Quem descobriu quem? China e Ocidente

''Homo sum: humani nihil a me puto alienum" ("Sou ho­mem: considero que nada do que é humano me é estranho") - que chinês não faria sua a bela frase de Terêncio? Ela nos faz lembrar como é mais fácil julgar-se o sujeito do que o obje­to de descoberta. O etnocentrismo é para as sociedades huma­nas aquilo que o egocentrismo é para os indivíduos: está na natureza das coisas. São as formas mais excessivas que podem nos parecer patológicas. Uma literatura abundante esforçou-se por mostrar a China como sofredora no mais alto grau desse mal que leva à incomunicabilidade. Um sem-número de viajan­tes tem hoje em dia a agradável surpresa de descobrir que isso não passava de um mito. Sabe-se, no entanto, que não foi sem­pre assim. Voltaremos a tratar, mais adiante, desse famoso "um­biguismo" chinês, de suas raízes e de sua extensão. As páginas seguintes se propõem sobretudo a fazer com que se compreen­da melhor aquilo que a descoberta do Ocidente pode ter signi­ficado para os chineses, e não o que os testemunhos nos revelam sobre .eles e também sobre nós; nesse aspecto, os textos bastam-­se a si mesmos.

Atualmente, quando são suficientes apenas dois dias e uma certa quantidade de dinheiro para se transportar de um extre­mo a outro do continente eurasiático, é preciso não esquecer que essas distâncias foram durante muito tempo quase intrans­poníveis a pé ou a cavalo. Até o século XII nenhum produto, nenhuma idéia parece ter podido circular sem que passasse por numerosos intermediários. Desde a Antiguidade existia em ca­da extremo a noção confusa de uma civilização rica e poderosa que haveria na outra ponta do mundo conhecido.

O livro de Marco Polo (c. 1254-1364) foi mais uma revela­ção do que uma descoberta, o que exige um mínimo de conti­nuidade. Além disso, a obra era considerada um romance, a meio caminho entre o real e o imaginário, menos confiável que o relato de viagem de John Mandeville (de fato Jean de Bourgogne, 1322-1372). Nem um nem outro, de qualquer modo, estavam escritos em latim, prova de seriedade. Era preciso a loucura apai­xonada de um Cristóvão Colombo para acreditar no messire Polo e pretender tirar as conclusões práticas da teoria da rotundida­de de Terra, que ele pensava ser bem menor do que é na verdade.

E inútil insistir sobre a virada que as "grandes descobertas" representaram; todos sabem. O que em geral se desconhece, ex­ceção feita aos especialistas, é que a descoberta de mais profun­das conseqüências no plano intelectual foi a de um dos raros países que não foram conquistados: a China.

Que o leitor impaciente perdoe essas considerações que têm por finalidade recordar quanto foram diferentes essas descober­tas recíprocas e paralelas - com a abstração de uma defasagem de dois ou três séculos...

Ponto admitido: as "grandes invenções" que instauram o mundo moderno - bússola, pólvora e armas de fogo, impres­são e papel- são de origem chinesa. Mas elas penetraram indi­retamente, a longo prazo e no momento desejado. No século XVI, quando começam a estabelecer-se contatos diretos conti­nuados, o modelo que irá prevalecer e difundir-se é o reconstruído de acordo com as necessidades intelectuais do Ocidente. Sem chegar ao ponto de fazer desse modelo chinês o fator de­terminante na retomada de valores tradicionais na Europa do século XVIII, não subestimemos sua contribuição: um gover­no racionalmente organizado que recruta seus servidores por concurso; em suma, a utopia platônica tornada realidade! Em seu desejo de justificar sua estratégia de evangelização pela apo­logia de Confúcio, os jesuítas poliam as armas dos piores inimi­gos da religião apostólica romana.

Em La vertu des paiens, publicado em 1641, La Mothe le Vayer fazia de Confúcio (555-479 aproximadamente) uma es­pécie de fundador da moral laica:

"Com efeito, todas as artes liberais e todas as ciências seguiram o mesmo curso tanto na China como em nossos países (...) Mas depois que Confúcio lhes mostrou a importância da ética (...) ele alçou de tal modo as ciências dos costumes acima de todas as outras que, depois dele, não se formam mais bacharéis nem doutores sem examiná-los em moral".

Voltaire ia mais longe:

"Freqüentemente coloca-se o grande K'ong fu tse, que en­tre os antigos legisladores é chamado de Confúcio, entre os fun­dadores das religiões: é uma grande negligência. K' ong fu TSE é bem moderno: viveu seiscentos e cinqüenta anos antes de nossa era. Nunca instituiu nenhum culto, nenhum rito; nunca se dis­se inspirado, nem profeta (...) Ele recomenda o bem (...) Recomenda todas as virtudes".

