Tentativas Ocidentais de aproximação do Oriente

por Jean Riviere. (1979), Editora Salvat, Rio de Janeiro


Desde o século passado que se realizaram, de ambos os lados, tentativas de diálogo, simultaneamente interessantes e variadas. Alguns ocidentais, ou, grupos de ocidentais, quiseram dar a conhecer o Oriente ao Ocidente e alguns orientais tentaram transmitir ao Ocidente mensagens, experiências, e convicções para se dar a. conhecer à Europa e mostrar a verdadeira face da sua cultura. Por isso é interessante analisar estas tentativas.

A Sociedade Teosófica
O primeiro grupo ocidental que se propôs analisar o Oriente foi a Sociedade Teosófica, fundada em Nova York, em 1875, por Helena Petrova Blavatsky (1831-1891), de nacionalidade rusga, pelo coronel Henry Steel Olcott, dos Estados Unidos e alguns amigos. O objetivo desta Sociedade era o estudo dos poderes secretos do homem, assim como das forças da Natureza e a procura da Verdade. Olcott foi o presidente até à sua morte (1907) e sucedeu-lhe Annie Besant (1847-1933). De Nova York, a Sociedade seguiu para a Índia (1879), onde, durante algum tempo, trabalhou com a organização Arya samaj, fundada por Dayananda Sarasvati (1824-1883), que em seguida analisaremos. Porém, as sociedades separaram-se e em 1882 instalou-se só em Advar, bairro de Madrasta, cidade do sul da Índia que, desde então, foi a sede central da sociedade.
A sua história tem sido muito agitada. Não têm faltado discussões internas, ramos dissidentes e processos. Depois da morte de Blavatsky, William Q. Judge fundou, em 1895, em Pont Loma (Califórnia), uma sociedade teosófica americana, que se separou da sociedade mãe; o caso de Jiddu Krishnamurti, nascido em 1897, promovido por este novo ramo a instrutor do mundo, em 1910, deu origem a um processo em Madrasta. Numerosos membros separaram-se de Adyar, como Rudolf Steiner (1861-1925), filósofo austríaco que em 1912 saiu da sociedade de que era presidente da seção alemã e que fundou, em 1913, o Goethanum de Dornach, perto da bsiléia, uma escola da ciência espiritual. Krishnamurti deixou a sociedade em 1929 e começou a série de conferências e de livros que o tornaram famoso.
O aparecimento e especialmente o trabalho de divulgação que a Sociedade teosófica realizou foram muito importantes na sua época: as doutrinas divulgadas por Blavatsky constituíam uma curiosa mescla de orientalismo, de cabalas ,judaicas e de gnosticismo. O Prof. Paul Oltramare escreveu que a teosofia moderna provém da tradição antiga, do judaísmo e do Renascimento. Baseava-se nos grandes princípios do karma e da transmigração, extraídos das doutrinas hindus, misturados com alguns conceitos do budismo tibetano, e pretendia englobar todas as religiões numa sÍntese superior. Mais do que discutir sobre o valor duvidoso destas teorias, é melhor sublinhar que a Sociedade Teosófica divulgou, no Ocidente, um aspecto do Oriente, suscitou vocações de futuros orientalismos e apoiou a aproximação cultural de ambas as civilizações; além disso, publicou também numerosas obras, cujo valor científico, filosófico e religioso são de grande importância. As Edições Adyar, de Madrasta, apresentam, não obstante, um catálogo de traduções de textos e reedições de manuscritos sânscritos, muito importante. Além disso, o trabalho da Sociedade pela emancipação cultural da Índia foi considerável; a Universidade hindu de Benares deve-lhe sua existência.

