Obstáculos e uma conclusão

por Jean Riviere. (1979), Editora Salvat, Rio de Janeiro


Os obstáculos
Se se fizer o balanço sincero das tentativas de compreensão e de diálogo entre o Oriente e o Ocidente, devemos reconhecer que é infelizmente negativo. O fundo da questão é essencialmente uma oposição entre conceitos filosóficos fundamentais, entre duas visões do mundo diametralmente opostas; as diferenças econômicas e políticas, variáveis por definição, não são mais do que conseqüências.
Entre os obstáculos que se opõem a uma aproximação de ambos os mundos destacam-se em principio as divergências que derivam do amor-próprio, as ofensas ao orgulho nacional, principais motivos de mal-entendidos. O Ocidente deve abandonar definitivamente a idéia vã e ultrapassada de que a sua cultura representa a única civilização válida, original e digna de interesse para o mundo inteiro. A filosofia não se inicia com os pré-socráticos. Deve abandonar também a sua tendência para dominar política e economicamente os seres débeis, com o pretexto de que os mais elevados interesses da humanidade, ou seja, os seus, estão em jogo. O colonialismo militar, hipocritamente transformado em colonialismo econômico, deu origem na Ásia a profundos e tenazes complexos. Esta brutal forma de domínio constitui um obstáculo insolúvel para se chegar a uma mútua compreensão de valores culturais.
Os fatos históricos devem ser respeitados nos manuais de ensino e demais meios de comunicação (livro, rádio, televisão). A História deve ser íntegra e autêntica. Os períodos obscuros - e todos os povos, sejam quais forem, tiveram épocas de obscurantismo moral - não devem ser dissimulados mais nos livros ocidentais do que nos orientais.
Uma vez afastados os obstáculos devidos ao orgulho e o afã de poder, o Ocidente poderá contemplar, e talvez descobrir com assombro, a secreta beleza de uma flor exótica de extraordinário valor cujas culturas longínquas e estranhas ignoravam. As civilizações orientais, cheias ainda de tradições vivas de um passado longínquo, são dignas de estudo se se lhes der a devida atenção. O Ocidente contaminou a Ásia, mas felizmente a industrialização não substituiu todas as correntes espirituais; as crenças, as tradições, as práticas não desapareceram completamente. Basta deixar as capitais da Ásia e percorrer, em carroças puxadas por bois, as antigas aldeias ainda governadas pela tradição, aldeias que ainda são analfabetas, para se encontrar um ritmo natural, uma sabedoria prática, um equilíbrio das relações humanas, já há muito tempo esquecidos no Ocidente. O turista que nunca aprofunda as coisas se surpreenderia por encontrar tanta alegria paralela a tanta miséria.
O problema no conjunto é complexo, visto inserir-se na psicologia das massas, na dramática experiência das relações entre os homens. Ao examinar outros povos e outras raças descobrimos novas realidades psíquicas, tradições familiares e nacionais, convenções sociais e religiosas que os indivíduos destas raças adaptaram ao meio em que vivem. As normas tradicionais, as crenças aceitas desde a infância, mergulhadas no subconsciente, adquiriram um caráter absoluto e intransigente. A inibição é muito freqüente e bloqueia a espontaneidade perante a intrusão do "estrangeiro". O ser humano concreto é de uma complexidade tal que só se pode formular um juízo sobre sua estrutura com reservas, já que um fator novo e oculto, não reconhecido, pode intervir e modificar bruscamente seu comportamento e destruir o trabalho de aproximação, realIzado com tanto custo. Os obstáculos citados pertencem a essa ordem de idéias e por isso o problema da abertura que possa facilitar uma compreensão mútua é difícil. Os recentes trabalhos da UNESCO, bem como seus resultados, confirmaram o que atrás se afirmou.

A abertura Religiosa
Ao longo deste trabalho se tem dito que as culturas orientais são profundamente religiosas; a sua forma de expressão, filosofia e até a sua propaganda têm esse aspecto. O homem oriental está ligado ao sagrado, que explica através da linguagem e do comportamento. Nas sociedades asiáticas tradicionais, que constituem as bases das massas orientais contemporâneas, o social, o familiar, a técnica e o sagrado estão indissoluvelmente ligados. Mas seria errôneo julgar que se trata somente de uma posição sociologicamente organizada, originada na angústia e no medo, no temor ao destino e à morte. Esta explicação fácil do fenômeno religioso, muito em voga no Ocidente, permitiu ao europeu afirmar uma atitude de homem forte, liberto dos temores ridículos da Idade Média, mas esta é uma explicação falsa. A antropologia religiosa demonstra que o sagrado é. um elemento da própria estrutura do homem e não uma etapa da sua história mental. A presente realidade corresponde muito mais marcadamente a uma dessacralização das culturas ocidentais, que esqueceram as suas hierofanias e o sentido do sagrado, a uma laicização geral, já assinalada e estudada por muitos autores. É oportuno referir que o fenômeno nunca é definitivo e que qualquer cultura, pelo fato de estar "viva", gera um novo halo "sagrado", que suporta e justifica suas ações, na exata medida em que este "sagrado" é o próprio mundo do homem, elevado acima da praxis quotidiana, como refere o Prof. Michel Meslin. É fácil observar este novo "sagrado" ocidental no culto da ciência, no desporto, na ideologia política, começando nos "nacionalismos". Um notável exemplo destas novas religiões é o comunismo radical, com seus "santos", sua "Igreja", sua inquisição, suas confissões, seu dogmatismo, suas heresias e seus desvios.
