Revoluções e Sistemas

por Leopold Senghor e Mateo Madridejos (1979), Editora Salvat; Rio de Janeiro.


As etapas da Rebelião
Não é fácil fixar uma data para o conheço dos povos colonizados contra imperialismo. Na Índia, o Partido do Congresso, formado por jovens da burguesia autóctone, foi criado em 1885; a expansão européia no continente africano ainda não tinha atingido seu apogeu. A evolução não foi uniforme e apresenta grandes diferenças entre Ásia e África: mas podem estabelecer-se alguns princípios gerais quanto as suas manifestações.
1) A resistência começou primeiro na Ásia, depois na África, em conseqüência das diferenças cronológicas da colonização; mas também há que assinalar que as sociedades asiáticas dispunham de uma tradição religiosa e cultural muito mais avançada.
2) Os primeiros protestos afetaram o império britânico: Índia, Ceilão e Birmânia. O pragmatismo britânico preconizava a evolução para o auto-governo (selfgovernment), o racionalismo francês empenhou-se em manter uma estrutura centralizada do império na base de um grande sonho de assimilação.
3) Se bem que podendo encontrar-se numerosas variantes podemos dizer em síntese que o movimento de resistência atravessou três fases:
a) Os primeiros protestos foram dirigidos pelas classes privilegiadas da sociedade indígena, produzindo-se no primeiro período da colonização. Por outro lado, estes tiveram um caráter xenófobo, de repúdio pela nova ordem com tudo o que esta implicava de mudança na sociedade tradicional. Estes movimentos afetaram fundamentalmente os senhores feudais e as massas camponesas.
b) A partir da Primeira Guerra Mundial, especialmente na Ásia, a resistência passou a ser dirigida pelas elites urbanas, os intelectuais, com o apoio da burguesia autóctone, cujos elementos não conseguiam inserir-se na sociedade dos colonos e reclamavam reformas para proteger seus interesses.
c) Generalização da resistência, a partir da Segunda Guerra Mundial, sob a direção de um movimento nacionalista, freqüentemente revolucionário, que não exigia apenas reformas, mas punha sobretudo em questão a presença da potência colonial e reclamava a independência.
4) Após a Primeira Guerra Mundial a dúvida e a vacilação começaram fazer efeito na opinião pública européia, ao mesmo tempo que se iniciava rebelião dos indígenas de algumas colônias. O ciclo infernal violência reacionária - violência revolucionária, que presidirá todo o processo descoloniza dor, teve os primeiros ecos na grande imprensa de Londres e Paris.

A Sociedade das Nações
O período entre as duas guerras foi essencialmente contraditório, como o demonstra a política praticada pela Sociedade das Nações. Os Quatorze Pontos do presidente Wilson, que foram apresentados como os princípios para «uma paz justa e duradora» sob a arbitragem dos Estados Unidos, incluíam a regulação das questões coloniais dentro de um espírito imparcial que tivesse em conta as aspirações dos povos a disporem de si próprios (autodeterminação).
A Sociedade das Nações, nascida do idealismo wilsoniano, repudiou o Princípio do colonialismo na sua acepção clássica; confiou os territórios extra-europeus dos paises vencidos a Potências mandatárias que ficavam responsáveis por eles perante a Sociedade das Nações. No entanto, não estabeleceu nenhuma vigilância sobre a administração dos mandatos, submeteu-se à política ditada pelos interesses franco-britânicos, e acabou vendo-se paralisada face à agressão da Itália fascista contra a Etiópia.
