Introdução Histórica

por Jean Riviere. (1979), Editora Salvat, Rio de Janeiro

Introdução
O encontro entre povos do Oriente e do Ocidente é um fato muito importante na história da Humanidade: deu origem aos episódios mais dramáticos, mais agitados e de mais graves conseqüências. Esta situação ainda hoje aparece carregada de ameaças, de desafios e de desconfianças.
Para o homem ocidental, o Oriente é uma palavra que evoca as mais diversas e contraditórias imagens; provoca nele sentimentos de uma curiosidade freqüentemente pueril, de sonhos românticos que não correspondem à realidade, ou então imagens de miséria social, de repulsa, de piedade e de um temor irracional. Os juízos sobre a Ásia são geralmente elementares, parciais e definitivos; há, em resumo, uma curiosidade simpática ou uma incompreensão desconfiada, segundo o estado de espírito de cada um. Na realidade, o Ocidente ignora o Oriente e por isso o historiador francês René Grousset (1885-1952) pôde escrever que "A revelação do pensamento indiano e do pensamento chinês equivale, para nós, à descoberta de diferentes seres humanos, de diferentes habitantes de outros planetas".
O homem oriental, por outro lado, julga de um modo severo, e às vezes cego, o homem ocidental; considera-o um adversário temível e poderoso contra o qual qualquer arma é boa. O asiático sente um ódio vivo e tenaz como o demonstram os recentes acontecimentos políticos e econômicos: por exemplo, a crise do petróleo.
Os contactos pessoais são geralmente corteses, já que a reserva e o domínio de si próprio nos meios aristocráticos orientais, a hachouma* muçulmana, a dignidade distante e educada do asiático contribuem para "salvar a cara", para empregar uma expressão chinesa. No entanto, esta aparência de um modo geral oculta complexos de superioridade e de inferioridade. De fato, tanto os ocidentais como os orientais aprenderam muito pouco uns com os outros durante os dois últimos séculos. Acumularam-se mal-entendidos, erros de valor e de juízo. Talvez que o historiador britânico Arnold J. Toynbee tenha razão ao dizer que o Oriente no século XVI repudiou a civilização ocidental, apresentada então como uma religião estranha e que, em contrapartida, a aceitou no século XIX, sob a forma de uma técnica nova, forçada pelos acontecimentos. Não deixa de ser certo, escreve o Prof. W. H. C. Dobson, da Universidade de Toronto (Canadá), que a Ásia manifesta uma incompreensão obstinada perante o mundo ocidental, enquanto que o Ocidente permanece numa ignorância culpável em relação às pessoas e às coisas orientais.
Este mal-entendido deu origem a um universal sentimento de insegurança e o Ocidente deverá escolher: reconciliação compreensiva ou futuro conflito planetário.
Qual é a situação atual? Que se deve entender exatamente por Oriente e o que representa? Existem possibilidades de aproximação e que dificuldades apresentam? Quais são as razões do atual interesse que impulsiona o Ocidente para o Oriente? A tais questões tentaremos responder nesta obra.

A Antiguidade
Historicamente, a Índia foi conhecida em -517 através dos relatos de viagem do grego Skylax a quem Dario I da Pérsia (morto em -486) encarregou de explorar o curso do rio Indo, grande via fluvial que forma a fronteira natural, a oeste da Índia. Os testemunhos sobre a existência da Ásia encontram-se nos relatos dos historiadores que acompanharam a expedição de Alexandre Magno (-356 a -323), do embaixador grego Megástenes e dos comerciantes que navegaram pelo oceano Indico.
Quando Roma nasceu existia já um Intenso tráfego entre a Índia e o Egito e esse intercâmbio aumentou com o desenvolvimento do Império Romano. Nessa época, o Ocidente importava muIto mais do que exportava, como o demonstram os achados de moedas romanas na Índia. Este movimento comercial implicou sempre algum intercâmbio cultural. Sublinharam-se e discutiram-se as possibilidades de influências indianas em certas doutrinas gnósticas, em particular no filosofo egípcio Basilides (século II), em Plotino (205-270) e em Orígenes (183 ou 186- 252 ou 254). A sabedoria da Índia era conhecida e apreciada na Grécia e em Roma e é inegável sua influência na escola de Alexandria.
O Extremo Oriente, e a China em particular, foi conhecido pelo Ocidente muito mais tarde. As mercadorias chinesas como a seda, o jade, o papel, a cerâmica e as técnicas têxteis, chegaram ao Ocidente através da chamada "estrada da seda", longo caminho de caravanas que atravessava a Ásia de Leste a Oeste, com numerosas ramificações.

