Problemas de Terminologia

por Filmer S. C. Northrop em Moore, C. (org.) Filosofia: Oriente, Ocidente. (1978), Edusp-Cultrix, São Paulo.


Para determinar-se a relação entre coisas diversas é necessário expressar cada uma em termos de um denominador comum. Ninguém tentaria relacionar três quintos com quatro sétimos em Matemática sem antes reduzir estas duas frações a trinta e cinco avos. Isto se aplica também a teorias filosóficas diferentes, e especialmente a sistemas que contrastam tão vivamente como os do Oriente e do Ocidente. Antes de haver uma análise comparativa fidedigna entre as doutrinas filosóficas orientais e ocidentais deve haver uma terminologia comensurável e sem ambigüidade para exprimi-las. Certas relações muito interessantes e importantes aparecerão quando se dispuser de tal terminologia.

A Necessidade de uma terminologia técnica
Esse denominador comum para a compreensão internacional não é proporcionada pela tradução proficiente, feita por poliglotas, dos textos em sânscrito, chinês ou japonês para a língua inglesa. Tradução necessária, mas não suficiente. Ninguém haveria de supor que a mais competente tradução da monografia original de Einstein sobre a Teoria Especial da Relatividade do alemão para o inglês nos daria uma base suficiente para comparar a teoria da relatividade com a mecânica de Newton. Também seria necessário um conhecimento de Física. Da mesma forma, o estudioso de filosofia comparada, para merecer confiança, deve ser mais do que um simples poliglota ou possuir mais do que traduções fiéis feitas por poliglotas; deve, além disso, ter um domínio profissional dos problemas, métodos e teorias da Filosofia.
Há ainda outras dificuldades resultantes da natureza (a) do simbolismo e (b) do assunto da Filosofia.
À primeira vista, o simbolismo da Filosofia parece fácil de compreender, pois usam-se palavras do discurso comum. Contudo, um pouco de leitura dos tratados filosóficos logo revela que essas palavras não são usadas com os seus sentidos comuns. A palavras comuns se dão significados técnicos e, o que é ainda mais complicado, o sentido técnico/filosófico que um termo de sentido comum tem num sistema filosófico geralmente difere do que ele tem em outro sistema.
A razão desta perturbadora situação pode ser entendida se se considerarem as duas alternativas abertas a quem deseje apresentar um significado técnico preciso para o qual a língua convencional seja ambígua demais. Pode-se escolher um termo sem dado qualquer significado anterior e atribuir-lhe o sentido técnico, a ele que, de outro modo, seria destituído de significado. Em resumo, pode-se recorrer a uma nova terminologia técnica. Ou pode-se escolher alguma palavra bem conhecida, com o sentido comum que seja o mais próximo do sentido técnico preciso que se deseja transmitir, e então acrescentar-lhe uma definição restritiva ou recorrer aos diversos contextos em que a palavra é usada para dirigir a atenção do leitor, subseqüentemente, para o exato significado pretendido. De um modo geral, a Ciência adota a primeira alternativa e a Filosofia a última.
Cada escolha tem suas vantagens e limitações. Uma termi­nologia técnica reduz ao mínimo a possibilidade de ambigüidade, mas automaticamente restringe a compreensão da língua ao perito com treinamento técnico - profissional no assunto. A Filosofia, em parte devido à pertinência dos seus problemas para o leigo — assim como para o especialista —, escolhe a linguagem comum, alcançando dessa forma um público mais vasto, mas ao mesmo tempo tem que depender de contextos mais extensos para transmitir seu significado técnico. É esta uma das razões por que os tratados filosóficos tendem a ser mais extensas do que os científicos. Uma linguagem cujos sentidos são transmitidos apenas pelo contexto não pode ser tersa.
Agora se tornam evidentes as dificuldades que tal simbo­lismo contextual apresenta para a Filosofia comparada.
Não se podem comparar tratados inteiros. Se a pesquisa pretende ir além das generalidades comuns e mais banais, pre­cisa-se descer aos capítulos, parágrafos e períodos. Precisa-se escolher doutrinas especificas e designá-las com palavras especificas. Mas fazer isso é retirar as frases e palavras dos seus contextos, com o que elas perdem seu importante sentido técnico e filosófico.
Torna-se também evidente a completa insuficiência da versão, por tradutor profissional, de sistemas filosóficos diversos para uma língua comum, pois a única coisa que tais versões podem fazer é dar as equivalências de dicionário dos termos um a um, e tais equivalências representam apenas os significados comuns, não os técnico- filosóficos. E tampouco estará superada a dificuldade se o tradutor profissional for também filósofo profissional. Como observamos, a mesma palavra de sentido comum no contexto de uma teoria filosófica tem um sentido técnico e, no contexto de uma teoria filosófica diferente, significado diferente. É o que se dá principalmente, como mais adiante veremos, se uma das teorias for do Oriente e a outra do Ocidente.
A questão é que os termos da linguagem comum são perfeitamente adequados, quando desenvolvidos minuciosa e sis­tematicamente em vários contextos, para transmitir a doutrina técnica de um só filósofo ou teoria filosófica, mas são completamente inadequados para servir de denominador comum em que se possam traduzir sistemas filosóficos diversos para fins de comparação. É o que se dá com vários sistemas ocidentais e orientais. Quando a Filosofia se torna comparada, o caráter do seu simbolismo impede a introdução de uma terminologia técnica.
