O Valor do estudo comparado da Filosofia

por William E. Hocking em Moore, C. (org.) Filosofia: Oriente, Ocidente. (1978), Edusp-Cultrix, São Paulo.


O mundo ocidental está começando a levar o Oriente a sério. Há talvez dois séculos tem ele mostrado interesse erudito pelo Oriente como local de vários acontecimentos interessantes da civilização. Durante estes dois séculos, dominou línguas e editou e traduziu muitos textos orientais clássicos. Acrescentou muito ao nosso conhecimento da história oriental, mas em todo esse trabalho de erudição raramente se admitiu que as filosofias do Oriente tenham algo de importante para nós: com a ilustre exceção de Schopenhauer, nenhum filósofo ocidental de primeira plana incorporou idéias orientais importantes ao seu sistema de pensamento.
Esta objetividade erudita tem andado de mãos dadas com a objetividade política. O Oriente lá está, dele temos que ocupar-nos e devemos usá-lo como fonte de abastecimento e como um grande mercado, mas sem uma fraternidade fundamental.
Hoje há um novo espírito de respeito: o elemento de fraternidade começa a penetrar. O Oriente fala as nossas línguas e nós começamos a falar as línguas dele. Centenas de pontes estão sendo construídas para ligar-nos a essas multiformes maneiras de viver, em parte através de nova cooperação política, e em parte pelo trabalho da Ciência e da Arte. Na Ciência, ainda conservamos a liderança quanto ao volume e a importância das descobertas e dos empreendimentos, embora os cientistas orientais estejam começando a contribuir para o crescente volume de uma verdade que está acima de raça e nação. Mas nas Belas - Artes, já nos demos conta de que, em muitos pontos, a sensibilidade oriental é incomparavelmente maior do que a nossa. No campo da cor, por exemplo, saímo-nos bem com o contraste e a harmonia de duas cores, ao passo que apenas na China foram alcançados com sucesso a harmonia e o equilíbrio correspondentes em três cores.
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Uma causa desta mudança de atitude, naturalmente, é que temos meios muito mais adequados de conhecer o Oriente, mas há uma segunda causa, que é prática: temos que haver-nos cada dia mais com o Oriente, sob todos os aspectos, e precisamos conhecer aquilo com que temos que haver-nos. Negociações comerciais e políticas nunca são meras trocas de bens e serviços; há sempre um elemento psicológico. Há maneiras de vender que não dão resultado. Produtos que atraem o comprador ocidental nem sempre atraem o oriental, pois não é apenas porque facas e garfos não encontram bom mercado em um país que usa pauzinhos, mas porque toda a noção do que constitui uma vida confortável e satisfatória é diferente: As reações emocionais das pessoas têm que ser levadas em consideração nas negociações diplomáticas e comerciais. O cliente ofendido não comprará, ainda que queira, e em toda parte estamos lidando com o que podemos chamar de fundamento emocional da vida.
Ora, as filosofias do Oriente e as religiões do Oriente são a admissão deste fundamento emocional. Estamos acostumados a dizer que o Oriente é inescrutável - outra maneira de dizer que não lhe compreendemos as emoções, e dizemo-lo porque procuramos a fonte dessas emoções no lugar errado. Se você olhar dentro dos olhos de uma pessoa, pode ficar intrigado querendo saber como ela se sente ou por que se sente como dá a entender. Mas, se quiser conhecer o fundo da consciência da qual brotam as emoções, você verá que foram as tradições que o formaram. O registro das religiões e filosofias orientais é a auto - expressão da reação oriental à vida. É a chave do caráter oriental. O mais concreto dos nossos interesses práticos precisará de um conhecimento mais intimo de tais fontes do sentir oriental, mesmo no momento em que dessas tradições se estão afastando os próprios orientais. Nenhuma mudança desse tipo poderá ser suficientemente profunda para refazer em pouco tempo uma civilização de tal qualidade, que há vários séculos se tem transmitido com extraordinária fidelidade.