Nas tentativas de aproximação Oriente-Ocidente, seria um esquecimento imperdoável a omissão da abertura religiosa; este tema esteve latente ao longo do presente trabalho. No diálogo entre ocidentais e orientais, sempre será colocado, num momento ou em outro, o problema da religião, ou, pelo menos, da reação psicológica religiosa.
Esta abertura religiosa é delicada e difícil, porque roça o irracional, o emotivo, as forças subconscientes, bases da exaltação mística, que não admitem obstáculos no seu caminho, como já se disse. Até agora o Ocidente tentou converter o Oriente, o que foi até uma das causas das Cruzadas, e a razão de ser dos missionários, durante séculos, a do estabelecimento de igrejas cristãs no Oriente. Infelizmente, esta presença missionária foi acompanhada por ações militares e pelo interesse econômico do colonialismo europeu. A experiência fracassou. A Ásia não aceitou o cristianismo e as reflexões do sacerdote Monchanin, já citadas, tornam inútil qualquer comentário ou explicação. O Oriente nunca aceitará qualquer forma religiosa exclusiva, que provenha da Europa. A prova foi feita e é fácil tirar as respectivas conclusões.
Um aspecto inverso do problema é formado pela atração que certas formas religiosas orientais exercem sobre as ocidentais e o desejo de conversão e de síntese que dele deriva. Surgem no Ocidente os neobudistas, os neo-hinduístas, os “neo-yoguis”. Criaram-se centros de divulgação destas doutrinas; muitos possuem unicamente uma atividade lucrativa e não há necessidade de nos ocuparmos deles, embora seja de lamentar a respectiva clientela. No entanto, outros trabalham de boa fé e acreditam inaugurar uma nova etapa de sincretismo religioso que aproximará o Oriente do Ocidente.
Jung escreveu páginas definitivas sobre essas tentativas, na sua introdução psicológica aos textos tibetanos já referidos. A respeito dessas "conversações" escreveu: "Não posso deixar de colocar o problema de saber se é possível , e até desejável, que cada um adote o ponto de vista do outro. A diferença entre ambos - o oriental e o ocidental- é tão grande que não se vislumbra nenhuma possibilidade racional e menos ainda qualquer oportunidade. Não se pode misturar o fogo e a água...Para tomar autêntica a nossa nova atitude, isto é, para que se baseie na nossa própria história, devemos aceitá-la com plena consciência dos valores cristãos e dos conflitos existentes entre eles e a introvertida atitude oriental. Devemos alcançar os valores orientais internos e não os externos, procurando-os em nós mesmos, no inconsciente... Aquilo que podemos ensinar em matéria de conhecimento espiritual e de técnica psicológica, em comparação com o yoga, parece tão atrasado como a astrologia e a medicina orientais comparadas com a ciência ocidental. Não nego a eficácia da Igreja cristã; mas se compararmos o “Livro dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola”, com o yoga, ficará bem claro o que pretendo dizer. Existe entre eles uma diferença muito grande. Passar diretamente deste nível para o yoga oriental seria tão desacertado como a repentina transformação dos povos asiáticos em europeus fracassados. Tenho sérias dúvidas sobre o benefício da civilização ocidental e grande apreensão em relação a adoção da espiritualidade oriental no Ocidente".