A matéria de que trata a Filosofia obriga A mesma conclusão. O objetivo total da pesquisa humana abarca toda a gama da experiência, que é complexa e extensa demais para qualquer disciplina investigar e compreender sozinha. A tarefa tem de ser dividida em suas diversas partes e entregue a diferentes especialistas. De modo geral, as ciências especiais tratam de fatores locais restritos da experiência, tais como os organismos vivos ou os corpos celestes, ao passo que a Filosofia se ocupa dos fatores igualmente evidentes e extensas da experiência comuns a estes detalhes mais locais.
Devido à sua matéria localizada, qualquer ciência especial atinge um estado concreto preciso e determinado e intensa precisão com relação aos pormenores, mas apenas à custa de numerosos fatores igualmente importantes que não são levados em conta, com o risco resultante da perda do senso de proporção. A Filosofia, por outro lado, por ter a sua atenção voltada para os aspectos da experiência mais gerais e extensos, porem não obstante menos factuais, é capaz de manter em seus verdadeiros lugares os pormenores técnicos, preservando dessa forma um senso de proporção, mas apenas se incluir os dados das ciências especiais e do senso comum em sua própria doutrina final extensa e sistemática.
Mas fazer isso é colocar os fatos do senso comum e da ciência técnica em contexto mais amplo. A diferença entre uma teoria filosófica e outra é que tal contexto é definido de formas diferentes. Por conseguinte, o que há de filosoficamente importante com qualquer termo de senso comum, pela forma como ele entra em qualquer teoria filosófica, não é o seu puro significado de dicionário, mas o significado contextual singular, comumente associado ao sistema filosófico em questão. Os materialistas, idealistas, dualistas e monistas neutros filosóficos admitem, todos eles, a existência do que o senso comum designa com o vocábulo “mente”, e no entanto há enorme diferença na maneira como eles analisam e concebem esse princípio.
Conseqüentemente, aprender do tradutor profissional que o equivalente inglês literal de uma certa palavra chinesa ou sanscrítica e “mente” não diz muita coisa significativa para a Filosofia comparada. Tal tradução nos fornece as associações denotativas do símbolo de sentido comum, mas não seu significado conotativo técnico - filosófico e contextual. O que se apre­ende diretamente é, grosso modo, a mesma coisa em qualquer sistema filosófico, mas como ele é analisado e correlacionado com outros fatores, sejam imediatamente dados sejam postula­dos, é diferente; são estas diferenças, precisamente, que nos interessam na Filosofia comparada. Por conseguinte, reduzir as diversas doutrinas da Filosofia oriental e ocidental ao denominador supostamente comum da linguagem de sentido comum é ver-se com pouco mais que os significados denotativos ou de dicionário, e perder os diversos sentidos contextuais técnicos, próprios de cada sistema, que são os fatores importantes em qualquer pesquisa filosófica.
Freqüentemente se diz que a Filosofia oriental é mais “religiosa” ou mais “idealista” do que a ocidental. Tais afirmações, como veremos, são muito enganosas e as mais das vezes sem valor, já que pressupõem que as palavras “religioso” e “ideal” têm a mesma análise filosófica e os mesmos significados técnicos no Oriente e no Ocidente. Veremos, por exemplo, que a religião budista é atéia e céptica com relação justamente às características que o Ocidente considera essenciais para a crença na religião. Da mesma maneira, em Ética, muitas doutrinas, como a ênfase no indivíduo, que o Ocidente tende a considerar “boas”, o Oriente tende a tratar como “más”. Inversamente, no caso de fatores imediatamente apreendidos, diferentes sistemas filosóficos no Oriente e no Ocidente usam amiúde diferentes vocábulos de sentido comum para denotar a mesma coisa. Assim, a mesma palavra em sistemas filosóficos diferentes designa muitas vezes significados técnico - filosóficos inteiramente diferentes, e até opostos, e vários vocábulos de sentido comum em sistemas diferentes muitas vezes denotam o mesmo significado. Conseqüentemente, enquanto não tivermos uma terminologia técnica para a expressão comensurável dos significados filosóficos precisos dos diversos sistemas filosóficos, as tentativas de Filosofia comparada têm mais probabilidade de ser enganosas do que esclarecedoras.
A terminologia do sentido comum, quando desenvolvida em varias contextos dos numerosos tratados de uma única teoria filosófica, pode ser razoavelmente adequada para orientar a pessoa para o significado técnico dessa doutrina em especial, mas, dada a natureza do simbolismo e a matéria tratada pela Filosofia, não merece confiança para servir de denominador comum no expressar e comparar sistemas filosóficos diferentes. A Filosofia comparada deve ter uma terminologia técnica.

Uma terminologia técnica para Filosofia comparada
Uma teoria de qualquer espécie, seja científica seja filosófica, é um corpo de proposições, e um corpo de proposições, e um conjunto de conceitos. Os conceitos se classificam em vários tipos de acordo com as diferentes fontes do seu significado. Conseqüentemente, a designação dos diversos possíveis tipos principais de conceitos deve proporcionar uma terminologia técnica com a generalidade suficiente para incluir como caso especial qualquer possível teoria filosófica.