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Os estudos do pensamento oriental têm o mesmo valor que a comparação das civilizações. Mostram a grande afinidade da inteligência dos homens em todas as circunstâncias. Assim como a Aritmética é a mesma em todo o mundo, assim também é a Ciência nos seus simples começos, na observação do céu, da terra e dos seres vivos. Mas tais estudos mostram também, e às vezes com espantoso contraste, diferenças nas próprias bases do nosso modo de ver o mundo - os dados dos sentidos, da observação e das nossas primeiras apreciações. Estamos acostumados a pensar que a Ciência avança em linha reta, e que há um estágio de conhecimento preciso, mais alto e mais baixo. Todavia, mesmo no progresso das ciências, há grande vantagem em recomeçar numa nova trilha e com novos olhos. Os indianos viram coisas da vida animal que a nós nos escaparam completamente. A percepção chinesa das formas e qualidades naturais tem muitas novidades para o olhar mais embotado. O sentido dos japoneses para a harmonia e a ilusão na paisagem abre uma nova gama de percepção original nas histórias e fantasias sobre os seres vivos. As possibilidades na contextura do jade, da esmeralda, do ouro e do ferro trabalhados a mão são uma espécie de revelação física elementar. Esses singulares poderes de percepção até agora não foram transformados pelo Oriente em novas fases de ciência. O que tem faltado é o esquema do desenvolvimento científico. A China descobriu a pólvora e usou a bússola muito antes de ela ser conhecida no Ocidente, mas não escreveu nenhum tratado sistemático de Física ou Química. Mas agora que ela tem o modelo transmitido pelo Ocidente, esses poderes de observação exercerão sua singular função, mostrando novas facetas da Natureza, como nos estudos da fisiologia das plantas por Bose, de Calcutá.
O que se pode afirmar da Ciência também se aplica à Metafísica e à Ética. Há princípios universais, como na Lógica e na Metafísica. Há, de fato, certa tendência a admitir que as "categorias do pensamento são diferentes no Oriente e no Ocidente. Recentemente, foi até defendida a tese de que a estrutura sujeito - predicado da língua grega, que impôs um molde aristotélico de sujeito - atributo a todo o pensamento ocidental, escapa ao pensamento chinês, porque o verbo "ser- estar"(1) não tem equivalente exato em chinês: "shih", como termo geral de afirmação, não possui infinitivo. Pode ser verdade que o pensamento chinês seja mais naturalmente relacional, mas trata-se de uma questão de ênfase. As categorias básicas tanto de ser como de valor são as mesmas em toda parte. Se assim não fosse, não se teria esperança num entendimento ou numa ordem internacionais. Nem poderiam os estudiosos escrever, sobre tais diferenças, artigos que fossem compreendidos em ambos os hemisférios.
Admitida esta premissa, a importância dos estudos comparados depende do fato de que, no corpo da verdade, há ênfases que são de natureza racial, assim como há uma psicologia racial. Na verdade, o que queremos dizer quando nos referimos a uma psicologia racial é principalmente uma diferença característica na ênfase moral. Essas diferenças são causas freqüentes de alienação ou antipatia: o preconceito racial, por exemplo, é em grande parte a manifestação de uma opinião de que o sentido ético ou estético de outro povo é defeituoso em algum ponto, ao passo que tal opinião pode ser verdadeira sem constituir nem superioridade da parte do que se arvora em juiz nem um abismo moral. Porque é muito provável estar ocorrendo que os juízos morais do critico também em algum ponto estejam falhos! A verdadeira questão é saber se cada um é capaz de reconhecer que os seus juízos morais são defeituosos; porque, nesse caso, ele está julgando seus juízos por um padrão mais próximo do universal, e então pode haver um ponto de encontro. Se, pois, qualquer psicologia racial estiver baseada nas peculiaridades do juízo moral ou, digamos, do juízo de valor, esse fato é da maior importância, mas não será necessariamente um fato decisivo; porque a descoberta de que tal é o caso é um meio de mudá-lo. Divergências de percepção racial em Ética e em Estética são um fator de enriquecimento de toda a experiência humana acumulada. O influxo de novos conhecimentos sobre a Filosofia oriental deverá ser um recurso poderoso para alcançarmos por nós mesmos melhor percepção dos princípios universais nesses campos.
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Deve-se recordar que o Oriente é mais conscientemente filosófico do que o Ocidente. Vale dizer, é comum, nos países orientais, que a vida seja guiada por referências conscientes a princípios gerais de filosofia ou religião. Esses princípios gerais se encaixam na conversação de modo mais natural, o que é uma esquisitice para o espírito ocidental, parecendo ao realista obstinado que o espírito oriental se ocupa muito com irrealidades.