O sistema de mandatos, idealizado pelo coronel de origem britânica Jan Ch. Smuts (1870-1950) e reconhecido pelo artigo 22 da Sociedade das Nações, não teve outro efeito imediato senão incrementar o poderio colonial de certas potências. Militarmente ocupados pelas tropas aliadas, os territórios coloniais da Alemanha foram colocados sob o mandato de outras potências; para justificar esta fórmula, proclamou-se enfaticamente que os alemães tinham falhado na sua «missão civilizadora»; isto equivalia a estabelecer uma diferença artificial e hipócrita entre os diversos poderes colonialistas. Esta série de acontecimentos, que na Alemanha se chamou «a trapaça da culpabilidade colonial», contribuiu decisivamente para criar um clima hostil e revanchista ao Tratado de Versalhes. (1919). A partilha dos despojos do império alemão em África realizou-se da seguinte maneira:
a) França e Grã-Bretanha dividiram os Camarões e Togo por força da declaração de 10 de julho de 1919.
b) A Bélgica obteve o Burundi e Ruanda.
c) A Grã-Bretanha adjudicou Tanganica.
d) O território chamado Sudoeste Africano ficou para a União Sul-Africana.
Esta liquidação do império colonial alemão e a forma como se produziu teve importantes repercussões. Em face da condenação da Alemanha, ó colonialismo europeu necessitou de novas justificações, como se começasse a duvidar da «inata superioridade» do mundo ocidental e particularmente da intocável soberania das suas pretendidas unidades nacionais. Em conseqüência, as potências mandatárias comprometiam-se a governar os territórios ex-alemães como «um sacrossanto legado da civilização» até ao momento em que estes fossem capazes de se autogerirem nas difíceis condições do mundo moderno.
A importância desta e outras promessas, que os fatos posteriores se encarregaram de ridicularizar, foi que as potências ocidentais assumiram não só a obrigação de governar com justiça, mas também de conduzir os povos coloniais à maioridade econômica e política. Os dirigentes dos movimentos nacionalistas ouviram o sermão e dispuseram-se a aplicá-lo. No entanto, logo depararam com a realidade, pois tanto os franceses como os ingleses estavam convencidos que as colônias continuavam a ser suas reservas de produção e mercados potenciais.

A Revolução Russa e sua influência
O processo revolucionário desencadeado em Outubro de 1917 na Rússia teve grande importância no fortalecimento das forças que se opunham ao colonialismo e que estavam conseguindo desgastá-lo. Os partidos políticos que aderiram à III Internacional tinham que comprometer-se a defender uma política anticolonialista, na teoria e na prática. De imediato o governo bolchevique criou em Moscou uma «Universidade dos Trabalhadores do Oriente», que se dedicava à formação de uma elite capaz de impulsionar a revolução nos territórios coloniais.
O comunismo instaurado não só se propunha socavar os alicerces do capitalismo europeu, operação que considerava imprescindível para o triunfo do socialismo, mas também lutava para incorporar os povos coloniais, uma vez obtida a independência, na comunidade comunista mundial. Numerosos partidos comunistas surgiram e começaram a atuar nos países coloniais, principalmente na Ásia; nos locais onde a teoria marxista-leninista encontrava dificuldades culturais ou religiosas, como nos países islâmicos, apoiou com energia os movimentos nacionalistas, inclusive aqueles que se baseavam em classes sociais historicamente atrasadas.
A máquina de propaganda comunista, apoiada por círculos de intelectuais burgueses, denunciava vigorosamente os males do colonialismo; acentuava, com ênfase, os aspectos concretos da exploração susceptíveis de influenciar as massas: abusos dos administradores europeus, condições sub-humanas impostas aos trabalhadores, insuficiências do ensino, ínfimo nível de vida, falta de representação política, etc. O comunismo fortaleceu o nacionalismo incipiente ou transformou-se num novo messianismo de libertação política e econômica.
Mas a tomada de consciência nos países colonizados foi também influenciada por outros fatores. A Europa, que tinha exportado as idéias do povo soberano e de nação com base num território, começou a compreender que o nacionalismo era facilmente assimilado pelas elites das colônias e criava rapidamente situações explosivas.
