A ciência oriental, a descoberta do Oriente

por Jean Riviere. (1979), Editora Salvat, Rio de Janeiro

A Ciência Oriental
A hegemonia do Oriente explica-se pela existência, na Ásia, de uma cultura científica e técnica, equivalente à do Ocidente. Já se assinalaram as contribuições, para o Ocidente, das técnicas chinesa, indiana e muçulmana; por isso se analisarão, agora, alguns dos aspectos desta "ciência" oriental.

Índia
A Índia tentou, desde tempos remotos, representar racionalmente os fenômenos da vida, interpretando-os de acordo com a periodicidade dos fenômenos astronômicos. Assim, as primeiras ciências foram a astronomia, a medicina e a psicologia. A astronomia hindu tentou estabelecer datas exatas para a celebração dos ritos e a sua compreensão do cosmos foi original, muito diferente da dos gregos ou mesopotâmios: os princípios da observação e classificação dos fenômenos celestes eram diferentes. A Lua serviu-Ihes, basicamente, como ponto de referência, enquanto que os babilônios e os gregos utilizavam as posições do Sol. A Índia descobriu a trignometria e o astrônomo árabe al-Battani indica que a introdução do seno trigonométrico nos cálculos matemáticos é de origem indiana. Relacionaram os fenômenos vitais do corpo humano com os astronômicos e estabeleceram uma biologia. A Índia possui, por outro lado, uma antiga medicina empírica baseada em remédios e terapêuticas, o ayurveda. Na matemática, deve-se assinalar a invenção do zero, "vazio", shunya", o sistema decimal e o emprego do ábaco. No campo da metalurgia, a Índia conheceu uma técnica avançada no fabrico de pilares de ferro quase puro (um pilar que se conserva na cidade de Nova Déli data do século IV e pesa várias-toneladas).

China
Neste país foi notável o desenvolvimento das ciências. As inscrições gravadas sobre osso, do século -XIII, demonstram um conhecimento astronômico avançado. Os astrônomos chineses elaboraram um sistema polar e equatorial diferente do dos gregos, para prever o movimento dos astros, com a finalidade de estabelecer o calendário de festas e de trabalhos agrícolas e prever os eclipses e os cometas. Muito cedo, na China, entraram em funcionamento observatórios equipados com instrumentos complicados e precisos. Os primeiros tratados de matemática datam da era cristã e permitiram aos engenheiros, construtores e funcionários, resolver seus problemas geométricos; o teorema de Pitágoras era conhecido e demonstrado, assim como o cálculo do valor da constante matemática pi (p=3,14159...) com sete decimais. A álgebra desenvolveu -se extraordinariamente em antecipação a Pascal (1623- 1662) e a Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-1716); os problemas com numerosas incógnitas foram resolvidos algebricamente, muitos séculos antes de o serem na Europa e, segundo parece, também com prioridade sobre a Índia. A medicina chinesa foi um sistema coerente; os conhecimentos médicos eram muito ricos e a terapêutica conhecia a acupuntura, que hoje a Europa descobre, a hidroterapia, cinesterapia. A tecnologia chinesa foi, desde o século V, uma das primeiras do mundo; deve-se mencionar a invenção da imprensa, do papel, da pólvora, da bússola, a descoberta da seda, da porcelana, etc. Que origem tem, assim, a diferença que, a partir do século XVI, se verificou entre a não evolução das ciências orientais e a rápida evolução das técnicas científicas ocidentais?