Os dois tipos principais de conceito
Um conceito é um termo ao qual se atribuiu um significado. Há duas maneiras principais de se fazer esta atribuição. O vocábulo que em outras circunstâncias não tem significado pode ser denotativamente associado com algum princípio ou conjunto de princípios dados imediatamente, ou pode ter o seu significado proposto para ele teoricamente pelos postulados da teoria dedutiva em que ele ocorre. Chamaremos, a esses dois tipos básicos, conceitos por intuição e conceitos por postulação, respectivamente.
Espera-se que os vocábulos “intuição” e “postulação” orientem o leitor para os sentidos precisos que se têm em vista. Como, porém, o nosso objetivo é oferecer uma terminologia técnica, importa não deixar isto ao acaso; daí as seguintes definições:
Um conceito por intuição é aquele que denota alguma coisa imediatamente apreendida, e cujo significado completo também é dado por tal coisa.
“Azul”, no sentido da cor percebida, é um conceito por intuição. Deve-se acentuar que na nossa terminologia “intuição” se refere àquilo que se opõe diretamente ao que é apreen­dido apenas indutivamente. Se só estivéssemos interessados no Ocidente poderia ser melhor chamar este tipo de conceito de “conceito por indução”, e não “conceito por intuição”. Como estamos interessados no Oriente, esta última designação tem algumas vantagens. Mesmo assim, o leitor deve ter sempre em vista o nosso uso restrito do conceito conforme está prescrito na definição acima.
Um conceito por postulação é aquele cujo significado completo é designado pelos postulados da teoria dedutiva na qual ocorre. Qualquer conceito que possa ser definido cm termos de tais conceitos chamaremos também de conceito por postulação. “Azul” no sentido do número de um comprimento de onda na teoria eletromagnética é um conceito por postulação.
Uma teoria dedutiva é um conjunto de proposições que se classificam em dois grupos chamados postulados e teoremas, de tal forma que os postulados formalmente implicam os teoremas por meio da relação lógica de implicação formal. Dados os postulados, os teoremas podem ser provadas.
Ao considerarmos qualquer teoria, não devemos confundir prova com verdade. Prova é uma relação entre proposições, isto é, entre aquelas que são postulados e as que são teoremas; ao passo que a verdade é uma relação entre as proposições e o fato imediatamente apreendido. Aquela é uma relação pura­mente formal, que cabe à Matemática pura e à Lógica formal definir; esta é uma relação empírica que compete à Ciência empírica e à Lógica empírica designar.
A relação de prova definida pela relação lógica formal de implicação formal, é inteiramente independente da verdade ou falsidade das proposições que ela relaciona. As provas dos teoremas nos Elementos de Euclides se sustentam independentemente da questão empírica do valor- de- verdade, cujo objetivo é determinar se a Geometria euclidiana é a do espaço do nosso universo real. A prova de Newton de que as proposições dos seus Principia decorrem necessariamente, segundo fundamentos lógicos, dos axiomas fundamentais da sua mecânica, é tão válida hoje quanto o era antes de a verdade dessa mecânica haver sido questionada pelo experimento de Michelson-Morley e pela análise de Einstein. Portanto, quando os postulados de uma teoria dedutiva são definidos como as proposições da teoria que são tidas como não provadas e usadas para provar os teoremas, isto não deve ser confundido com a questão inteiramente independente da verdade ou falsidade dos postulados.
Se está claro o que se entende por postulado e por teoria dedutiva, estamos preparados para compreender um conceito por postulação.
Nossa definição nos diz que tal conceito é aquele cujo completo significado é designado pelos postulados da teoria dedutiva na qual ocorre. Em outras palavras, o único significado que tal conceito tem é o que adquire em virtude das propriedades ou relações a ele atribuídas pelo postulado ou pelo conjunto de postulados dentro dos quais ele é um vocábulo- membro. Ele significa o que os postulados determinam que signifique, nada mais, nada menos; isolado destes postulados, ele é uru signo sem sentido.
Quando se recorda que a prova dos teoremas em uma teoria dedutiva pode ser estabelecida independentemente do conheci­mento relativo à verdade dos teoremas ou dos postulados, e quando a isto se acrescenta o fato de que as proposições podem ser propostas como postulados, na construção de uma teoria dedutiva, sem se considerar se há qualquer coisa denotativamente dada em apreensão imediata que é idêntica ao que as proposições propõem, então se torna evidente que os conceitos que adquirem seu significado de tais postulados podem ter significados que não são nem derivados de qualquer coisa imediata­mente apreendida nem diretamente refervíeis a tal coisa. Este é o significado técnico de um conceito por postulação. Como se podem comprovar empiricamente teorias formuladas em ter­mos de tais conceitos é o que nos interessará mais adiante.
A importância dos conceitos por postulação
Os conceitos por postulação são particularmente importantes no mundo ocidental. Nenhuma tentativa séria de designação precisa da principal diferença entre os sistemas filosóficos ocidental e oriental pode menosprezá-los. Esta importância se revela em três setores: (a) Ciência, (b) Filosofia e (c) Crenças do senso comum, cada um dos quais merece consideração à parte.