Os acontecimentos na China, que em 1911 culminaram com a proclamação da República por Sun Yat-sen (1866-1925), foram exemplo de como os ideais de nacionalismo, socialismo e democracia calavam fundo nos povos muito afastados da tradição cultural do Ocidente. O mesmo se poderá dizer da revolução liderada por Mustafá Kemal Ataturk (1881-1938) na Turquia. A surpreendente modernização do Japão e o triunfo de suas tropas frente aos exércitos russos, em 1905, tinham demonstrado que a técnica ocidental podia ser dominada por outros povos e, portanto, a superioridade da raça branca era um mito. Excetuando a conquista da Etiópia pelas tropas italianas (1936), a expansão japonesa na China (1931-1932) e no Sueste asiático foi a única ação de agressão colonial no período entre as duas guerras.
Em 1931, sob a direção do marechal Louis Hubert Lyautey (1854-1934), especialista de colonialismo no Norte de África, celebrou-se a Exposição Colonial em Paris, com a participação inclusive dos Estados Unidos; foi o canto do cisne do esplendor alcançado pela expansão européia neste planeta.

Evolução do império britânico
De repente, o petróleo...
No período entre as duas guerras, a Grã-Bretanha, que tinha aumentado seu império com os territórios alemães, continuou obcecada pela manutenção de suas bases no «caminho para a Índia»; mas seu interesse máximo centrou-se nas riquezas petrolíferas dos países árabes que tinham estado sob a soberania do império otomano, desmembrado pelo Tratado de Sévres (1920), depois que o coronel Thomas E. Lawrence, o célebre Lawrence da Arábia, incitara os árabes à revolta contra o império. O mapa do Oriente Próximo viu-se muito modificado com os mandatos britânicos sobre a Palestina, Transjordânia e Iraque, e os mandatos franceses sobre o Líbano e Síria, e os reinos independentes da Arábia Saudita e Yemen. Os primeiros poços de petróleo da península arábica, em Damã, começaram a produzir em 1936. Apesar da intervenção das companhias americanas, a nova presença da Grã Bretanha no Oriente Próximo foi exemplo de aquisição de soberania política acompanhada de um grande benefício econômico. Segundo o economista britânico John Strachey (1901- 1963): «provavelmente foi o maior êxito financeiro conseguido pelo imperialismo».
As antigas colônias britânicas de povoamento, que se tinham transformado progressivamente em Domínios da Coroa com governos autônomos, evoluíram para a completa independência. Simultaneamente, na Conferência Imperial de 1917 acordou-se que a Índia estaria representada em todas as reuniões, bem como se prometeu desenvolver «instituições susceptíveis de cristalizarem num governo responsável», quer os «domínios brancos» (Canadá, Austrália, Nova Zelândia e África do Sul) quer a Índia participaram nas negociações do Tratado de Paz de Versalhes.
Outra Conferência Imperial (1926) deu novo título ao conjunto formado pelo Império e Domínios: British Commonwealth of Nations (Comunidade Britânica das Nações). A declaração fundamental reconhecia a existência, no seio do império, de um grupo de nações independentes e iguais em direitos, unidas exclusivamente pela pessoa dum monarca e compartilhando uma cultura. A Commonwealth teve sua formulação definitiva com o Estatuto de Westminster (1931), aprovado pelo Parlamento britânico e posteriormente aceito pelos Domínios.
A emancipação progressiva destes Domínios, sem ruptura com a metrópole, foi considerado como um êxito do liberalismo e do espírito pragmático dos britânicos. No entanto, temos que levar em conta que, nas colônias, o «liberalismo» geralmente só era praticado com a população branca; o edifício da Commonwealth seria insustentável se não se apoiasse nas chamadas «preferências imperiais», uma espécie de acordo para benefício mútuo da indústria britânica e dos interesses agro-pecuários e mineiros dos colonos brancos.
A concessão da independência, como demonstraram os casos do Iraque (1925) e do Egito (1922), foi concebida como uma maneira sutil de preservar os interesses econômicos e manter a ocupação de posições estratégicas. No entanto, o restabelecimento da monarquia constitucional e a concessão da independência ao Egito não desarmaram a oposição autóctone, precisamente porque os britânicos continuaram agarrados a seus privilégios. Ao contrário da obstinação que demonstraram no Egito, a política britânica no Iraque foi relativamente magnânima, talvez porque a monarquia de Bagdá tivesse sido seu instrumento de dominação no mundo árabe.