Esta citação de Jung era indispensável para esclarecer o problema. Deve-se acrescentar que as tentativas de comparação de diversas formas religiosas para obter juízo de valor foram em vão. A morfologia das religiões demonstra que constituem a substância das culturas. Uma religião é um conjunto estrutural que possui seus dogmas, sua metafísica, seu culto, sua escatologia, etc. Não se pode separar nenhum elemento sem perigo de alterar o conjunto ou de criar uma nova religião. Desde que, no século passado, o Ocidente descobriu o budismo escreveram-se centenas de obras para tentar provar a superioridade desta religião sobre o cristianismo e vice-versa. Esta religião foi exaltada por puro sentimentalismo e foi, simultaneamente, ignorada por filósofos românticos, poetas, escritores anticlericais. Os defensores da tradição cristã depreciaram-na e desfiguraram-na por necessidade de defesa da sua própria causa. Efetivamente estas duas formas de religião não admitem comparação porque seus fundamentos são muito diferentes, devido tanto à personalidade de seus fundadores, como às suas bases de ensino ou ao seu conceito da salvação. Nada mais diferente entre si pela base e pela forma, que os Sutras budistas e os Evangelhos cristãos. Buda nunca quis ser um Salvador, mas sim um guia no caminho da libertação espiritual, um "iluminado", como seu nome indica, que chegou a tal estado por intermédio das técnicas de meditação, que ensinou a seus discípulos. A comunidade, o sangha , que reuniu os ascetas que se sucederam, não foi nunca uma Igreja no sentido ocidental da palavra porque nunca teve uma hierarquia sacramental; não há no budismo o conceito de Deus no sentido judaico-cristão do termo. O mesmo poderíamos dizer do hinduísmo, do taoísmo e de outras formas religiosas asiáticas. Nestas questões chega-se sempre a um núcleo irredutível a qualquer investigação humana.
Se se pretender estudar as possibilidades de sincretismo das diversas formas sociológicas do sagrado, do transcendente, devem procurar-se as soluções num plano mais elevado, o da intuição metafísica. Bergson compreendeu-o ao escrever que "só podemos compreender o Absoluto através da intuição, enquanto que o resto depende da análise". Esta intuição afeta o ser na sua essência. Sobre tais bases é possível a comunhão das formas religiosas do Oriente e do Ocidente. Rudolf Otto estudou-a ao comparar duas grandes personalidades religiosas, o Mestre Johann Eckart (cerca de 1260- 1327) e o metafísico hindu Shankara (cerca de 788-820), nos seus respectivos caminhos para a posse da visão da unidade; aí estão dois místicos, o grande mestre do Ocidente germânico e o mais famoso filósofo hindu, fundador da escola dos Vedanta e da Ordem dos Sannyasines que ainda existe na Índia. A concordância entre ambos os mestres é extraordinária, apesar de suas origens diferentes e de sua formação teológica e escolástica, que nada têm em comum. A semelhança da sua posição mística e da especulação que à volta disso se faz é sublimada pelo Prof. Otto. Evidentemente, o professor alemão luterano inclina a balança a favor de seu concidadão porque, como teólogo cristão, assusta-o a mística oriental hindu devido a sua teologia negativa, ao seu "vazio", símbolo muito freqüente na metafísica oriental. Reconhece, porém, o caráter comum numínico da descoberta do abismo espiritual.
Neste ponto já não existe Oriente nem Ocidente mas sim um grande mistério onde tudo é silêncio e experiência pessoal; chega-se ao umbral da consciência, onde nada se pode dizer, mas unicamente indicar. Sobre este aspecto a antiga sabedoria asiática, velha conhecedora de todos os recônditos da psicologia mais profunda, e que põe em prática métodos de introspecção experimentados durante séculos, poderá ser um guia seguro e expediente na descida sempre perigosa ao Abismo.

A nova situação política no Oriente
Desde há trinta anos que a aparência do Oriente se modificou profundamente: surgiram nações asiáticas, independentes das velhas civilizações adormecidas, e novos poderes econômicos impuseram-se no mundo. A Ásia está dominada por um triângulo de forças políticas: Índia, China e Japão. Por seu turno, o Oriente Próximo é o grande produtor de petróleo. Ao redor da Ásia, duas grandes potências mundiais, os Estados Unidos e a União Soviética, procuram possibilidades de intervir no imenso continente. É esta a base do problema, e a partir daqui podem se estudar seus componentes.

Índia
Este gigante, embora adormecido, está somente no limiar da sua evolução industrial; dois terços de sua população vivem ainda em 600.000 aldeias, com um nível de vida muito pobre. A transição do colonialismo britânico para a independência fez-se sem mudanças bruscas e a herança recebida no seu aspecto positivo foi: uma administração pesada, lenta, mas eficaz; uma língua comum; uma tradição militar de grande valor; universidades segundo o modelo anglo-saxônico, indústrias e técnica, tudo coroado por um sistema político democrático inspirado no socialismo britânico, romântico, dos princípios do século. Na Índia continua a haver grandes diferenças de fortuna e as classes sociais pobres não saúdam ainda de sua letargia para tentar reformar contrastes tão ostensivos. A política do governo é liberal, conciliadora, prudente, equilibrada, o que tem evitado os traumatismos que houve na China. Além disso, seu desejo de reformas sociais, de elevação do bem-estar das massas camponesas, faz parte do programa político do Partido do Congresso.