Ciência Ocidental
Na Ciência moderna, o primeiro uso dos conceitos por postulação e a primeira distinção clara entre eles e os conceitos por intuição foi feita pelo homem que formulou dedutivamente a Física moderna — Sir Isaac Newton. No começo dos seus Principia escreve Newton: “Até aqui registrei as definições das palavras menos conhecidas e expliquei o sentido em que desejaria fossem elas entendidas no discurso que se segue. Não defino tempo, espaço, lugar e movimento, por serem bem conhecidos de todos. Devo apenas observar que o homem comum concebe estas quantidades sem nenhuma outra noção que não a relação que têm com objetos sensíveis. E daí surgem certos preconceitos, para cuja eliminação será conveniente distingui­-las em absolutas e relativas, verdadeiras e aparentes, matemáticas e comuns”.
I. O tempo absoluto, verdadeiro e matemático, por si mesmo e por sua própria natureza, flui uniformemente sem relação com qualquer coisa externa, e por outro nome se chama duração: o tempo relativo, aparente e comum é alguma medida de duração sensível e externa (precisa ou variável) por meio do movimento. (...).
II. O espaço absoluto, por sua própria natureza, sem relação com qualquer coisa externa, permanece sempre igual e imóvel. O espaço relativo é alguma dimensão ou medida móvel dos espaços absolutos; que os nossos sentidos determinam pela sua posição com relação aos corpos; (...).
Na linguagem mais precisa de nossa terminologia técnica, o que Newton está dizendo em sua distinção entre espaço “ma­temático” e “percebido” é que há dois tipos diferentes de conceitos para os quais se usa o termo “espaço”. Há “espaço” no sentido de “espaço matemático”, que é um conceito por postulação, e há “espaço” no sentido do “percebido” ou imediata­mente apreendido, que é um conceito por intuição. Estes dois conceitos não devem ser confundidos, observa ele, se se quer evitar “certos preconceitos”. Na teoria dedutiva da Física, o que se usa é sempre espaço, tempo ou movimento no sentido do proposto conceito por postulação. Ou, de forma mais concreta, isto traz como conseqüência a circunstância de que, se se quer saber o que a Física newtoniana designa com a expressão “objeto físico”, não se apreendem imediatamente as formas coloridas da mesa ou da cadeira de sentido comum; em vez disso, examinam-se os postulados dos Principia de Newton. Newton, com a expressão objeto físico, significa a espécie de entidade que tem as propriedades e o comportamento prescritos por suas três leis do movimento.
Entre “objeto físico” neste significado postulacionalmente prescrito e “objeto físico” no sentido de um conceito por intuição há uma diferença enorme. De “objeto físico” neste último sentido nada absolutamente pode ser deduzido. Como Hume mostrou, a relação entre um fator imediatamente apreendido e outro é externa e contingente. Os Principia de Newton demonstram, contudo, que de “objeto físico” no sentido do seu conceito por postulação, cujo significado é dado pelos “Axiomas” dá sua Mecânica, todas as dúzias e dúzias de proposições que constituem a maior parte do seu tratado podem ser deduzidas como conseqüências necessárias. Entre estas proposições deduzidas ou provadas podem encontrar-se as três leis keplerianas de movimento planetário e todas as leis importantes empiricamente comprovadas de todo o sistema da Dinâmica.
Recentemente, Einstein substituiu os postulados newtonianos da Mecânica por um conjunto diferente. Mas na teoria de Einstein existe a mesma distinção entre o tempo postulado que flui “uniformemente” e o tempo percebido que flui sem “uniformidade” (3). Assim, a Física contemporânea, assim como a Física tradicional moderna, distingue entre conceitos por intuição e conceitos por postulação e formula sua teoria nos termos desta última. Recentemente, o Professor Whitehead e outros, num ataque à “bifurcação da Natureza” (3), que a distinção entre conceitos por intuição e conceitos por postulação acarreta, tentaram sustentar que todos os conceitos científicos são conceitos por intuição adquiridos imediatamente apreendidos por “abstração extensa”. Até agora, contudo, eles não responderam à prova da Ciência apresentada contra esta tese pelo Professor Arthur O. Lovejoy (4).
A presença de conceitos por postulação mostra, talvez, mais obviamente no caso do conceito científico do elétron, ao qual foi dado significado preciso nos postulados da teoria eletromag­nética generalizada de Lorentz, vários anos antes de haver sido confirmada experimentalmente pelo Professor J. J. Thomson, a existência de uma entidade que possui as propriedades designadas pelos postulados de Lorentz. Neste caso, com toda clareza, o conceito recebeu um significado postulacionalmente antes que estivesse presente qualquer fonte proporcionada denotativamente. Além disso, um elétron é pequeno demais para ser imediatamente apreendido. Seu diâmetro é tal, com relação ao comprimento de onda de luz, que sua observação, não apenas praticamente, mas também teoricamente, é ‘impossível.
Isto nos torna conscientes de um segundo significado dos conceitos por postulação. É por meio deles que a Ciência alcança introduzir entidades e relações não observáveis na sua teoria, e predizer teoricamente a existência de objetos científicos que só são confirmados experimentalmente mais tarde, e ainda assim apenas de modo indireto.
Se só houvesse conceitos por intuição, nossas teorias científicas ou filosóficas não se poderiam referir a nada além do que é apreendido imediatamente. Nossa concepção da natureza das coisas se esgotaria com os limites toscos da nossa percepção pelos sentidos e dos poderes da apreensão imediata, e todo conhecimento científico e filosófico do Ocidente teria a inexprimível inefabilidade associada a tudo que é dado com imediação.