Neste ponto, sem dúvida, o ingênuo é o realista. De modo geral, o temperamento pragmático e realista do Ocidente aceita as coisas da experiência como verdadeiras pelo seu significado aparente. Trata seus objetos físicos e seus créditos comerciais como realidades, no sentido pleno da palavra. Acredita que o seu "progresso" se deve em grande parte a esse realismo. Na verdade recorda-se, vez por outra, de que tais coisas não são definitivas e de que há um mistério por trás dos fatos patentes; mas, depois de reconhecer a existência de um mistério, talvez uma vez por semana, passa, então, a tratar o mundo como se esse mistério não tivesse nenhuma importância prática.
Ignora que os seus próprios códigos de conduta surgiram de um estado de espírito - uma religião oriental - em que esses mesmos mistérios eram soberanamente verdadeiros. Como conseqüência, justamente em seu lado prático a consciência ocidental está dividida e confusa. É vagamente religiosa em saber por quê. Aceita orientação ética sem os poderes adequados de critica porque esqueceu como chegou a adquiri-la. Se se pergunta ao homem ocidental médio o que significa a vida, ele emudece. Contenta-se em viver e em deixar que outrem pense nisso.
O oriental é mais sábio; sua filosofia está sempre em ação. Ele não tem filosofia ou religião que não esteja em ação. Suas reflexões se mantêm em íntima ligação com seus atos. Temos que aprender do Oriente a significação prática da Metafísica. Um povo que pôde criar um sistema de pensamento árido, como o positivismo lógico, o qual declara sem significação os problemas metafísicos, tem todos os motivos para escutar serenamente o que tem a dizer o espírito oriental.
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Assim fazendo estamos, naturalmente, apenas voltando às nossas próprias origens. Familiarizar-se com o Oriente no que concerne à sua Filosofia - e religião - é familiarizar-se com os nossos eus arcaicos. A história do Oriente é, no fundo, como qualquer história, uma história de fatos, porém, é mais fundamentalmente ainda uma história de idéias; e essa história está ainda por ser escrita.
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Quem se aprofundar na rica mina do pensamento oriental deparará muitos pontos em que está pronto a reconhecer a superioridade do gênio oriental. A pobreza do Oriente, a generalizada miséria da população rural, é um fato econômico que merece, como todos os fatos assim, ser medido e registrado. Mas deveríamos, ao mesmo tempo, registrar que, nessas consternadoras condições, o Oriente manteve um nível extraordinário de íntima dignidade humana. Há males óbvios, patentes na superfície da vida oriental, e é evidente a necessidade de mudança, não apenas para o Ocidente, mas também para o Oriente. A nossa era será conhecida como a era do despertar social da Ásia, mas com o mal se foi uma solução parcial. Ninguém que estude o "problema do mal" pode dar-se ao luxo de desdenhar a história íntima do homem comum da China e da Índia; de descobrir, se possível, como, em tais circunstâncias, ele tem mantido um padrão humano tão elevado.
Muitas vezes pensamos no Confucionismo como um sistema estático de convenções sociais. A própria China se inclina a identificá-lo com uma vida de família fora de moda, grilhões que a era atual tem de pôr fora. Mas há uma qualidade espiritual do Confucionismo que ninguém pode enfrentar sem reconhecer-lhe a imortalidade essencial. Confúcio certamente acreditava em formalidades, mas não acreditava em formalidades sem significado. Não podia haver apelo à sinceridade maior do que o dele, que tanto desprezava a arte de "dar as coisas seus nomes exatos". Quando consideramos que a hipocrisia ocidental, na política e alhures, consiste em dar às coisas nomes mais decentes do que elas merecem, apreciamos devidamente o alcance desta aguda máxima segundo a qual se devem dar às coisas os nomes exatos. E, mesmo no pormenor do dia - a - dia, podemos aprender o padrão confuciano do "homem nobre". Confúcio louvou um dos seus discípulos atribuindo-lhe dois méritos notáveis - primeiro, não tinha de aprender de novo o que havia aprendido uma vez. Segundo, não "transferia seus sentimentos", isto é, a pessoa não transporta o aborrecimento que teve com um episódio para o seguinte, porque se aborreceu, assim como não levará uma hilaridade despropositada para o momento seguinte porque se divertiu um instante. O homem ideal é o adequado emocionalmente para cada ocasião. O requinte de justiça deste ideal é um exemplo da pureza da observação ética que encontramos em todo o rico repertório da reflexão oriental.