A China tornava-se inimiga da verdade revelada. Pode nos parecer estranho, hoje em dia, que um Blaise Pascal (1623-1662) fosse afetado por isso a ponto de escrever em seus Pensamentos:

"Mas a China obscurece, dizeis; e eu respondo: A China obs­curece, mas há ali claridade a ser encontrada; procurai". Ou ain­da: "Só creio nas histórias em que as testemunhas se fariam massacrar".

A querela da cronologia chinesa fizera furor entre especia­listas, ao longo de todo o século XVIII. Com efeito, se o mun­do foi criado a 7 de outubro do ano de 3761 a.c., a existência de imperadores chineses no começo do terceiro milênio antes de nossa era punha problemas insolúveis à exegese bíblica, que então só era concebida como fundamentalista.

Tanto se escrevera sobre a China que Voltaire, em seu En­saio sobre os costumes (1756), a considerava mais bem conhecida do que muitas províncias francesas.

Do século XVI ao XVIII, somente os franceses foram aos milhares "à China": comerciantes a Cantão, marinheiros à sua costa, missionários a Pequim ou ao interior.

No sentido inverso, o número de chineses que desembarca­ram na Europa mal ultrapassa os cinqüenta. Todos estavam sob a proteção dos missionários. Seu papel de informantes sobre o Extremo Ocidente junto a seus compatriotas foi praticamente nulo. E não podia ser de outro modo, pois, do ponto de vista das autoridades chinesas, deixar a China, ou seja, o mundo civi­lizado, para voluntariamente juntar-se aos "bárbaros", não po­dia deixar de ser o feito de trânsfugas. Além disso, os jovens que os missionários recrutavam em modestos círculos de con­vertidos, graças a uma excepcional tolerância, dispunham de uma formação demasiado elementar na sua própria cultura para pre­tender exercer alguma influência nos círculos letrados.

Ex oriente lux: por que o movimento que levava o Ociden­te cristão a buscar a luz ainda mais longe a leste não se encon­traria também entre os chineses, que haviam recebido o budismo do oeste? Em primeiro lugar, o budismo, religião popular freqüentemente desprezada pelos letrados, não ocupava uma posi­ção comparável àquela do cristianismo no Ocidente. Em seguida, Confúcio ensinava que a curiosidade era um vício reles. Enfim, as raízes da cultura chinesa eram nativas, diferentemente da Eu­ropa multilíngüe, que toma as bases de sua civilização de fontes alienígenas. E o suficiente para explicar por que a descoberta do Extremo Ocidente acontecerá dois séculos mais tarde e sob uma pressão exterior se!li precedentes, processo desencadeado pela famosa Guerra do Ópio de 1840. O que se buscará no Oci­dente, antes de mais nada, são os segredos da potência e da ri­queza que permitem que nações dez, vinte vezes menores do que a China façam-na ajoelhar-se.

Teriam os jesuítas mudado o mundo se tivessem consegui­do fazer aceitar seu sino-cristianismo, se a Querela dos Ritos tivesse sido concluída a seu favor, se eles não tivessem sido ex­pulsos da França em 1764, se sua ordem não houvesse sido dis­solvida pelo papa em 1773, ruína irremediável de sua missão junto à corte imperial chinesa?

O leitor seria tentado a responder negativamente depois de ter lido a obra admirável de Jacques Gernet, Chine et christia­nisme. É claro que a presença, em geral belicosa, desses bárba­ros, provenientes de países até então desconhecidos, não deixou de suscitar a atenção das autoridades chinesas desde o século XVI. Possuímos uma documentação relativamente abundante do sé­culo XVII que atesta conhecimentos mais precisos que no sécu­lo seguinte: digamos antes, noções menos confusas. Voltaremos a isso.

Os jesuítas, depois de realizarem a façanha de dominar o difícil chinês clássico, empenharam-se em apresentar aos letra­dos chineses um quadro da Europa em conformidade com a apo­logética romana. Haviam conseguido criar entre um pequeno círculo de convertidos uma admiração entusiástica por um mun­do quase mítico. Fora desse grupelho, era uma impressão bem diferente que produziam. Desde que o extraordinário Matteo Ricci (1552-1610) tinha tomado a sábia decisão de adotar a cau­sa do confucionismo contra o budismo, os chineses cultos viam na capacidade de assimilação desses letrados vindos de paragens longínquas uma nova prova da superioridade da cultura de on­de provinham. Restou-nos o testemunho de alguns dos espíri­tos mais audazes da época, os únicos, ao que tudo indica, a se gabarem de freqüentar Li Xitai - o nome chinês de Matteo Ric­cio Eis o que Li Zhi, o filósofo "maldito", nascido em 1527 e que se suicidará na prisão em 1602, escreve a um amigo:

"É um homem do grande Oeste a mais de cem mil lis (cer­ca de cinqüenta mil quilômetros) da China (...) Agora, ele é capaz de falar e escrever com perfeição nossa língua e observar nossos usos e costumes. É um homem de rara elegância, inte­riormente dos mais refinados, mas de um exterior simples e acolhedor. Uma dezena de pessoas reunidas podem gritar ao mesmo tempo, cada um procurando tirá-lo fora de si, que ele assistirá a tudo sem se deixar perturbar por suas discussões (...) Não conheço ninguém que lhe seja comparável (...) Ele vale mais do que todos. Mas não compreendo por que veio para cá. Já o encontrei três vezes e continuo sem entender. Pensei, por um momento, que ele queria substituir o ensinamento de Confúcio pelo seu, mas isso seria por demais absurdo! Espero que não seja isso".

Nascido quarenta anos mais tarde, Xie Zhaozhe (1567-1624) viveu tempo bastante para compreender melhor a propósito de que ele vinha. Mas esse espírito reputado pela extensão de sua curiosidade e pela independência de seus julgamentos aprecia nessa sabedoria vinda de tão longe um novo sustentáculo trazi­do para o confucionismo:

"(...) Há ainda os países do Senhor do Céu, mais longe a oeste, além dos países de Buda. As pessoas ali estão impregna­das de cultura, e os letrados mostram-se de uma elegância que não é diferente daquela dos chineses. Há o caso de Li Matou (Matteo Ricci), que veio de seu país passando pela Índia e, con­tinuando para o leste, atingindo a fronteira de Kuangtung. (A província cuja capital é Cantão) ao final de quatro anos de via­gem (...)

"O Verdadeiro significado do Senhor do Céu é uma de suas obras onde ele ressalta constantemente que sua doutrina está de acordo com a de Confúcio, enquanto denigre a fundo os dis­cursos sobre o vazio e o nada do budismo e do taoísmo. Li Ma­tou gostava de repetir que o ensinamento do Buda não era outra coisa que aquele do Senhor do Céu ao qual se acrescentava a tese da retribuição dos atos em reencarnações, uma maneira de enganar o mundo. Nossa doutrina, afirmava, não está a serviço de ninguém; ela pede somente a prática do bem, pois quem faz o bem sobe ao céu, quem comete o mal cai no inferno, eterna­mente, sem remissão, sem reencarnação. Não é necessário nem se entregar a duros exercícios espirituais diante de uma parede
nem deixar a família e o mundo. É suficiente praticar o bem constantemente em sua conduta cotidiana. Regozijo-me bastante de que essas teses estejam tão próximas do confucionismo e que essas preces nos toquem tão de perto, à diferença dos budistas que desviam e alarmam o ho­mem comum ao lhe dirigir discursos absconsos e incoerentes ( ... ) Li Matou dirigia-se às pessoas com uma atenção cortês e sabia encadear argumentos sem se cansar. E preciso admiti-lo: em países estranhos há também homens dignos desse nome. Ele morreu em Pequim, nossa capital."

Será preciso admirar-se de que nenhum viajante letrado se tenha aventurado até o Extremo Ocidente antes da metade do século XIX? Que o governo chinês não tenha feito questão de completar e precisar as informações confusas e contraditórias de segunda ou terceira mão que possuía? O longíquo Ocidente podia ser objeto de curiosidades consideradas fúteis. O sonho no pavilhão vermelho, essa obra-prima da arte romanesca chine­sa escrita por volta da metade do século XVIII, menciona esses objetos exóticos do grande Oeste em cerca de uma centena de passagens. Quem não conhece a resposta altamente significati­va que fez transmitir o ilustre imperador Qianlong, que reinou de 1736 a 1796, ao enviado de Sua Majestade britânica Earl Ma­cartney, que foi a Pequim em 1793 para solicitar a abertura da China ao comércio e o estabelecimento de uma embaixada per­manente na capital chinesa?

"A corte celeste pacificou a terra entre os quatro mares. Seu único objetivo é o de agir da melhor maneira possível para es­tabelecer o melhor dos governos e assegurar o bom andamento dos negócios do Estado, sem atribuir o menor valor a esses ob­jetos estranhos ou preciosos que vós Nos trazeis. Todavia, dei ordem expressa à repartição à qual compete aceitar os artigos que tu me envias, ó Rei, em consideração à sinceridade de teus bons votos e à distância que fizeste teus enviados percorrerem (...) Como eles puderam constatar, não Nos falta nada. Jamais atribuímos valor às coisas curiosas ou engenhosas, e não temos nenhuma necessidade dos objetos manufaturados de teu país (...)"