A Filosofia Ocidental
Não é por acaso que os mais eminentes filósofos ocidentais, de Demócrito, Platão e Aristóteles, passando por Alberto Magno, Descartes, Leibnitz e Kant, até Russell e Whitehead, foram ma­temáticos, físicos e biólogos antes de serem filósofos. A ciência provada de uma cultura não pode usar conceitos referentes a fatores que não o que é imediatamente apreendido sem que o efeito sobre a Epistemologia e a Metafísica se tornem evidentes e inelutáveis. Na verdade, a Metafísica, quando definida sem ambigüidade, é a tese de que há tanto conceitos por postulação como conceitos por intuição; o positivismo, ao contrário, é a tese de que só há conceitos por intuição. E o curioso, como mostraremos mais adiante, é que não é à Ciência do Ocidente, mas à Filosofia e à religião do Oriente, que se deve recorrer se se quiser observar o que acontece quando o positivismo é levado a sério.
Os conceitos por postulação foram primeiramente introduzidos na Filosofia ocidental por Demócrito, devido à necessidade que a Física e a Matemática gregas tinham deles (5). Platão apenas continuou o que Demócrito iniciara, analisando os átomos inobserváveis da teoria democritiana no continuum intuitivamente dado que fornecia a “matéria” deles e na razão matemática ideal que lhes determinava a forma geométrica (6). A distinção de Demócrito e de Platão entre o “mundo dos sentidos” e o “mundo real (7)” é um exemplo da nossa distinção entre o que é dado à percepção imediata, tal como denotado por conceitos por intuição, e o que é proposto por teoria dedutiva científica e filosófica, tal como designado por conceitos por postulação.
Aristóteles, por outro lado, em virtude da falência dos postulados das teorias democritiana e platônica na Matemática grega, devido à sua incapacidade de confirmar o método eudo­xiano de exaustão (8) e por causa de sua preocupação com a Biologia, foi obrigado a rejeitar todos os objetos científicos postulados, tais como os átomos físicos de Demócrito ou os átomos estereométricos de Platão, e a admitir na Ciência e na Filosofia apenas conceitos por intuição (9). Isto o levou a negar qualquer “bifurcação” entre o real tal como é dado aos sentidos em observação e o real tal como é compreendido postulacionalmente na teoria dedutiva; aquele, quando apreendido no seu caráter lógico, exaure a realidade. Em seu ataque contra a “bifurcação” da Ciência moderna tradicional e contemporânea o Professor Whitehead recentemente voltou a esta tese aristotélica.
Os estudiosos contemporâneos têm revelado tendência a perder-se em sua interpretação de Platão e de Aristóteles por não conseguirem distinguir entre conceitos por postulação e conceitos por intuição, não notando que “idéia” para Platão é um puro conceito por postulação, ao passo que para Aristóteles é em parte um conceito por intuição. A distinção, na filosofia de Platão, entre “sensíveis”, “matemáticos” e “idéias”, a que Aristóteles se refere no primeiro livro da Metafísica e que se mostrou possuir conteúdo científico especifico nas teorias matemáticas e astronômicas do tempo de Platão (10), também gira em torno da nossa distinção entre conceitos por intuição e conceitos por postulação. Um “sensível” é um conceito por intuição cujo significado é dado por reconhecimento imediato através da percepção pelos sentidos. “Matemáticos” e “idéias” (isto é, razões), de outra parte, são conceitos por postulação. A clarificação da distinção entre “matemáticos” e “idéias” deve aguardar o desenvolvimento adicional, mais adiante, da nossa terminologia técnica para a Filosofia comparada, e especial­mente a classificação dos diversos tipos possíveis de conceitos por postulação.
Feito isto, tornar-se-á evidente também que certas reservas devem ser feitas à designação das teorias aristotélica e whiteheadiana da Ciência e da Filosofia como teorias que usam apenas conceitos por intuição. Este seria o caso no sistema aristotélico se os “sensíveis” fossem tomados apenas em seu caráter puramente psicológico pelo “intelecto passivo”; no momento, porém, em que os tomamos em seu caráter lógico como uma “forma positiva”, como se faz na transição do “intelecto” pas­sivo” para o “intelecto ativo”(11), aí se introduziu, então, um tênue elemento por postulação. A alteração não é que se rejeite, denotativamente, conceitos dados por intuição da teoria científica que se adota, substituindo-os por conceitos por postulação apenas teoricamente designados, como o fazem Demócrito, Platão e os físicos modernos, mas que, conservando e usando apenas conceitos por intuição, postulam-se, dos seus significados dados intuitivamente, uma condição lógica e a persistência imortal resultante além dos breves espaços de tempo durante os quais eles realmente são percebidos. Em outras palavras, aceitam-se apenas conceitos por intuição que se tratam, para usar a linguagem de Whitehead, como “objetos eternos”. O que se quer significar é algo dado apenas por apreensão imediata. A este conteúdo imediatamente apreendido, que é transitório pela forma como é percebido, acrescentam-se por postulação apenas uma condição e uma persistência lógica imortal. É precisamente este tênue elemento de postulação, acrescentado a puros conceitos por intuição, que distingue teorias obviamente metafísicas como as de Aristóteles e Whitehead do positivismo.