Apesar das reformas de 1919 (India Act ou reforma de Montagu-Chelmsford, que concedeu a eleição censitária de uma assembléia Central), a agitação nacionalista agudizou-se com a campanha de «desobediência civil» dirigida por Mohandas Karamchand Gandhi (1819-1948), que desconcertou os ingleses e levou-os a cometerem inúmeras atrocidades. A prisão de Gandhi e a cisão provocada pelos muçulmanos no Partido do Congresso (Liga Muçulmana) não melhoraram as posições dos britânicos; esses viram-se obrigados a reunir em Londres a Conferência da Mesa Redonda (1931) para estudar, com os representantes indianos, a redação de um novo estatuto. Apesar da administração colonial acatar a disputa entre hindus e muçulmanos, as reformas de 1935 apenas serviram para suscitarem uma violenta querela em Londres; os conservadores insistiam que a Índia não estava preparada para se autogovernar, os liberais e trabalhistas consideravam que as concessões tinham sido insuficientes para parar a onda nacionalista. A política do «divide e vencerás» deu seus frutos em 1940, quando a Liga Muçulmana, reunida em Lahore e presidida por Mohammed Ali Jinnah (1876-1948), adotou a chamada Pakistan Resolution, que preconizava a divisão do país. O Partido do Congresso opôs-se inutilmente a esta «vivis- secção», que imediatamente se efetuou no momento da independência.

Evolução do império francês
No império colonial francês o levantamento começou mais tarde; as primeiras chispas produziram-se também na Ásia. Na lndochina, caso típico de união artificial, após a Segunda Guerra Mundial, a burguesia autóctone tomou o papel dos antigos ilustrados, protagonistas dos primeiros protestos, no inicio do século. O partido nacional vietnamita, que agrupava intelectuais e burgueses, desencadeou a revolta nas províncias de Yen-Bay e Vinh em 1930, ferozmente reprimida. No mesmo ano foi fundado o partido comunista indo-chinês, dirigido por Ho Chi Minh (1890-1009).
Na Tunisia, os «jovens tunisinos» formaram um movimento nacionalista (1907) que foi substituído pelo partido Destour (partido da Constituição), cujo nome traduz sua principal reivindicação. O Neo-Destour, fundado e dirigido por Habib Bourguiba, reclamou a independência, que obteve em 1955.
Após a revolta de Abd el-Krim (1882-1963) em Marrocos, iniciada em 1921 e dominada em 1926 pela cooperação militar franco-espanhola, a burguesia autóctone mobilizou-se em 1930; opunha-se, em nome da unidade moral do pais, ao célebre dahir (decreto) que reconhecia oficialmente força legal aos costumes berberes. O teólogo Mohammed Allal el-Fasi (1906-1974), apoiado por intelectuais ocidentalizados, criou o Comitê de Ação Marroquino (1934), que imediatamente se transformou em partido político com o nome de al-Istiqlal (Independência).
Finalmente, na Argélia, único território do Norte de África carecido de organização política autóctone, Ahmed Messali Hadj fundou em 1937 o Partido Popular Argelino (PPA), que imediatamente reivindicou a independência.
O advento em França do governo da Frente Popular (1936) significou uma reviravolta humanitária e de espírito negociador na política colonialista. Na Indochina, por exemplo, foram libertados numerosos nacionalistas que permaneciam encarcerados desde 1930. No entanto, o único fruto duradouro deste novo espírito foram os Acordos Viénot (nome do subsecretário francês dos assuntos Externos), em 1936; em virtude destes, a Síria e o Líbano retomavam o funcionamento de suas Constituições, ao mesmo tempo que lhes era prometida a independência após um «período de prova» de seis anos.