Desde 1949 que a Índia tenta integrar suas próprias tradições sem o conseguir. Este fato dá à sua política uma impressão de espera, de incerteza, de dúvida e aumenta perigosamente as tendências latentes de desunião interna. Possivelmente os perigos exteriores criaram o sentimento nacional moderno que lhes faltava. A guerra fronteiriça com a China, em 1962, e as duras batalhas com o Paquistão provocaram nos últimos anos reações nacionais de conservação e de união patriótica, embora subsista o perigo de uma queda da unidade central que traga como conseqüência uma política de força e continuidade. A Constituição da Índia é quase federal e o sistema parlamentar é composto por vários partidos políticos. As forças revolucionárias populares, hostis ao atual sistema, põem em causa a legitimidade das elites que têm dominado a Índia desde a independência. As coligações dividiram o Partido do Congresso, que já foi um bloco político monolítico e poderoso sob o mandato de Sri Pandit Jawaharlal Nehru (1899-1964) e que aparentemente só se mantém graças à mão de ferro de sua filha, Indira Gandhi, cuja política de tendência socializante obteve-a maioria nas eleições parlamentares de 1971.
Nehru sonhava com uma revolução pacifica realizada pela classe média, com espírito social e democrático. Atualmente, as tensões políticas são extremas, de caráter regionalista e revolucionário. É este o perigo interior, permanente, de nações tão grandes como a China e a Índia. Deve-se ainda acrescentar problemas de língua - a Índia do Norte, sânscrita, não compreende a Índia do Sul, dravídica -, de religiões, de classes e castas. Mas a complexidade destas questões é, talvez, a melhor salvaguarda da coesão da grande nação. Desde sua reeleição em 1971-1972, Indira Gandhi enfrentou sucessivos conflitos: guerra contra o Paquistão (com seus imensos movimentos de refugiados e o conseqüente empobrecimento do país), a inflação, a crise econômica mundial, as monções devastadoras e uma impressionante corrupção administrativa; como responsável por esta, após uma campanha contra si, Indira Gandhi foi deposta do seu cargo e acusada de corrupção, em 1977, juntamente com seu filho, Sanjay Gandhi. No entanto, estes contratempos, não impediram que no ano seguinte, 1978, fosse reeleita como primeira-ministra por uma ampla maioria de votos.

China
A China sempre teve um extraordinário poder de adaptação e de assimilação. Educou todos os seus conquistadores e os transformou em mandarins fiéis a Confúcio. Embora o comunismo de tipo soviético não se pudesse adaptar à China, o país criou seu próprio comunismo, sob a égide de Mao Tse- tung. Os modelos soviéticos administrativo, tecnológico e político, importados em 1950 na época da antiga fraternidade chino-soviética, dificilmente se poderiam adaptar às realidades internas da China e seu futuro é politicamente incerto depois do desaparecimento do grande líder. Existem tensões profundas entre a direção política de Pequim e as forças locais das províncias, embora este fenômeno tenha existido sempre. O problema consiste em saber controlar as iniciativas revolucionárias, num quadro nacional de disciplina e ordem. O "grande salto para frente" de 1957-1959 e a Revolução Cultural de 1960 fizeram ressurgir uma tendência para a instabilidade. As instituições civis e militares, nacionais e provinciais, chegaram a um estado de equilíbrio instável, que varia conforme as regires. Por outro lado parece ter sido concedida uma certa liberdade às forças locais para resolver seus problemas, o que ajuda a manter um equilíbrio geral estável e evita a centralização excessiva. Esta tendência para o regionalismo corresponde a mais pura tradição chinesa.
A densidade demográfica é menos forte que na Índia e está melhor controlada, embora não se deva esquecer que a população chinesa é igual a da América do Norte e do Sul juntamente com a África. A mão de ferro do governo permite um delicado equilíbrio demográfico. Milhares de jovens trabalhadores são enviados para as aldeias para melhorar a vida rural e aumentar o rendimento agrícola. É evidente que os obstáculos existentes na Índia - classes sociais, castas, preconceitos religiosos - desapareceram na China comunista. Enquanto que economicamente a Índia recebe uma ajuda importante em crédito e víveres por parte de outros países, a China viu-se na necessidade de se auto-abastecer desde a ruptura com a União Soviética em 1960. Nos últimos 25 anos a economia teve seus altos e baixos, mas a gestão do Partido controla os limites entre os quais deve oscilar o rendimento do trabalho, dos salários e dos bens privados. Gera-se atualmente uma leve tendência para a iniciativa individual e o problema está em saber como o socialismo maoísta poderá resistir as tendências democráticas e evitar o nascimento de novos manda rins locais. Mao Tse-tung utilizou a mobilização periódica das massas, as depurações e as reabilitações, o culto da sua personalidade e o do seu famoso Livro Vermelho, como formas de resistência as tendências burocráticas e evitar o surgimento de novos mandarins locais. Após a desaparição do líder parece já inevitável o avanço das posições burocráticas frente ao socialismo maoísta. A resistência à implantação da via "reformista" foi totalmente assimilada.