Nunca será demais acentuar que os “objetos eternos” de Whitehead e as “formas” de Aristóteles são muito diferentes das “idéias” de Platão. Uma “idéia” aristotélica, como um “objeto eterno” whiteheadiano, é um “sensível” platônico ao qual se dá persistência imortal por postulação. Uma “idéia” platônica, por outro lado, não é nem em parte um “sensível”; “idéias” e “sensíveis” são coisas totalmente diferentes. Platão concorda com os positivistas e os filósofos do Oriente em que os “sensíveis” são nominalistas e puramente transitórios. E é precisamente por isso que ele diz que o mundo da percepção é um mundo de devenir, e não um mundo de ser. Somente abandonando conceitos por intuição (isto é, os “sensíveis” platônicos) e formulando sua teoria científica e filosófica completamente em termos de conceitos por postulação (isto é, “idéias” platônicas) que a pessoa pode encontrar as invariantes submetidas ao princípio de ser que dão “conhecimento genuíno” de acordo com Platão.
A formação de “idéias” de Aristóteles e de Whitehead, me­diante a atribuição de uma condição eterna aos “sensíveis”, é conseqüência necessária da sua rejeição da “bifurcação”. Repu­diados todos os objetos ou fatores científicos cuja manutenção é garantida pela postulação, nenhum significado pode ser proporcionado às leis da Ciência que se apliquem, mesmo quando o cientista não está observando, a não ser introduzindo clandestinamente, nos dados transitórios da percepção dos sentidos, uma persistência imortal que eles não possuem.
Platão forma “idéias” rejeitando inteiramente conceitos por intuição na formulação da teoria dedutiva da sua ciência e da sua filosofia e usando apenas conceitos por postulação. Ademais, estes conceitos por postulação recebem tais significados pelos postulados da teoria dedutiva em que ocorrem segundo os quais eles não designam nada sensível ou imaginável. No Sexto Livro da República, ao descrever a passagem de dialética dos “matemáticos” nas hipóteses das ciências para as “idéias”, Platão afirma que “não se faz uso de imagens” (pág. 510). Não é que se dê aos ‘‘sensíveis” ou imagens’’ uma condição imortal lógica; não as usamos de forma alguma. Uma “idéia” platônica, com relação ao seu conteúdo assim como à sua imortalidade, é uma espécie bem diferente de conceito.
Mas não são apenas a Filosofia grega de Demócrito e de Platão e a Ciência moderna que usam conceitos por postulação. Isto se aplica até às crenças ocidentais de senso comum.

Crenças do senso comum
Berkeley e Hume mostraram que mesmo as nossas crenças mais comuns, tais como a suposição de que há objetos físicos públicos ou mentes que não as nossas, envolvem muito mais do que a mera observação ou a apreensão imediata podem dar. Estas crenças, como as teorias comprovadas da Ciência moderna, são propostas por postulação e confirmadas apenas indiretamente por observação; não são dadas nem garantidas completamente apenas pelo exame direto. Os erros dos nossos juízos perceptuais demonstram isto.
Tal presença de conceitos por postulação mesmo nas crenças comuns do leigo é ofuscada pelo fato de que os postulados em questão foram comprovados através das suas conseqüências dedutivas tantas vezes na nossa experiência diária que chegamos a considerar sua fidedignidade como quase tão segura quanto a nossa crença em fatores imediatamente apreendidos, tais como cores e sons.
Na verdade, porém, há uma enorme diferença. A crença na existência de cores só é garantida pela observação ou pela mera apreensão imediata, e envolve conseqüentemente apenas conceitos por intuição. A crença em mesas e cadeiras e em outras pessoas depende, porém, da postulação de mais do que é imediatamente percebido e da verificação da hipótese que formulamos deduzindo conseqüências lógicas dai e confirmando as deduções. Como o que é postulado envolve mais do que proporciona a mera observação imediata, estão presentes conceitos por postulação.
Quando se passa dos objetos do senso comum para os objetos postulados de Ciência, mais dedutivamente férteis e adequados, aumenta a quantidade de significado introduzida na teoria ocidental por postulação, e o que se significa diverge cada vez mais dos significados proporcionados pelos conceitos por intuição, que se restringem de todo ao imediatamente percebido. Como explicou um dos mais ilustres físicos matemáticos contemporâneos, “os desenvolvimentos físicos modernos exigiram uma matemática que muda seguidamente seus fundamentos e se torna mais abstrata”. Acrescenta, além disso, que “os problemas fundamentais da Física teórica que aguardam solução” requerem, nos nossos conceitos fundamentais, mais alterações, de “tal magnitude, que estará além do poder da inteligência humana conseguir as idéias novas necessárias mediante tentativas diretas de formular os dados experimentais em termos matemáticos”. Em resumo, os conceitos por intuição são inteiramente inadequados. Continua o Professor Dirac: “O trabalhador teórico terá, portanto, no futuro, que proceder de maneira mais indireta, O método mais eficaz de progresso que pode sei sugerido atualmente é o emprego de todos os recursos da Matemática pura em tentativas de aperfeiçoar e generalizar o formalismo matemático que forma a base existente da Física teórica, e, após cada sucesso nesta direção, tentar interpretar as novas características matemáticas em termos de entidades físicas (12)”.