Na África negra a evolução foi muito diferente da Indochina ou do Norte de África. Por um lado, os intelectuais estavam divididos entre os que aceitavam a realidade colonial, como Blaise Diagne (1872-1934), durante muitos anos deputado pelo Senegal à Assembléia Nacional francesa, e os que a condenavam, como Galandou Diuf; por outro lado, as massas africanas; geralmente alheias às polêmicas entre os intelectuais, congregaram-se em torno das «Igrejas negras» de inspiração cristã ou muçulmana, cujos cantos litúrgicos, na opinião de Georges Balandier, seriam uma das primeiras «literaturas de resistência». Em geral, as organizações políticas e sindicais surgidas na África Francesa eram sucursais dos partidos e sindicatos da metrópole, principalmente do partido socialista (Section Française de l'Internationale Ouvriere, SFIO), e limitaram-se a reclamar reformas. O movimento nacionalista de Madagáscar, pelo contrário, exigiu a independência desde 1929.

A crise econômica de 1929
Após a Primeira Guerra Mundial, tanto a Grã-Bretanha como a França chegaram a exercer verdadeiramente a autoridade sobre os territórios coloniais, pois dirigiam a exploração, cobravam impostos, mantinham os conseqüentes privilégios comerciais. Na África, sobretudo, milhares e milhares de nativos perderam as terras que até então ocupavam e viram-se obrigados a mudar para as «reservas» ou para as grandes cidades, aonde constituíam um proletariado miserável. Passado o período de resistência tribal, o nacionalismo ainda não tinha alcançado a força necessária para obrigar os colonialistas a mudarem de métodos.
Nestas circunstâncias a ética econômica de 1929 contribuiu para estreitar os laços entre a metrópole e as colônias, ao mesmo tempo que acentuava a impotência e contradições das burguesias autóctones. Não é seguro que o afundamento da economia das colônias, baseada na exportação de matérias-primas ou produtos em bruto, estimulasse os progressos do movimento nacionalista; mas a perda de autoridade das metrópoles na esfera internacional significou um duro golpe para a ordem estabelecida.

Diferentes sistemas coloniais
As diferenças dentro do sistema colonial tinham-se estabelecido consoante os princípios e realidades atuantes durante o período entre as duas guerras. O domínio político e a exploração econômica, enquanto traços essenciais da política colonialista, tiveram que ser matizados, em questões secundárias, pelas atitudes das potências européias. Só com estes pressupostos se pode falar de diferenças entre o sistema colonial britânico e aquele praticado pelos países continentais da Europa.
França, Portugal, Itália e Bélgica mantiveram oficialmente a doutrina chamada de assimilação; nela os indígenas estavam destinados a converterem-se em cidadãos de pleno direito, em igualdade com os da metrópole. Em última análise, as colônias deveriam evoluir até transformarem-se em províncias ou departamentos. Por exemplo, a África francesa recebeu o pomposo nome de «França do Ultramar». Esta tendência culminou teoricamente na Constituição portuguesa de 1933, e na posterior criação pelo governo de Lisboa das chamadas «províncias do ultramar», como parte integrante do Estado lusitano. No entanto, é justo assinalar que, em muitas ocasiões, Portugal levou à prática uma política multirracial que contrasta abertamente com a política discriminatória dos anglo-saxões e dos franceses.
Pelo contrário, os ingleses mantiveram o princípio de que as colônias deveriam evoluir até ao autogoverno, não sendo possível nunca que africanos e asiáticos se transformassem em britânicos por obra e graça do colonialismo. Elogiou-se freqüentemente o empirismo descentralizador britânico ao invés da política assimiladora e centralizadora da França e Portugal; no entanto a polêmica continua em aberto como conseqüência dos resultados do processo descolonizador. A catástrofe não aconteceu apenas na Argélia, mas também no Kênia, Rodésia e Nigéria (guerra da secessão em Biafra de 1967-1969). Na África negra, os franceses, com sua política de assimilação territorial, não tiveram que enfrentar o problema dos direitos políticos dos colonos brancos. O regime racista imposto pela minoria branca na Rodésia constitui um testemunho da tradição política racista do Colonial Office.