Divergências científicas entre o Oriente e o Ocidente
A ruptura intelectual data de Renê Descartes (1596-1650) e de Galileu Galilei (1564-1642). O Renascimento e a Reforma protestante deram uma orientação absolutamente divergente aos pensamentos oriental e ocidental. Na Europa, como escreve Pierre Huard, "a era prometeica sucedeu à era gótica". A atitude contemplativa e religiosa da cristandade medieval modificou-se e produziu uma procura ávida e insaciável dos segredos e das forças da Natureza. O "Reino de Deus" devia materializar-se na erra; a concepção universal e simbólica do Cosmos transformou-se no estudo das leis físico-químicas precisas e concretas, o que permitiu utilizar, de uma maneira prática e racional, as forças naturais latentes na matéria. Apareceu unIa nova forma de economia capitalista de produção mercantil; tudo se reduz a números, produção, fábrica, rendimento; o aparecimento do proletariado foi uma das primeiras conseqüências sociais, acompanhada de uma massificação e de uma nova escravidão do homem pelo homem. A economia antiga tinha pelo menos uma escala humana; agora serve o esplendor de interesses ilimitados, multiplicando-se em progressão geométrica. As forças naturais foram dominadas pelo poder humano do novo Leviatan e o canto ao "progresso" indefinido soou triunfalmente, no Ocidente maravilhado com o que acabava de desencadear. Fernand Grenard resume esta idéia na sua obra, cujo título é já um canto de vitória, “Grandeur et Décadence de l'Asie” (Grandeza e decadência da Ásia): "Na base de tudo conhecia-se a vontade de atuar, de empreender, de submeter - para as utilizar- as forças naturais e as forças humanas. Uma curiosidade ardente e heróica, uma avidez de saber e de compreender, com o objetivo de uma conquista material, a procura de resultados práticos, de eficazes processos de trabalho e de produção, levaram a Europa por um caminho de progresso constante, que se renova a si próprio, progresso esse de que o asiático, de modo algum, sente a necessidade."
O Oriente não conheceu nem o Renascimento, nem uma revolução científica e técnica; preservou a sua escolástica e as suas tradições continuaram a impor-se, em todos os domínios, sem a curiosidade febril do Ocidente. O princípio fundamental da Ásia era viver de acordo com a Natureza; a teoria prevalecia sobre a prática e era vão e perigoso alterar o curso natural das coisas. O homem devia adaptar-se à ordem imutável do Cosmos, aceitar as leis da vida e da morte, resignar-se às influências soberanas dos poderes invisíveis que comandam o mundo. A ciência foi escrava da teologia. A Ásia nunca pretendeu ter sábios ou filósofos letrados nem clérigos. A inteligência servia para um fim diferente do de conhecer. Reverenciava-se sempre o "Absoluto"; toda a sua ciência e toda a sua técnica se encaminham para uma aproximação psicossomática experimental ao mistério do Eu. No entanto qualquer filosofia foi e é uma tentativa de libertação espiritual.
Durante milhares de anos os Orientais contentaram-se com esta sabedoria da vida, com que acompanhavam a mediocridade equilibrada da miséria e a aceitação resignada do sofrimento, inerente à condição humana. O Ocidente conseguiu criar uma nova ciência da vida e da matéria e tentou libertar os homens do jugo da sua condição natural e da idéia da queda original. A Europa opôs, às sociedades orientais imóveis, novas economias industriais que criaram novas necessidades, insaciáveis, mas indispensáveis para que a produção não parasse. Tudo isto gerou oposições brutais e desapiedadas, para conquistar e conservar os mercados, acompanhadas por uma concorrência desumana, em que a luta pela vida é a lei suprema. As duas guerras mundiais foram sua conseqüência. O único problema que atualmente se coloca é saber quem errou o caminho.

Ofensiva do Ocidente contra o Oriente
A Europa, enriquecida com as novas técnicas, que lhe permitiram o domínio do mar e o poderio incontestável das armas, dirigiu suas ambições, a partir do século XVI, para as fabulosas riquezas orientais, de que muito tinha ouvido falar. Surgiram vocações de conquista; primeiro, foram os portugueses, que quiseram arrebatar de Veneza a supremacia do mar e seu comércio, destruir o poder da marinha árabe e converter as almas pagãs, numa singular aliança entre a religião, o comércio e a pirataria, que faz lembrar os processos dos antigos fenícios: num lugar isolado fundava-se um armazém para as mercadorias, um fortim, um arsenal com uma guarnição mista de europeus e indígenas. Tirando partido das rivalidades dos príncipes locais, os portugueses estabeleceram, no Oriente, importantes centros comerciais e militares como o de Goa (1510), na Índia. A Espanha apoderou-se das Ilhas Filipinas (1565), graças à Viagem de Fernão de Magalhães (1480-1521). O Oriente viu, em seguida, chegar a Holanda e a Inglaterra, que se apoderaram de parte das colônias asiáticas de Portugal. Durante esta época, os russos conquistaram à China a Sibéria e de antigos territórios mongóis, fato que a China ainda não esqueceu.
O Ocidente consolidou imediatamente os frutos dos seus esforços na Ásia, que Pierre Renovin chama "os resultados da política de expansão materialista". Os lucros da Companhia Holandesa foram enormes; a Ordem de Malta enriqueceu-se com a venda de escravos turcos que foram excelentes remadores e a Inglaterra penetrou na Índia, que seria a melhor e a mais rica jóia da Coroa Britânica, na Ásia. Foi uma penetração política e econômica profunda, total e sistemática do continente asiático; as forças navais e militares deram o triunfo ao Ocidente. O Império indiano de Babur (1483-1530) e do seu sucessor Akhar (1542-1005) caiu, como um fruto maduro, nas mãos da Companhia Inglesa das Índias. A Companhia Holandesa das Índias apoderou-se de Java (1749) e de todo o Sudoeste asiático e a França dominou a Indochina. A China atreveu-se a recusar, durante um certo período, as caixas de ópio que envenenavam sua população e que lhes eram impostas pelos mercadores britânicos: no entanto, a chamada "Guerra do Ópio" (1839-1842) depressa a fez "ter juízo". A revolta T'ai Ping (1850-1865) e depois aa guerra dos boxers (1900), com a célebre pilhagem do palácio imperial de Pequim, efetuada pelas tropas européias, abriram completamente a China aos apetites insaciáveis do Ocidente, que a converteu, de fato, numa colônia impiedosamente explorada. Os quadros tradicionais religiosos e políticos das nações asiáticas subjugadas não se alteraram aparentemente; no entanto, o Ocidente tinha-se colocado no seu interior, dominava seus centros nervosos, explorava suas riquezas, utilizava a população como mão de obra abundante e também como mercado. Ninguém então contestou a situação, considerada como um direito natural e divino.