A Idade Média
O Oriente fez a sua aparição militar no Ocidente no século IV. Enquanto Roma se defendia mal contra a Pérsia, o Norte da Europa sofria os ataques dos Hunos, originários da atual Mongólia, e dos Alanos, arianos brancos de língua persa. O Ocidente estremeceu, mas recebeu destes bárbaros uma rudimentar civilização, vestuários, uma melhor técnica de montar, o cavalo de tiro e as camisas de linho, já que os romanos e o Ocidente em geral ignoravam a roupa interior. A seguir, os búlgaros, bávaros e húngaros, cavaleiros ligeiros armados com um temível arco, efetuaram pilhagens na Europa e, às vezes, em caso de necessidade, eram contratados como mercenários. Múltiplas expedições de pilhagem deram a conhecer o rosto temível de uma Ásia que acentuou a agressão com os mongóis de Gengis Khan (1160-1227), que só se detiveram às portas de Viena (1241).
Posteriormente, outra invasão proveniente do Oriente teve lugar, ainda mais ameaçadora porque o Ocidente estava menos organizado: a ofensiva islâmica. O Ocidente reagiu de uma dupla forma: resistindo e assimilando. Se o sarraceno foi inimigo, também é certo que se converteu num modelo de civilização que instruiu e educou o europeu bárbaro. Ensinou-lhe o fabrico de tapetes, de brocados, tecelagem, da seda; os cavaleiros ocidentais cobriram-se com armaduras e cotas de malha de estilo sarraceno e utilizaram as espadas árabes de Damasco e de Toledo. A saia árabe, a tiara persa, os perfumes, a gaze, a mousseline, o pano de Trípoli, o cetim, o tafetá e o damasco, pelo seu exotismo, cativaram as mulheres européias. Os camponeses aprenderam os métodos de rega e as delicadas técnicas da cultura agrícola asiática.
Constantinopla serviu de elo de ligação entre o Oriente e o Ocidente, durante mil anos; os mercadores judeus, levantinos e sírios levaram aos grandes proprietários, aos bispos, aos reis e aos príncipes da Europa, jóias, tecidos, especiarias e relíquias, mais ou menos autênticas, de santos mártires. A Europa exportou escravos germanos, com cujo tráfico se enriqueceram as cidades de Verdun, Mogúncia, Gênova e, principalmente, Praga que se converteu no principal mercado, freqüentado pelos mercadores turcos e árabes.
Até meados do século XIII, a ameaça permanente dos "demônios tártaros" foi a grande preocupação da cristandade. A Santa Sé e as cortes européias começaram a reagir: enviaram missionários e viajantes para conhecer melhor esse Oriente misterioso e ameaçador. O mais célebre foi Marco Polo (1254-1324), chamado "Messer Milione", que escreveu o famoso “Viagem ao redor do mundo”, relato da sua viagem ao Extremo Oriente, e desvendou ao estupefato Ocidente um mundo insuspeitado de enormes riquezas. O desejo de delas se apoderar surgiu na Europa mas, por estarem cortadas as estradas tradicionais pelos muçulmanos, que disso obtinham enorme proveito, o Ocidente teve que procurar outros caminhos, já que não queria enfrentar os turcos e os outros povos islâmicos, recordando os tempos das primeiras cruzadas, cujos resultados foram bastante desastrosos. Foi então que os Portugueses empreenderam as viagens que os conduziam às Índias Orientais e que Cristovão Colombo (1451 - 1506), inspirando-se em Marco Polo e noutras fontes, ao procurar o caminho para novas terras, que chamou de Índias Ocidentais. Os viajantes e missionários continuaram até o século XVII, ativamente, o trabalho de reconhecimento da Ásia. Pode-se afirmar que a Ásia estava no apogeu de seu esplendor e poderio.