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Passando agora destas observações gerais para questões de principio, perguntemos que espécie de visão interior se pode esperar do estudo comparado das Filosofias oriental e ocidental.
Se a Filosofia fosse simples ciência dedutiva, tanto a Filosofia ocidental como a oriental poderiam considerar-se auto-suficientes e sem nenhuma necessidade absoluta de receber luzes de qualquer outro quadrante do globo. As premissas originais deveriam concordar, e as inferências delas extraídas constituiriam um corpo de verdade indiferente ao tempo e ao lugar. O número maior de trabalhadores que poderia resultar se as filosofias do Ocidente e do Oriente se dessem as mãos de fato facilitaria, como no caso da Ciência, o progresso da Filosofia; mas não poderíamos esperar nenhuma compreensão qualitativamente diferente.
Mas a Filosofia é, basicamente, uma questão de o que uma pessoa vê, e, em seguida, da sua capacidade de fazer uma conexão racional entre o que vê e o que, de alguma outra maneira, sabe; suas premissas são suas observações originais sobre o mundo. Assim, as pessoas que possam acrescentar alguma coisa à nossa visão são o apoio mais importante para o progresso em Filosofia. O próprio fato de o Oriente ter modos diferentes de intuição - o que às vezes se coloca sob a forma enganosa de que há um abismo entre as mentalidades do Oriente e do Ocidente - é o que torna tão importantes para nós suas contribuições à Filosofia e as nossas para eles. É uma felicidade, sob este aspecto, que as Filosofias oriental e ocidental tenham-se desenvolvido separadamente durante tanto tempo. Elas ficaram consolidadas em sua maneira de ver as coisas. Cada uma se tornou a carta régia de uma civilização mais ou menos duradoura. Se a prova de uma filosofia fosse a durabilidade da civilização nela baseada, o Oriente sem dúvida teria muito mais autoridade. Quando Sarendranath Dasgupta falou na inauguração do novo templo budista em Sarnath, em 11 de novembro de 1931, declarou de modo incisivo que a civilização européia, embora professasse uma religião de paz, singularmente não conseguira instaurar a harmonia em sua casa, ao passo que o Budismo na realidade promovera a paz e nunca progredira com a ajuda de pressão política; e deu as boas-vindas ao que chamou de civilização hindu - budista do futuro na Ásia. As considerações subjacentes a esta admirável declaração merecem nossas mais sérias reflexões.
A suplementação das filosofias ocorre mesmo nos ramos abstratos da Lógica; é porém mais visível na Metafísica, na Ética e nos fundamentos da vida social. Consideremos, por exemplo, dois pontos em que a nossa filosofia está em dificuldade, e em que o Oriente tem algo de peculiar a dizer: a questão do individualismo versus a vida social em agrupamentos e a questão da existência de um outro mundo (ou misticismo) versus o humanismo realista.
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O individualismo para nós é, ou tem sido, uma senha. Temo-lo considerado um ideal mais ou menos incorporado ao nosso sistema legal. Não podemos dizer que, de fato, julgamos o indivíduo sagrado, mas criamos nossas leis no pressuposto de que os indivíduos têm iguais direitos perante a lei, e deste ponto deduzimos nossos sistemas de direitos civis e nosso democracia. Mas a base dos direitos iguais é igual valor; e podemos dizer que, de fato, atribuímos valor igual (e "sagrado") a todos os indivíduos?
Um escritor chinês há pouco acusou nossa civilização de hipócrita precisamente com este fundamento. Vamos ao Oriente e falamos dos direitos sagrados do indivíduo; todavia, como ele assinalou, as companhias de bondes dos Estados Unidos que matam por ano um número estatístico de pessoas negaram-se - segundo se divulgou - a instalar limpa-trilhos de segurança sob a alegação de que o custo deles seria maior do que as indenizações anuais por vidas e membros perdidos. Na prática, pensamos na vida em termos de dólares e cêntimos, de modo que o crítico chinês argumentou: a "sacralidade" é um sentimento, e não um princípio.
Nem, tampouco, verificamos, na prática, que tratar o indivíduo como a unidade absoluta da vida social, a sede de todos os direitos e poderes, corresponde aos fatos sociais. A vida grupal e associativa também tem seus direitos e suas reivindicações sobre seus membros, e não reconhecer tal fato é enfraquecer a vida orgânica do Estado.