A concepção das relações internacionais que implica essa mensagem imperial explica o contraste das tentativas ociden­tais em face da preocupação chinesa de guardar as distâncias.

A isso se somam concepções econômicas que têm suas raí­zes no "legismo": leia-se Le livre du prince Shang, admiravelmente traduzido para o francês por Jean Lévi: somente a terra é produtora de riquezas, as quais o artesanato apenas transfor­ma. O comércio, que assegura sua distribuição, é fundamental­mente parasitário. Convém desencorajá-lo. Ele só é tolerado fora do território por benevolência para com os bárbaros habitan­tes de regiões marginais que não fornecem o necessário à sobrevivência. E melhor lhes conceder aquilo que eles tomariam pela força, caso pressionados pela necessidade. E se o imperador da China é o monarca universal do mundo útil, as relações internacionais se resumem na homenagem tributária, comércio dis­farçado sob a aparência do reconhecimento do prestígio eminente do soberano chinês - o que o condena a dar aos en­viados de longe presentes de valor superior aos que eles trazem. Compreende-se que a preocupação do Estado chinês tenha sido de limitar o número dessas custosas homenagens e conduzir as relações exteriores ao nível mais baixo possível.

O mercantilismo que levava os governos das nações ociden­tais a estabelecer ligações de comércio e de indústria era impen­sável no quadro da ideologia oficial do Estado chinês. Nada motivava seus súditos à exploração de terras longínquas, a não ser a pressão econômica para os mais desprovidos dentre eles ou os marginais, "chefes de piratas" duramente perseguidos. De seus contatos com o Extremo Ocidente, não deixaram eles mes­mos nenhum testemunho. Resta a motivação religiosa de um punhado de letrados convertidos ao catolicismo no século XVII, o momento mais favorável para a propaganda da Companhia de Jesus. Como se explica que nenhum deles tenha atravessado os mares e narrado o que havia visto e ouvido? Primeiramente, é preciso lembrar que, para esses convertidos de boa família, o cristianismo aparecia como um confucionismo renovado e pu­rificado. Desincumbir-se das obrigações familiares permanecia, a seus olhos, um dever incontornável. A única solução para a poligamia, que obstava a sua conversão - os jesuítas eram intratáveis sobre esse ponto -, era a morte em grande escala de suas esposas. Para arriscar a própria vida em uma viagem para longe era preciso que eles estivessem livres da responsabilidade de sustentar a família. Conseqüentemente, só podiam pensar nis­so em uma idade avançada, quando o desprezo da cultura física os havia já desqualificado para esse tipo de experiência. Wu Li (1631-1718), pintor e calígrafo renomado, poeta e músico foi, pelo que sabemos, o único a ter considerado a hipótese. Viúvo, chegou a ir até Macau em companhia do padre Couplet (1622-1693) que, finalmente, embarca sem ele a 5 de dezembro de 1681- esse último atinge a costa da Holanda a 5 de outubro do ano seguinte: um retorno três vezes mais rápido do que a viagem de ida! Wu Li contentara-se em entrar no noviciado de Macau em 1682: a 1688, é ordenado padre em Nanquim.

Os jovens catecúmenos chineses que os missionários con­seguiam enviar à Europa geralmente decepcionavam seus hós­pedes ávidos de informações sobre os países do outro lado do mundo. Henri Bertin (1720-1792), o "pequeno ministro" de Luís XV, na esperança de manter um fluxo de informações, havia estatuído uma pensão para dois deles em seu retorno à, China - tratava-se de Louis Ko (Gao Ren, 1732-1790) e de Etienne Yang (Yang Zhide, 1733-1798), os mesmos que haviam inspira­do a Turgot suas Réflexions sur la formation et la distribution des richesses, publicadas em 1764. Seu mentor, o padre Benoist (1715-1774), envia a Bertin uma defesa significativa da manu­tenção da pensão para seus protegidos, a 12 de outubro de 1766:

