de outros, além disso, trairia uma comum origem indiana. A falta de clareza das línguas do Extremo Oci­dente não as torna tão inacessíveis quanto se pensa: a prova é que os chineses que freqüentam os bárbaros são plenamente ca­pazes de aprender sua língua, que pode, além disso, ser transcri­ta em chinês, por exemplo xiaowu/céus; suolu/sol, etc. O "pequeno oceano ocidental" já estava a dez mil lis (cinco mil quilômetros) da China: o "grande" não estaria a menos de três anos de navegação. O Extremo Ocidente, então, estaria situado a uma distância quase planetária, o que seria perfeitamente tran­qüilizador se a coisa fosse exata. Não se tardaria a perceber que não era nada disso...


Por LEVY, A. Novas cartas do extremo ocidente. São Paulo: Círculo do livro, 1989.