De modo mais especifico, o individualismo tendeu na prática a destruir a capacidade das nossas democracias de alcançar unidade de ação e de sentimento: a reclamação de direitos acabou com a consciência do dever comum. A reação totalitária expressa a desconfiança nas bases morais da democracia. Não podemos enfrentar o totalitarismo com a mera reafirmação da nossa confiança na democracia. Temos de reconsiderar a base filosófica da democracia e o significado do individualismo que continuaremos a sustentar. A este respeito, o Oriente pode ser-nos muito instrutivo.
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O Oriente nunca propôs o individualismo nem a sacralidade da personalidade como princípios básicos. Os críticos ocidentais têm sustentado que as filosofias orientais tendem a olhar como ilusório o mundo da experiência, e da mesma forma as diferenças individuais. O Budismo considera a ânsia de isolamento individual a raiz de todos os sofrimentos. Para o Hinduísmo, na sua forma clássica, a grande realização consiste em sermos idênticos ao Brâmane (2), e portanto, idênticos um ao outro. Esta não e a única forma, da filosofia hindu, e é injusto para com o pensamento indiano identificar o Hinduísmo com tal doutrina; mas ela tem, não obstante, vasta influência. E, na medida em que este seja o caso, é evidente que nenhum individualismo poderia estar baseado nela, exceto como uma máxima operacional válida numa ordem inferior de realidade. Talvez o pensamento indiano, que ultimamente se tem ocupado em repudiar o hábito dos ocidentais de caracterizarem seu modo de ver em termos de Advaita Vedanta, possa voltar a ter certa satisfação nesse aspecto do Vedanta que corrige uma falácia ocidental - a falácia da separação pessoal.
De qualquer maneira, a estabilidade da sociedade oriental se deve, em parte, à saudável indisposição de exagerar a importância da diferença de função e status sociais, que as suas filosofias registram e sustentam. As filosofias autóctones do Extremo Oriente quase universalmente atribuem significação religiosa à família como uma entidade supraindividual dentro da qual a diversidade de funções é a regra. A família, por sua vez, prove a todos e de todos cuida, criando uma domesticidade em que todos tomam parte sem uma artificial profissão de igualdade. O espírito da família até há pouco permeou os grupos mais vastos, conduzindo a uma relativa aquiescência em diferenças sociais e a uma relutância de insistir em comparações sociais invejosas. Permite-se que a casta ou o tipo de ocupação descrevam uma carreira, pois não foi Manu quem disse que a confusão de castas é a maior das desgraças? A relativa falta dessa estridência de ambição pessoal, que se mostra na determinação de "subir", e, assim, uma certa ausência de inquietação e insistência em direitos que tanto enche as nossas sociedades ocidentais de queixas, lutas e guerras de classes, constitui, pelo menos em parte, um elemento de força social. Poderíamos, talvez, dizer que é característico da Filosofia oriental ver a "justiça" social, quando a justiça se define em termos de pretensão individual aos bens e à posição, como assunto de somenos importância. E, assim sendo, acompanha a natural desigualdade entre os homens a disposição de suportar sem queixa uma certa dose de provação social. Essa capacidade de suportar e de aceitar é ajudada, em algumas regiões do Oriente, pela doutrina do carma, que representa as circunstâncias reais do indivíduo como dotadas de significado em termos de seu destino eterno, significado que não foi fixado nem pelos seus esforços atuais nem pelos da sociedade.
Bem, de acordo com as primeiras impressões dos observadores ocidentais, toda esta aceitação é perniciosa e constitui um fator de estagnação social. Tentamos insuflar no Oriente uma disposição de lutar contra a injustiça e de reformar suas instituições no interesse da liberdade de ação individual; recomendamos uma disposição a rebelar-se, a ajudar-se, a esquecer o carma, a tomar nas próprias mãos o destino individual e da sociedade; queremos inspirar o oriental com um descontentamento que gostamos de qualificar de "divino". E o moderno Oriente, mais do que meio convencido desse programa, encontra o germe do esforço individual agressivo nas suas próprias filosofias e a estas inflama com nova vida.
Admitido que tal tendência esteja certa, posso indagar se ela é mais do que meio certa? Talvez a capacidade de suportar do Oriente seja, pelo menos até certo ponto, uma virtude que nos falta e que dificilmente compreendemos. A meu ver, só teremos uma apreciação justa da nossa própria ordem social quando tivermos compreendido as bases filosóficas desse modo de ver oriental, de acordo com o qual a sorte do indivíduo não está mergulhada, mas entrelaçada com os destinos de um grupo ou grupos integrados, seja a família, seja o grupo ocupacional, seja a nação.