A China possui a bomba atômica, mísseis de médio alcance, uma importante aviação, armamento moderno e um grupo de técnicos industriais e científicos avançados. O preço que deve pagar por esta militarização e esta industrialização deve ser muito pesado para sua economia incipiente e instável, mas impõe respeito à sua volta. Os chefes de Estado e ministros acorrem a Pequim e os especialistas ocidentais seguem com atenção os jornais e os cartazes de informação nas grandes cidades chinesas.
É fácil prever que, a não ser por uma grande catástrofe interna, a China irá desempenhar um papel cada vez mais importante nas relações internacionais da zona asiática do Pacífico. Um retorno ao isolamento xenófobo é improvável, mas é difícil acreditar que este país se possa converter um dia numa grande potência internacional e isto devido à fragilidade da sua sociedade e as inevitáveis tensões que surgirão no seu seio. Por outro lado, a China não teve nunca ambições de hegemonia mundial e o famoso "perigo amarelo" foi uma impressão do espírito ocidental dos princípios do século.
A evolução dos acontecimentos de- pois da morte de Mao Tsé-tung não modificou em absoluto as relações China-União Soviética, apesar das previsões que encaravam a criação de um bloco frente a um inimigo comum: Japão ou Estados Unidos. Esta situação, não se verificou; antes pelo contrário, as posições endureceram. A China, em contrapartida, orienta-se em direção aos Estados Unidos e à Europa.
Quanto às relações com os Estados Unidos, tratam de receber a ajuda técnica necessária e manter o equilíbrio com o poder soviético durante o tempo que for necessário no jogo internacional. Os contactos com o Japão são muito mais distantes porque todo o Extremo Oriente recorda a brutal e agressiva expansão japonesa antes e durante a Segunda Guerra Mundial. As atuais exortações amistosas do "Grande Irmão" da Ásia não inspiram ainda nenhuma confiança.

Japão
Chegados como emigrantes da Ásia continental às ilhas do Sol Nascente, os Japoneses conservaram sempre um sentimento de insegurança exterior frente a seus poderosos vizinhos do Oeste e do Leste, que são agora grandes nações continentais. Sua pobreza de recursos naturais obriga-os a procurar fora as matérias-primas essenciais que lhes faltam, a industrializar-se, a multiplicar seu comércio exterior e suas exportações, tendo isto criado um espírito insular como na Grã-Bretanha, inquieto, inseguro do seu futuro, embora impregnado de uma tremenda xenofobia e de um nacionalismo exacerbado. Desde há cem anos, o Japão dedicou-se a construir, com paciência e pragmatismo, uma nação moderna, uma das mais poderosas do mundo no campo econômico. A partir de 1945, o crescimento tem sido ainda mais rápido, como conseqüência de uma série de circunstâncias favoráveis: ausência de projeto militar, perda de um império colonial importante, reformas democráticas e políticas por parte do ocupador americano, muitas oportunidades de competição para as empresas privadas nos mercados mundiais, elevada taxa de poupança, educação escolar e universitária de alto nível cientifico e técnico, numerosos avanços tecnológicos recebidos do Ocidente, importantes e vantajosos apoios internacionais, política estável e um meio social equilibrado e trabalhador. Disto tudo resultou uma produtividade, um bem-estar, um nível de vida equivalente ao europeu dentro do contexto tradicional tipicamente japonês.
A economia está nas mãos de uma oligarquia estreitamente vinculada à política; os homens de negócios japoneses são políticos perspicazes e não há tensões internas que se possam considerar entraves. O Japão nunca produziu um líder messiânico, como Mao Tsé- tung, nem um sonhador heróico, como Nehru.
No campo internacional o Japão, para evitar o domínio estratégico e cultural do Ocidente, difundiu a idéia de uma nação espiritualmente não contaminada, que conduzirá a Ásia a uma regeneração espiritual e estratégica contra um inimigo corrompido. A ameaça dirige-se especialmente à China que, por seu lado, detesta o imperialismo nipônico, com como sua pujança econômica, de tipo "capitalista". As relações com a União Soviética são limitadas; há uma escassa amizade política e ainda menos vontade de a melhorar.
A política externa japonesa fundamenta-se, basicamente, na sua estreita dependência das nações exportadoras de matérias-primas: o Japão não se pode dar ao luxo de ter inimigos externos e sua diplomacia é de amizade com todo o mundo, tanto com os Estados Unidos como com os países árabes, com a União Soviética e com a América do Sul. Estes fatores obrigam-no a manter uma política internacional aberta e prudente.