Esta presença de conceitos por postulação dedutivamente formulados tanto no senso comum como na teoria científica foi indicada por Albert Einstein num trabalho relativo a Clerk Maxwell: “A crença num mundo externo independente do indivíduo que percebe é a base de toda a Ciência Natural. Como, porém, a percepção dos sentidos apenas dá informações sobre este mundo externo ou sobre a ‘realidade física’ indiretamente (isto é, através das conseqüências dedutivas da nossa hipótese científica) (13) só podemos apreender esta última por meios especulativos (isto é, postulando mais do que imediatamente percebemos). Segue-se daí que as nossas noções da realidade física nunca podem ser finais. Devemos estar sempre prontos para mudar estas noções — quer dizer, a subestrutura axiomática da Física (isto é, seus conceitos por postulação) — a fim de fazer justiça aos fatos percebidos da maneira mais logicamente perfeita. Na realidade, um relance ao desenvolvimento da Física mostra que ela sofreu mudanças profundas com o passar do tempo”.
Como a crença no mundo externo é uma crença tanto de senso comum quanto de Ciência Natural e, portanto, é, quando muito, apenas uma hipótese indiretamente confirmada e alta­mente provável, exposta em termos de conceitos por postulação, e não uma certeza imediatamente percebida denotada por conceitos por intuição, esta crença, também, não precisa ser a única para o senso comum. Pode não haver teorias mesmo para o senso comum. Outras que não as que o Ocidente usa? A resposta deve ser afirmativa. Podem ser encontradas no Oriente. É necessária uma designação dos possíveis subtipos de conceitos por postulação e conceitos por intuição para tornar isto claro.

Possíveis tipos de conceito por Postulação
Podemos postular entidades ou estruturas que podemos imaginar mas não perceber, e podemos postular fatores que não podemos nem perceber nem imaginar. Chamaremos de conceito por imaginação um conceito por postulação que designe as primeiras, e o que designe os últimos, conceito por intelecção.
Os centauros, os átomos de Demócrito, os platônicos sólidos uniformes do Livro XIII de Euclides e os modelos atômicos da Física atômica clássica de Bohr e de Rutherford constituem exemplos de conceitos por postulação que são conceitos por imaginação. As estruturas multidimensionais da Física matemática, nos casos em que as dimensões sejam maiores em número do que três, são exemplos de conceitos por postulação que são conceitos por intelecção. Não se podem imaginar mais do que três dimensões, porém com o uso de conceitos por postulação os físicos matemáticos não têm dificuldade em definir um espaço de qual­quer quantidade de dimensões. A razão (“idéia”) que define o aspecto em que duas figuras geométricas similares (“matemáticos”) são idênticas na Matemática platônica, consideradas separadamente das duas figuras percebidas ou imaginadas, de diferentes tamanhos, em que a razão idêntica está incorporada, é outro exemplo. Assim, a distinção platônica entre “matemáticos” e “idéias” é, quando expressa sem ambigüidade na nossa terminologia técnica, a diferença entre um conceito por postulação que é um conceito por imaginação e um conceito por postulação que é um conceito por intelecção. As teorias dedutivas da Física do século XIX, que exigia modelos físicos imagináveis, usaram conceitos por imaginação. As teorias dedutivas da Física contemporânea, que só podem ser expressas matematicamente, dispensam conceitos por imaginação e usam apenas conceitos por intelecção.
Conceitos por imaginação e conceitos por intelecção classificam-se igualmente em dois grupos, que denominaremos pluralista e monista. Os conceitos monistas designam um só fator que tudo abarca; os conceitos pluralistas designam muitos fatores externamente relacionados.
A teoria atômica cinética de Demócrito ou a teoria cinética de calor e gases da Física de partículas clássica moderna são exemplos de um conceito pluralista por imaginação. A substância etérea da Física de campo pré - relativista é exemplo de um conceito monístico por imaginação. As quatro razões primitivas dos quatro triângulos atômicos da Matemática platônica exemplificam um conceito pluralista por intelecção. A equação tensorial para a gravidade, de Einstein, que designa as propriedades métricas invariantes do espaço - tempo de quatro dimensões, ilustra um conceito monístico por intelecção.
Além de conceitos por imaginação e conceitos por intelec­ção, há um terceiro tipo importante de conceito por postulação que a nossa consideração de crenças do senso comum indicou. Não somente os átomos e as equações tensoriais representam fatores postulados, mas também os representam os objetos externos comuns e as mentes de outras pessoas. A conceitos que designem estes objetos de senso comum chamaremos conceitos por percepção. Mesas, cadeiras e objetos comuns e pessoas de trato social são exemplos. Ao designar tais conceitos como conceitos por percepção, é importante distinguir “percepção” neste sentido da compreensão imediata. Como mostraram Berkeley e Hume, e como antes indicamos, “os objetos perceptuais não são fatores imediatamente compreendidos; são postulados de senso comum tão completa, freqüente e inconscientemente com­provados através de suas conseqüências dedutivas, que apenas os críticos dão-se conta de que eles são postulados e não imediatamente compreendidos.”