O Ocidente descobre as culturas orientais
A penetração política e econômica na Ásia revelou aos ocidentais a realidade de civilizações de cuja existência não suspeitavam. A visão histórica do mundo ocidental que se tinha cingido à concha mediterrânica, considerada até então como o único centro cultural e religioso da Humanidade, modificou-se bruscamente. Descobriu-se que a China que dominavam tinha um passado milenário; conhecera culturas gloriosas no domínio da arte, da literatura, do gênio político, da filosofia, numa época em que a Europa bárbara era assolada pelas tropas visigodas, francas e borgundas; verificaram que a Índia utilizava, nos seus sacrifícios religiosos, textos e ritos que remontavam à época de Rômulo e Remo.
Esta redescoberta do Oriente foi, para o Ocidente, fecunda e útil. Começou no século XIX uma vaga curiosidade romântica, que invadiu o mundo literário e artístico europeu. Foram descobertas as línguas asiáticas clássicas: o sânscrito, em 1785; o pahlevi, em 1793; a escrita cuneiforme, em 1803; os hieróglifos egípcios, em 1822; e o zendo, em 1832. Traduziram-se os grandes trechos orientais; as revistas literárias refletiam o gosto da época e a moda servia o exotismo e a evasão. Os poetas e os místicos persas, os textos filosóficos, épicos e teatrais hindus e os clássicos chineses eram divulgados e comentados, com entusiasmo juvenil. O budismo estava na ordem do dia, admirado sob uma falsa perspectiva; o anti-clericalismo semeou a confusão e fizeram-se comparações que, de fato, não correspondiam a uma base real; os apologistas cristãos bradaram aos céus perante esta nova linha religiosa e discutiram intensamente as possíveis influências do budismo no cristianismo.
As Universidades ocuparam-se do Oriente; a lingüística e a filosofia deixaram de ser uma questão religiosa, segundo nota Raimond Schwab, e o orientalismo estabeleceu-se como uma ciência autônoma; o alemão Bopp (1791-1867) elaborou uma gramática comparada, a partir do sânscrito; começou a época cientifica de estudo das culturas asiáticas, que revolucionou os conceitos restritos do Ocidente mediterrânico. Teve repercussões na literatura, nos sistemas filosóficos e na arte; o Romantismo alemão nutriu-se, avidamente, de orientalismo: os humanistas de Weimar e de Jena, Johann G. Herder (1744-1803), Friedrich W. Schelling (1775-1854), Friedrich Novalis (1772-1801), J. P. Richter (1763- 1825) e o chamado "Grupo de Heidelberg" [J. Wolfgang Goethe (1749-1832), no prólogo do Fausto, reproduz a encenação de Sakuntala de Kalidasa] tiveram os seus sonhos orientais; Ralph Waldo Emerson (1803-1882), Thomas Carlyle (1795-1881), e Edward Carpenter (1844-1929) nos países de língua anglo-saxônica, e Vitor Hugo (1802-1885), Alfred de Vigny (1797-1863), Jules Michelet (1798-1874), Théophile Gautier (1811-1872), Gérard de Nerval (1808-1855) e Gustave Flaubert (1821-1880), na França, sentiram-se comovidos e atraídos pela Índia. O músico alemão Richard Wagner (1813-1883) teve entre seus projetos um poema dramático, baseado na vida de Buda, que no entanto não chegou a realizar, e Parsifal reflete uma subjacente inspiração budista, como o demonstra R. Schwab.
O conhecimento do Oriente, depois da exaltação romântica, aprofundou-se e chegou ao ponto de transformar, em parte, a vida cultural ocidental; a nova confrontação das técnicas espirituais e a comparação religiosa, provocaram as controvérsias mais apaixonadas. Pode se dizer que o orientalismo conheceu, e ainda conhece, três correntes principais. A primeira é a erudição universitária, o orientalismo dos sábios especialistas, cada um dedicado a um aspecto concreto deste mundo cultural asiático, vasto, multiforme, imenso, cujos trabalhos são, cada dia, fontes mais indispensáveis de informação. A segunda corrente é a dos apologistas cristãos, que querem defender a fé dos seus fiéis das tentações da mística e das religiões orientais; há que reconhecer que, depois do Concílio Vaticano II, reina entre eles uma certa confusão, porque sentem a necessidade de uma abertura, ao mesmo tempo espiritual e intelectual, e os velhos imperativos dogmáticos ditam-Ihes anátemas de exclusão que não se atrevem a manifestar a um Ocidente que apostou e esqueceu os seus valores tradicionais. A terceira corrente é a dos românticos impenitentes, dos pseudomísticos atraídos pelo Oriente, dos fanáticos contrariados que realizam, como sutilmente destaca R. Schwab, "experiências para enxertar produtos estrangeiros no campo local".