As Nações Muçulmanas
Já demos algumas indicações sobre as características do mundo islâmico. A guerra contra Israel, o problema da Palestina, a crise do petróleo, situaram as nações árabes no primeiro plano mundial. A guerra contra Israel demonstrou que as divisões entre as diversas nações muçulmanas eram profundas: Iêmen, Marrocos, Tunísia, Sudão e Irã estiveram à margem do conflito, bem como a Líbia e a Organização para Libertação da Palestina (OLP), que não foi reconhecida. Os cinco "grandes" do mundo islâmico, Iraque, Egito, Síria, Arábia Saudita e Argélia não estavam de acordo sobre o cessar-fogo nem sobre o caminho a seguir com a "guerra do petróleo". A Argélia e o Iraque não se preocuparam com o Egito nem com a Síria, que suportavam o peso sangrento da guerra e cujas políticas eram, no entanto, diferentes. Não podemos esquecer que os países muçulmanos de ideologia socialista têm um conceito político muito diferente do dos países monárquicos ou imperialistas; os evidentes esforços dos primeiros tendem a destruir as formas políticas dos segundos e a introduzir sua ideologia revolucionária. Alguns autores gostam de contrapor estas nações: ao Egito pacífico, um Iraque revolucionário; o Líbano liberal, contra a Síria fanática...outros preferem distinguir, como Edward Shils, um contraste de elites-massas no mundo islâmico, com várias categorias e frações, uma das quais é formada pelas novas classes médias que começam a enriquecer e, como conseqüência, a usar uma linguagem mais moderada. Seymour M. Lipset demonstrou a oposição entre o autoritarismo da classe operária, totalmente disposta a ditadura, e o liberalismo das classes médias. O rápido enriquecimento do mundo árabe através do petróleo modificaria as estruturas das sociedades tradicionais e contribuiria para o desaparecimento do sistema autoritário. As classes médias poderiam converter-se num perigo para os dirigentes, já que a facção militar que as representa é capaz de os derrubar. A queda do xá do Irã e o impulso aos valores tradicionais islâmicos naquele país põem em evidência que tais valores se encontram arraigados entre as massas muçulmanas. As classes médias, por seu lado, sentem-se mais atraídas pelo aspecto político e econômico dos novos problemas, que tentam adaptar a um modernismo islâmico. Isto produz um equilíbrio instável no conjunto das nações muçulmanas, sobretudo porque na maior parte delas subsiste ainda uma construção frágil herdada do período colonial e tem apenas êxitos muito limitados, sem relação com o potencial de sonho e frustração que o inconsciente coletivo atribui à nação árabe e ao Islão, como escreveram Rémy Leveau e Taki Rifai. Neste aspecto, a evolução do mundo islâmico é incerta.

Conclusões
Este rápido esboço político do Oriente demonstra que na realidade a China, a Índia e o Japão dominarão o futuro e que o Ocidente ficará para trás, incluindo os Estados Unidos, obrigados a fechar-se sobre si próprios, como conseqüência da diminuição de seu poder industrial e militar e dos muitos fatores internos de desgaste, assinalados pelos sociólogos. O eixo do poder político passará da Europa para a Ásia e estas conclusões coincidem, de uma maneira geral, com as dos especialistas de geopolítica mundial. A razão é evidente: a China e a Índia estão no limiar da sua revolução industrial, sua densidade demográfica determina que estes dois gigantes, embora adormecidos, estejam no caminho de desempenhar um papel decisivo no futuro da Ásia. O Japão constitui um exemplo. As três nações irão dominar, pouco a pouco, a política mundial, por sua posição estratégica, o peso de seus recursos e o potencial humano com que contam. Sem dúvida, apresentam contrastes radicais nos caminhos que escolheram. Mas será que essas divergências se manterão?
Culturalmente, estes países estão muito evoluídos, o que esperamos ter demonstrado neste estudo. O diálogo construtivo entre Ocidente e Oriente converteu-se numa necessidade urgente, indispensável, imperiosa. O Oriente faz parte do contexto das grandes potências, com sua ideologia, suas tradições, suas culturas. Mas não se trata de nações jovens, no sentido sociológico do termo, antes de antigas civilizações que se transformaram e adaptaram ao mundo moderno criado pelo Ocidente. Suas relações com o Ocidente serão naturalmente de caráter político e econômico; mas queremos insistir, uma vez mais, no fato de que os contactos culturais entre as elites do Oriente e do Ocidente não devem ser esquecidos se quisermos que esta abertura - possivelmente a última - resulte harmoniosa, fraternal e humana.
Os campos de entendimento e de aproximação são múltiplos. Todos os homens acreditam, à sua maneira, na verdade, na beleza e no sagrado. Há que procurar temas de intercâmbio, de compreensão na arte, na literatura, na filosofia, nas respectivas tradições. O material que facilitará esta aproximação já existe, só faz falta a boa-vontade.