"Os dois pensionados, Yang e Ko, quando partiram para a Europa, não tinham da China outro conhecimento além da­quele que, enquanto crianças, podiam ter adquirido em sua via­gem de Pequim a Macau (...) Durante todo o tempo em que estiveram conosco eu cuidava para que não tivessem contato com quem quer que fosse, a não ser com o mestre chinês que lhes tinham designado (...) Eles testemunharam as precauções que se tomam para que os europeus não se comuniquem com qualquer chinês além daqueles que foram designados para esse fim. Eles tinham visto o que acontecera, nos anos precedentes, quando Mr. Flint, um inglês, tinha tentado chegar por mar até um porto da província de Pequim (Tientsin) com a intenção de levar até a Corte as reclamações que ele tinha contra os man­darins de Cantão ( ... ) Foi reconduzido a Cantão e condenado a três anos de prisão por ter tentado penetrar no império a des­peito da proibição de fazê-lo, extensiva a todos os estrangeiros (os mandarins concussionários foram processados) ( ... ) O es­critor que lhe proporcionara o acesso foi condenado à decapi­tação ( ... ) Um e outro perceberam que, mesmo em seu próprio país, estariam mais em segurança e também em melhores con­dições conosco do que em qualquer lugar. Se eles tivessem para si um lugar fora da nossa Igreja, não poderiam manter aí lugar, nem livros, nem máquinas, nem qualquer outra coisa da Europa; não poderiam escrever, enviar ou receber escritos europeus nem conservá-los sem levantar suspeitas que logo os fariam ser descobertos ( ... ) Se, por exemplo, um chinês entrasse aqui em qualquer manufatura, a examinasse e se informasse do que se passa, mesmo que estivesse fazendo isso por alguém, certamen­te seria interrogado, examinado; e se daria por feliz se fosse ape­nas banido sem receber bastonadas, empregadas com bastante liberalidade contra imprudências bem menores do que essa se­ria considerada".

Fiquemos com esse exemplo: ele basta para compreender­mos que outros fatores de dissuasão se juntavam à falta de mo­tivações positivas. Freqüentar estrangeiros não completamente achinesados dá margem às piores suspeitas: a busca de uma alian­ça externa visando a uma subversão interna. Todas as dinastias chinesas foram fundadas pela força das armas: elas sempre te­meram ser derrubadas do mesmo modo. Além do mais, em 1644 a dinastia então reinante, dos Qing, da Manchúria, havia de­posto a dos Ming pela conquista, aproveitando-se precisamente de uma subversão interna.

O príncipe podia permitir-se curiosidades que teriam sido malsãs para seus súditos. O mesmo padre Michel Benoist, o su­perior da residência dos jesuítas franceses em Pequim, já se re­gozijava de uma estada de vinte e três anos na China quando, no ano seguinte, dirigia as seguintes linhas ao ministro de Luís XV:

"Aquilo que, na França, aguça a curiosidade das pessoas de bom gosto, as ciências, a filosofia, a história natural, tudo isso agrada também ao imperador, e se os súditos tivessem as mes­mas inclinações que o Príncipe, ou melhor, se os costumes e a forma de governo da China não fossem um obstáculo, logo haveria na China academias para as ciências e as artes que mere­ceriam a estima das nossas academias na França (...)"

Os nossos letrados chineses serão levados a descobrir o Ex­tremo Ocidente em decorrência de incitações bem diferentes daquelas que lançaram os europeus sobre os mares do globo. E, entretanto, um século antes que Magalhães (1480-1521) reali­zasse a primeira circunavegação do planeta (1519-1522), o im­perador Ming Yongle, que reinou de 1403 a 1425, havia confiado ao eunuco Zheng He a direção de expedições de bem maior en­vergadura,- com a utilização de até vinte mil homens, e alcan­çando a África e a Arábia -, a sétima e última tendo sido empreendida sob o reinado do sucessor de Yongle. Não haviam dito aos portugueses que atingiam pela primeira vez a costa do Malabar que, oitenta anos antes, eles tinham sido precedidos por "brancos" a bordo de barcos bem mais possantes? Por que nada resultou disso, a ponto de que a memória desses aconteci­mentos teria se perdido se não fossem os esforços dos historia­dores modernos para restaurá-la? Pierre Chaunu propunha como explicação dessa falta de continuidade no espírito de iniciativa o regime alimentar pouco carnívoro dos chineses! Admitamos que uma economia agrária sem pastagem é menos gulosa por terras e, com o auxílio do arroz, capaz de sustentar uma popu­lação bem mais numerosa sem emigração.

Teriam os chineses se interessado mais, e antes, pelo Oci­dente longínquo, caso fossem carnívoros? Se o leitor não está inteiramente convencido disso, que ele nos perdoe a prossecu­ção dessa tentativa de explicações com algumas reflexões sobre as condições históricas e culturais.


Por LEVY, A. Novas cartas do extremo ocidente. São Paulo: Círculo do livro, 1989.