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Isto me traz ao segundo traço da Filosofia oriental sobre o qual desejo falar - a existência de um outro mundo. O sentimento de que o mundo visível não é todo o mundo certamente tem desempenhado um papel na imaginação de milhões de pessoas cujas vidas são mais tediosas e difíceis do que jamais conhecemos no Ocidente. O fazendeiro oriental médio vive num mundo de trabalho duro e incessante, mas também num mundo de viva imaginação, na medida em que pensa na sua relação com os membros do seu próprio clã que se foram. Seu trato com esses espíritos de seu culto familiar é provavelmente supersticioso: atribui-lhes uma influência que eles não têm em sua sina no mundo. Quando se torna crítico e intelectual, é provável que descarte todo esse modo de ver. A Filosofia tradicional tenta manter os dois mundos em relativo isolamento um do outro. Achamos que estes dois aspectos do mundo se separam demasiadamente no Oriente; que a sua Filosofia tende, de forma exagerada, a ser um culto de uma realidade transcendente que nada tem a ver com este mundo. A intelligentsia do novo Oriente concorda com semelhante opinião: sua crença num outro mundo desaparece num secularismo pragmático ou humanista.
O grande valor, para o Oriente, da crítica pragmática das idéias metafísicas não deve ser desdenhado, pois ainda tem muito que realizar. Pode ela ser tida como uma contribuição do pensamento ocidental para o oriental, até onde vá o atual incentivo; embora, também, tenha tido o efeito de reanimar as raízes pragmáticas existentes nas tradições das próprias Filosofias orientais, especialmente na China. Mas há uma diferença entre crítica e construção; e, como o pragmatismo no Ocidente tem-se mostrado singularmente incapaz de construir uma visão positiva do mundo, convém que tanto o Oriente como o Ocidente considerem as origens destas audazes estruturas de fé, as quais durante tanto tempo serviram de matrizes da cultura.
Se o nosso objetivo é manter para a civilização algo que não seja uma visão sordidamente prática e material do mundo; se pretendemos alcançar um humanismo genuíno, teremos que reconsiderar as bases da antiga crença num outro mundo. E, ao reconsiderá-las, será bom examinarmos os tipos de convicção mística que ainda não se perderam para o Oriente e que estão tão próximos das fontes da nossa própria fé histórica. Nenhuma metafísica conserva hoje sua inteira força tradicional, e, no entanto, nenhuma metafísica tradicional perdeu sua importância contemporânea.
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Mencionei dois pontos em que a comparação de filosofias promete aumentar os recursos de que dispomos para um juízo correto. Tais pontos podem servir de exemplo dos princípios gerais de que cada filosofia com que estamos lidando é uma variedade de ponto de vista; de que no trabalho filosófico, que nunca foi tão urgente quanto hoje, precisamos, não apenas de dois olhos, mas de muitos; e de que as próprias diferenças que constituem a tão sentida estranheza do Oriente são precisamente as diferenças que lhe tornam seu pensamento indispensável para nós. Resumindo:
Há três atitudes históricas no trato com o que esteja além do nosso próprio círculo de idéias. Primeiro: "Isto é estranho e alheio - evite-o". Segundo: "Isto é estranho e alheio - investigue-o". Terceiro: "Isto parece estranho e alheio - mas é humano; tem, portanto, afinidade comigo e é potencialmente meu - aprenda com ele". Até dois séculos atrás, agíamos de acordo com a primeira máxima. Por mais dois séculos, do XVIII ao XX, agimos de acordo com o segundo: temo-nos preocupado com um estudo objetivo do Oriente. Os dois séculos à nossa frente devem ser consagrados à terceira, a uma tentativa de ir além da objetividade erudita para chegar a uma associação humana ativa e à busca comum da verdade universal.
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(1) "To be", no original, traduzido, para maior precisão, pelas duas formas que admite em português (N. do T.).
(2) V. a nota da pág. 29 (N. do T.).
(2) A palavra "Espírito" não é a tradução exata de "Brâmane", mas deve ser entendida como uma aproximação. Brâmane, poder-se-ia dizer, é "Algo quase - psicológico".