Dois historiadores britânicos, Roland Oliver e J. D. Eage, emitiram um juízo bastante severo acerca do procedimento colonial do seu país:
«A doutrina de que uma colônia era parte - ou estava destinada a fazer- da unidade política metropolitana era falsa; mas, enquanto isto se mantinha, acalmavam-se as preocupações maiores dos residentes europeus nas colônias. No entanto, o empirismo britânico levou os colonos ingleses da África oriental e central a acreditarem que seu futuro dependia de seu próprio esforço; e que se paulatinamente podiam tomar o controle dos governos coloniais recebendo-os das mãos dos funcionários do ultramar, seriam então capazes de dirigir seu destino e o de seus concidadã os africanos por um período indefinido; pura ilusão [...]. A política africana da Grã-Bretanha gerou votos e representantes nas assembléias legislativas dos governos coloniais, o que os animou a embarcar numa esperança da luta pelo poder, sem que tivessem talvez uma idéia clara para onde tudo aquilo os conduzia.»

Irrupção dos colonizados na cena internacional
A Conferencia de Paz celebrada em Paris (1919) é o marco da primeira aparição dos colonizados na vida política internacional. Uma delegação da Índia participou nas negociações, se bem que incluída na representação do império britânico. O Dr. William E. B. du Bois (1868-1967), considerado «pai do panafricanismo», apresentou-se na capital francesa imediatamente após o armistício para reclamar, de acordo com os princípios proclamados pelo presidente americano Wilson, o direito dos negros a disporem de si mesmos.
Graças ao apoio de Georges Clémenceau, então chefe do governo francês, 57 delegados negros, chegados de diversas colônias britânicas, francesas, dos Estados Unidos e das Antilhas, puderam reunir-se no Congresso Panafricano de Paris (1919). No final das sessões, a reunião dirigiu um memorandum à Sociedade das Nações em que exigia, entre outras coisas, que as colônias alemãs fossem colocadas sob tutela internacional; esta petição foi atendida, se bem que não se possa assegurar que isso tivesse acontecido em virtude das pressões destes primeiros guias da emancipação dos povos colonizados.
A partir deste momento, o panafricanismo impulsionou o nascimento do nacionalismo africano. No IV Congresso Panafricano, celebrado em Nova York (1927), com a assistência de 208 delegados procedentes de doze países, reivindicou-se o direito dos africanos a serem consultados pelos governos das metrópoles que dirigiam seus assuntos. Algumas outras reivindicações, com várias formulações, ainda chegaram aos nossos dias: direito dos negros de África à exploração da terra e recursos minerais dos seus países; uma administração da justiça que tivesse em conta as condições de cada país, inclusive a nomeação de juízes autóctones; extensão do ensino primário e desenvolvimento do ensino técnico, etc. Por último, preconizavam o desarmamento mundial e a supressão da guerra como meio de resolver os problemas internacionais, aspirações estas que posteriormente seriam reconhecidas pelas Nações Unidas.
Uma das primeiras denúncias internacionais da dominação colonialista foi feita na Conferência de Paz celebrada em Bierville (1926); a delegação indiana apresentou um informe onde se denunciava, entre outras coisas, «a união das potências européias para explorar a Ásia e subordinar os novos povos», além de proclamar o colonialismo como fator permanente de incitação à guerra entre os povos.
O governo bolchevique organizou as reuniões anti-imperialistas de Baku (1920) e Irkutsk (1921), com participação de representantes dos povos oprimidos. Em ambas foram divulgadas consignas para uma insurreição geral anticolonialista. A Liga contra o Imperialismo, criada em 1924, celebrou em Moscou o I Congresso dos Povos Oprimidos, em que participaram delegados indianos e das colônias asiáticas da França e Holanda. O Congresso de Bruxelas (1927), segundo Sri Pandit Nehru (1889-1964) e Ahmed Sukarno (1901-1970), foi a «primeira expressão passional duma idéia que iria amadurecer em Bandung». Este congresso foi financiado pela China e México e apoiado por algumas personalidades políticas, literárias e científicas européias, entre elas o físico Albert Einstein (1879-1955) e o escritor Romain Rolland (1866-1944). Muitos delegados expressaram uma desconfiança clara face aos Estados Unidos, país que começava a ser considerado como o eventual sucessor do imperialismo franco-britânico.