Mas, se o próximo encontro entre o Ocidente e o Oriente assumir uma forma hostil e provocar o ódio, se ainda se quiserem impor, de qualquer forma, o domínio material, o poder e a glória, então é lógico prever-se uma catástrofe mundial, de conseqüências desastrosas. Seria inútil então procurar vencedores.

A presença do Oriente na sociedade ocidental atual
É notória a presença da Ásia na sociedade ocidental contemporânea. Mudou de forma e adquiriu um sentido de profundidade e de procura da verdade que não mantém nenhuma relação com as "curiosidades chinesas ou japonesas" românticas, próprias do passado.
No campo da literatura, já não interessa o exotismo do século XIX; passou a época de Ruyard Kipling, de Gustave FIaubert (Salammbô) e de A. de Vigny (Daphné). Agora conhece-se a Ásia por relatos de viagens, estudos de costumes em que o autor tenta fazer compreender, o mais exatamente possível, o que viu e entendeu do Oriente. A Ásia inspira agora testemunhos vivos, confissões de experiências pessoais, numa procura autêntica da verdade. O aspecto imaginativo da literatura sobre a Ásia está nas mãos dos novelistas orientais e as traduções européias dão-no a conhecer ao Ocidente. A Ásia já é tomada a sério.
As relações artísticas com a Europa modificaram também seu caráter. Desapareceu a inspiração oriental nos salões, nos pavilhões exóticos, o estilo grotesco, as cerâmicas e as lacas misturadas com papéis pintados nos salões chineses e japoneses dos palácios de Hampton Court, de Dresden, de Schõnbrunn, de Capo di Monte e de Aranjuez. A arte oriental já não inspira as escolas européias e agora são os artistas asiáticos que seguem os mestres europeus e copiam as tendências artísticas ocidentais. Por outro lado, está se produzindo na Ásia uma modificação profunda e as jovens gerações esquecem, transformam e põem em causa os tradicionais temas artísticos
Em compensação a música mais contemporânea ocidental foi muito influenciada pela Ásia, especialmente pela Índia. A "cerrada" música européia "abriu-se" perante a influência dos ragas hindus e modificou seu esquema musical. Claude Debussy (1862-1918) e a sua escola adotaram já esta abertura ao hindu, mas foram os músicos contemporâneos que se voltaram para a melodia e ritmo da música oriental, especialmente a hindu, cujas 72 escolas apresentam 72 modos, que proporcionam um milhar de ragas ou fórmulas melódicas. Os intérpretes dão livre curso à sua inspiração, no quadro do ritmo tipo, do raga imposto, o que proporciona uma polirritmia e uma polimelodia. Desconcertante para os ouvidos ocidentais. Esta utilização da liberdade rítmica encontra-se em muitos compositores contemporâneos. Entre outros devemos referir: Luigi Dallapiccola, italiano, cujos “Dois Coros” têm inspiração hinduísta; André Jolivet, francês, que em “Quator a cordes” e em “Concert” usa temas exóticos que se aproximam da música atonal e mesmo serial; Oliver Messiaen, também francês, e talvez a personalidade mais importante da música ocidental contemporânea, tentou uma síntese extraordinária da música ocidental, da música oriental e da música da natureza, particularmente com o canto dos pássaros. A sua primeira grande obra foi “Turangalila-symphonie” (1949), em que dominam a beleza melódica e a extraordinária variedade das estruturas rítmicas, obra modal e polimodal, inspirada na Índia. Na música dos “Cinq Rechants”, Messiaen utilizou ritmos hindus, provinciais, do século XIII. Estes ritmos podemos também encontrá-los em “Le Livre de l'Orgue” e na “Messe de la Pentecôte”, como ele próprio afirmou. A influência deste compositor aparece na escola britânica de inspiração serial, a escola de Manchester. Para terminar, devemos citar o compositor grego Yanis Xenakis, que confessou em diversas ocasiões ter utilizado estruturas musicais hindus, por exemplo, na sua obra “Metastasis”.
Mas o compositor oriental que teve uma influência mais direta e profunda na jovem música ocidental é, sem dúvida alguma, o hindu Ravi Shankar, cujos concertos de cítara hindu, na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, transformaram as técnicas instrumentais contemporâneas. A cítara penetrou nas orquestras ocidentais, graças aos Beatles (em Rubber Soul); um deles, George Harrison, foi à Índia aprender a técnica da cítara e inaugurar a música pop, ao misturar os ritmos hindus com os de origem eletrônica. Esta mistura converteu-se na música psicodélica dos hippies e Ravi Shankar, que dirige uma escola de música em Los Angeles, foi erguido a mestre da música hippye e destronou o rock and roll e os blues americanos. É necessário indicar que este compositor hindu não está de acordo com o uso da droga para escutar sua música, pois crê que ela, por si própria, deve permitir aos seus ouvintes "efetuar uma viagem", sem a ajuda de estimulantes.