Os conceitos por percepção também se classificam em dois grupos: pluralista e monista. Os numerosos objetos físicos e as pessoas de trato comum exemplificam conceitos pluralistas por percepção. O espaço único e publicamente percebido dentro do qual estes objetos perceptuais pluralistas estão localizados é exemplo de um conceito monista por percepção.
Nosso exame da diferença entre as “idéias” de Platão, as quais são conceitos por postulação que são conceitos por inte­lecção, e as “idéias” de Aristóteles ou os “objetos eternos” de Whitehead, que são conceitos por intuição para os quais uma condição lógica imortal foi postulada, indica a possibilidade de um quarto tipo, fronteiriço, de conceito por postulação. Chamaremos a este quarto tipo conceitos lógicos por intuição. São conceitos cujo conteúdo é dado pela apreensão imediata e cuja persistência imortal é proposta por postulação.
Há, também, conceitos lógicos por intuição pluralistas e monistas. “Quente” no sentido da sensação imediatamente percebida que funciona como uma “forma por privação” (14) na Física de Aristóteles, e os “objetos eternos” de Whitehead em sua relação de disjunção mútua, são exemplos do pluralismo. O “Motor Não- Movido” da teologia de Aristóteles, na qual as formas pluralistas são tratadas como unidade hierárquica, é um exemplo monístico.
Resulta, então, a seguinte classificação de Conceitos por Postulação:
I Conceitos por Intelecção - Conceitos por postulação que designam fatores que não podem ser nem imaginados nem percebidos.
(a) Monista. P. ex., O continuum espaço- tempo da Física de campo de Einstein.
(b) Pluralista. P. ex., As razões atômicas de Platão.
II Conceitos por Imaginação - Conceitos por postulação que designam fatores que podem ser imaginados mas não percebidos.
(a) Monistas. P. ex., O conceito etéreo da Física de campo pré- relativista clássica.
(b) Pluralista. P. ex., Os átomos e moléculas da Física de partículas clássica.
III Conceitos por Percepção - Conceitos por postulação que designam fatores em parte percebidos e em parte imaginados.
(a) Monistas. P. ex., O espaço público da vida diária.
(b) Pluralista. P. ex., Outras pessoas, mesas, cadeiras e a lua esférica com o seu lado escondido que não vemos, bem como o seu lado manifesto que vemos.
IV Conceitos lógicos por Intuição - Conceitos que designam fatores, cujo conteúdo é dado através dos sentidos ou por mera abstração da totalidade da percepção pelos sentidos e cuja universalidade e imortalidade lógicas são dadas por postulação.
(a) Monista. P. ex., “O Motor Não- Movido” na Metafísica de Aristóteles.
(b) Pluralista. P. ex., Os “objetos eternos” de Whitehead, as essências de Santayana ou as “idéias” de Aristóteles. Como os conceitos lógicos por intuição são conceitos por postulação apenas na medida em que sua imortalidade está em causa e são conceitos por intuição com relação ao seu conteúdo, proporcionam uma transição natural do tipo genérico de conceito para o outro.
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(1) Sir Isaac Newton, Mathematical Principies of Natural Philosophy, tradução de Andrew Motte revista por Florian Cajori (Berkeley: University of California Press, 1934), pág. 6.
(2) Vide, do Autor, “A Ciência Natural e a Filosofia Crítica”, The Heritage of Kant (Princeton: Princeton University Press, 1939), págs. 58-59.
(3) A. N. Whitebead, The Concept of Nature (Cambridge, Inglaterra: University Press, 1920).
(4) Arthur O. Lovejoy, The Revolt Against Dualism (Nova Iorque: W. W. Norton & Company, 1930). Vide, também, o capítulo deste Autor sobre “A Filosofia da Ciência de Whitehead”, The Philo­sophy of AlIred North Whitehead (Evanston: The Library of Living Philosophers, 1941). No mesmo volume, o Professor W. E. Hocking também contestou a rejeição da bifurcação mesmo do ponto de vista da teoria da mente.
(5) S. Luria, “Die Infinitesimais Theorie der Antiken Atomis­ten” in Quellen u. Studien zur Geschichte der Mathematik. Abt. B. Band II: 106-185 (Springer, Berlim, 1930).
(6) Vide, deste Autor, “Os Antecedentes Matemáticos e o Conteúdo da Filosofia Grega”, Philosophical Essays for Alfred North White­head (Nova Iorque: Longmans, Green and Co., 1936), págs. 1-40.
(7) S. Luria, Op. cit.
(8) Vide nota 6 da página anterior.
(9) A tais conceitos, cujo conteúdo se dá empiricamente, acrescentou, contudo, uma imortalidade postulada, devido ao seu caráter lógico.
(10) Vide, deste Autor, “Os Antecedentes Matemáticos e o Conteúdo da Filosofia Grega”, Op. cit., e as investigações de Erich Frank, S. Luria. O. Toeplitz e J. Stenzel, ali indicadas.
(11) Vide De Anima, de Aristóteles.
(12) Toda a matéria citada neste parágrafo é do trabalho de Professor P. A. M. Dirac publicado nas Proceedings of the Royal Society of London, Série A, Vol. 133, pág. 60.
(13) A. Einstein, The World As 1 See It (Nova Iorque: Covici-Friele [agora Crown Publishers], 1934), pág. 60.
(14) Physica de Aristóteles, Livro I, 7, 190b25.