O princípio do fim: a Segunda Guerra Mundial
A Segunda Guerra Mundial assinalou o princípio do fim do colonialismo na sua concepção e realização clássicas. A partir de 1945, as forças latentes que tinham estado a socavar os alicerces do sistema colonial entraram manifestamente na história. A hegemonia política, econômica e cultural da Europa pertencia ao passado, ficara enterrada nos campos de batalha. As mudanças que se avizinhavam estavam destinadas a «transformar a face do mundo».
Na verdade, o rutilante edifício colonial não era muito sólido. Seu derrube foi muito mais rápido do que se esperava; inclusive nos territórios onde as potências coloniais travaram sangrentos combates antes de arriar suas bandeiras. Nos paises da Ásia invadidos pelo Japão, os europeus, particularmente os britânicos, deixaram-nos praticamente sós perante o invasor; a resistência à dominação japonesa, onde existiu, adotou a forma de movimento nacionalista e não de defesa das posições da potência colonial.
O declinar da Europa não era já uma especulação, mas uma realidade assustadora. Quando a vitória chegou, no meio de ruínas em que tinham ficado quase cem milhões de cadáveres, foi impossível, aos "de cima" manter a boa consciência. Escrevia Albert Camus (1913-1960) sintomaticamente em 1945: «A gravidade do problema argelino não radica apenas no fato dos árabes terem fome, mas na sua convicção de que esta fome é injusta.» Os dirigentes dos países colonizados estavam já persuadidos de que a miséria não era um castigo divino ou uma fatalidade mas uma conseqüência de sua inferioridade técnica e de sua falta de autonomia política. A luta contra o colonialismo funda-se, acima de tudo, na reivindicação do protagonismo histórico da própria identidade nacional, até então desqualificado pelos critérios do dominador estrangeiro.
Inúmeros fatores contribuíram para o afundamento dos impérios coloniais. Uns relacionam-se com as metrópoles, outros com os povos colonizados, mas todos atuaram numa conjuntura internacional especialmente favorável.

A situação nas Metrópoles
A Grã-Bretanha e a França, se bem que vitoriosas, ficaram profundamente debilitadas com este grande conflito bélico; os seus governos tiveram que conceder prioridade aos problemas de sua reconstrução. Desde o primeiro momento viu-se, claramente que a direção econômica do mundo ocidental passara para as mãos dos Estados Unidos (acordos de Bretton Woods, 1944). As tensões sociais desencadeadas pela guerra e a péssima situação econômica, com o conseqüente progresso dos comunistas e outras forças de esquerda, obrigaram as potências coloniais a preocuparem-se, prioritariamente, com a manutenção da ordem interior e em atenuar, mediante importantes reformas sociais, as ameaças de subversão interna do sistema.
Por outras palavras: as potências coloniais não podiam restabelecer sua autoridade mediante o emprego da força; onde o tentaram - lndochina, Indonésia, Malásia - o fracasso foi inevitável. Por outro lado, as reformas, as mudanças constitucionais, apenas serviram para animar os indígenas a prosseguirem a luta pela independência.

As mudanças nas colônias
A Segunda Guerra Mundial provocou a mobilização de centenas de milhares de colonizados, que combateram ao lado das tropas aliadas por um ideal de liberdade e justiça contra a tirania nazi e fascista. Simultaneamente, as elites nacionalistas viram fortalecidas sua capacidade de manobra e conseguiram novos apoios entre as massas, crescentemente urbanizadas mercê do sistema econômico imposto pelo colonialismo.
As relações econômicas com a metrópole foram perturbadas, o que oferecia uma nova possibilidade de ruptura do pacto colonial. Pela primeira vez, os dirigentes dos povos colonizados tiveram a sensação confortável de não estarem sós; sentiam-se apoiados pela solidariedade de um mundo novo, o futuro «Terceiro Mundo», inclusive por algumas forças políticas e sociais dos países dominadores.