Vamos tratar agora da presença do Oriente nos meios hippies, o fenômeno mais moderno da contracultura, em alguns meios jovens ocidentais. Uns os consideram apátridas, que vivem à margem da sociedade ocidental; outros, como James Pike -bispo da Califórnia - denomina-nos seres de qualidade, doces, tranqüilos, que fazem lembrar os primeiros cristãos; os pais consideram-nos sonhadores desadaptados e preguiçosos. Arnold Toynbee, que os estudou, descreve-os como um sinal de alarme para o modo de vida dos Estados Unidos. Na realidade, são uma mistura de tudo isto. Doces e pacíficos, pregam o altruísmo, a honestidade, a alegria, a não-violencia e o amor-livre; desprezam a sociedade ocidental, sentem-se exilados e querem libertar o indivíduo, pondo em primeiro lugar a recusa absoluta de integrar-se na sociedade e a utilização habitual de ,drogas alucinógenas (haxixe e ganja da Índia, o peyote mexicano, o LSD, a STP e DOM).
O Oriente exerce nos hippies uma atração extraordinária; todos querem ir à Índia e ao Nepal. Interessam-se pelas religiões orientais, especialmente pelo Zen; normalmente seu conhecimento é superficial, pois trata-se de simples curiosidade, ou de um sonho romântico. Buda, por exemplo, interessa-Ihes porque abandonou o rei, seu pai, e converteu-se num mendigo religioso, errante e livre. A alta metafísica budista não os preocupa muito, pois carecem do valor, da paciência e da preparação universitária necessários para a estudar. Na Índia, encontram modos de vida que lhes convém, e sentem-se atraídos pelas práticas do yoga, pela música hindu tal como acabamos de ver, pela liberdade espiritual de seus ascetas e monges, mas nunca aceitarão a castidade e a dura disciplina interior. O poeta Allen Ginsberg e o filósofo Allan Watts, inspirados pelo pensamento oriental, são geralmente seus mestres. De fato, o atrativo exterior e o exotismo pitoresco (adornos de origem budista, talismãs hindus, colares, etc.) dominam seus passos e dirigem suas vidas.
A pequena capital do Nepal, Katmandu, foi durante bastante tempo a capital hippy na Ásia; nela vive-se uma atmosfera hindu e as lojas vendem livremente o ganja, o cânhamo da Índia. A prática da sua pseudofilosofia do amor e o consumo da droga são fáceis. Várias centenas de hippies americanos e europeus vivem ali, mendigam e fumam num estado de miséria e promiscuidade indescritíveis. Os consulados europeus tiveram que repatriar alguns e, recentemente, as polícias do Nepal e da Índia tomaram uma série de medidas para reduzirem seu número.
A Ásia oferece, pois, aos hippies, doutrinas que pregam as velhas idéias com palavras novas e uma singular atmosfera de liberdade antiocidental; esta é a razão do seu êxito. Os hippies carecem de princípios religiosos propriamente ditos, mas querem obter a paz espiritual que o Ocidente lhes nega. Evidentemente ignoram, como indicou Jung, que esta paz é fruto de uma dura ascese, que os estados alucinatórios provocados pelas drogas são apenas etapas inferiores, e que os transtornos não passam do mundo psíquico e não têm nenhuma relação com os caminhos místicos, propriamente ditos. Os hippies, contudo não compreenderam à lição e a sua decepção, algumas vezes amarga, outras trágica, demonstra que o caminho da facilidade não tem saída.
O Oriente está exercendo uma poderosa atração sobre a angústia libertadora dos ocidentais. Muitos livros se têm ocupado desta questão e vários autores dignos de crédito expuseram suas experiências pessoais e as soluções que encontraram na Ásia. Existe toda uma literatura internacional sobre esta nova forma de espiritualidade de origem asiática: retiros para meditar nos mosteiros budistas da Birmânia, estâncias ao lado dos mestres do Tibete, para recolher os ensinamentos dos Rimpoche, os chefes das comunidades e escolas de técnicas do yoga; o estudo prático do Zen com os mestres japoneses; visitas aos grandes ashram hindus, com os célebres yoguis; procura apaixonada e solitária, na Ásia, de mestres, de gurus espirituais. Por último, cabe citar aqueles que a Ásia instruiu na sua atmosfera e que não escrevem, mas que vivem uma vida interior intensa, estudam e praticam, em solidão, a sabedoria tradicionalmente transmitida pelas velhas terras do Oriente e continuam incansavelmente a remota procura do problema fundamental da vida e da morte.