Tradicionalismo de René Guénon
Analisaremos agora uma atitude para com o Oriente, totalmente diferente daquela que antes expusemos. Não se trata de traduções, de interpretações ocidentais por vezes fantásticas das doutrinas orientais, nem de uma fácil vulgarização, mas sim de uma filosofia que influenciou sobremaneira a nossa época e que é de uma originalidade total. René Guénon deu a conhecer a metafísica oriental no que ela tem de mais autêntico e valioso. O papel de Guénon foi importante, devido aos esforços que realizou para apresentar a doutrina hindu, o espírito daquilo que denomina a tradição viva, contra as idéias "modernas" que incansavelmente combateu toda a sua vida.
René Guénon (1886-1951) orientou definitivamente a sua vida em 1906, quanto contava vinte anos. Naquela época, o ocultismo imperava na França, que tinha como chefe indiscutível "Papus", pseudônimo do Dr. Gerard Encausse, fundador de uma École Herméthique em que um grupo de ocultistas célebres dava lições: Barlet, Phang, Sedir. Este foi o ponto de partida de toda a evolução espiritual posterior a Guénon. Metódico e absoluto, seguiu ali os cursos de hermetismo e conseguiu ser admitido em todas as organizações a ele ligadas, como a Ordem Martinista, que se considerava sucessora da antiga Ordem dos Elus Coens, fundada no século XVIII pelo judeu espanhol Martinez de Pascoally e que no seu seio tinha contado com Louis-Claude de Saint-Martin (1743-1803), o "filósofo desconhecido". Também conseguiu ser admitido na Loja Maçônica Humanidade, do rito nacional espanhol, em Paris, e na Maçonaria de Swedenborg. Também pertenceu à igreja gnótica. Esta transbordante atividade nos meios ocultistas no período de 1906 a 1909 permitiu a Guénon conhecê-los a fundo e, quando necessário, julgá-los severamente. Duas pessoas orientaram definitivamente sua vida: Albert Puyou, conde de Pouvourville (1862-1939), antigo administrador colonial de Tonquim, que tinha recebido uma iniciação taoÍsta no Extremo Oriente, a quem simbolicamente chamavam "Matigioi", que serviu de pseudônimo para as suas obras. Em 1908-1909, Guénon entrou em contacto com alguns orientais, que lhe proporcionaram um conhecimento profundo das doutrinas da Índia e do Extremo Oriente; pode se dizer que aos 25 anos estava na posse dos elementos essenciais para o seu trabalho de orientalista. O momento crucial da sua evolução foi o conhecimento, em 1910, de um sueco convertido ao sufismo, John Gustav Agelii (1869-1917), cujo nome árabe era Abdul-Hadi. Por seu intermédio, entrou em contacto com o pensamento esotérico sufista e iniciou-se, em 1912, no islamismo no ramo sadilita, fundado no século VII da Hégira pelo xeque Adul-Hassan ash Shadili, a que pertencia Abdul-Hadi, seu iniciador.
A nosso ver, esta iniciação no islamismo explica o posterior desenvolvimento da vida de Guénon. Ocupou-se nas suas diversas e numerosas obras das doutrinas da Índia, das tradições gnósticas, herméticas e maçónicas, do simbolismo cristão, embora toda a sua obra correspondesse. à sua invariável posição de defensor do espírito original da tradição. Guénon foi quem primeiro apresentou no Ocidente a metafísica do Vedanta hindu, tal como o havia feito um Shankaracharya, com a mesma atmosfera pura e glaciar própria dos cumes celestes. Mas seu centro foi o Islã; tinha recebido a Barakah, a bênção e o poder espiritual, do xeque Elish Ahder Rahman el Kehir, chefe do Mudhhat Maliki, uma das escolas jurídicas da Universidade AI-Azhar, no Cairo. Tratou das demais tradições com uma compreensão extraordinária, em que freqüentemente se vislumbra o reflexo da alta metafísica muçulmana, mas o seu "coração" esteve sempre no Cairo, onde viveu, a partir de 1930, num retiro quase total, até à sua morte, em 1951. Limitou-se ali a ser um filósofo muçulmano, conhecido pelo nome de xeque Ahdel Wahed Yahia e ali repousa - escreveu o seu amigo Paul Chacornac - no cemitério de Darassa "o seu corpo envolto em linho descansando sobre a areia com o rosto voltado para Meca".
Para quê falar do seu desejo frustrado de ir à Índia, quando o Cairo era para ele o lugar mais santo? Aqueles que receberam uma autêntica iniciação oriental sabem que é o único lugar que preenche as suas aspirações espirituais, o único onde querem morrer.
É interessante pormenorizar esta biografia, porque se trata de uma vida fora de série entre os orientalistas. René Guénon foi um dos grandes autores europeus, que teve um verdadeiro conhecimento do Oriente e abriu vias de aproximação com a Ásia. Tem-se criticado o tom irritante, severo, desdenhoso de sua obra; por vezes, foi injusto e parcial nos seus juízos, fato que seus amigos estranhavam, porque sua vida privada era de um homem doce, atento e servil. Mas sua atitude intelectual era absoluta, e seu rigor inflexível; e deve se reconhecer que suas críticas à civilização técnica do mundo ocidental e os perigos que receou foram visões, tão exatas como corretas, da situação atual.
Entre suas principais obras devem-se destacar: “Introduction generale a l'etude des doctrines hindoues” (1921); “Orient et Occident” (1924); “L'homme est son devenir selon le Vedanta” (1925) e “La Métaphysique orientale” (1939). Nelas Guénon considera que o Ocidente, depois da reforma protestante, caiu num estado de anarquia intelectual que roçava a barbárie e fez um chamamento a uma certa elite ocidental capaz de corrigir a situação e encontrar o sentido profundo da tradição, que o Ocidente havia perdido.

"Ashram cristão" na Índia.
Se a Sociedade teosófica serviu para identificar mais sobre o Oriente com o ocultismo, e a obra de René Guenon ressaltava a tradição primordial e eterna, a do sacerdote Jules Monchanin (1895-1957) iniciou um grande empreendimento em nome da fé cristã. Ao tentar converter a Índia ao catolicismo quis de igual modo dar a conhecer ao Ocidente as doutrinas orientais. Desde a sua infância atraído pela Índia, ingressou, em 1918, na “Société des Auxiliaires des Missions”, fundada pelos padres Lebbe e Boland, para ajudar os bispos autóctones. Como auxiliar de missões enviado ao bispado de Tiruchirapalli (no Sul da Índia) de 1939 a 1949, foi pároco das aldeias indianas. No entanto, esse trabalho de missionário não o satisfez; penetrou profundamente no pensamento indiano, que ad- mirava. e tentou estabelecer um diálogo com os mestres espirituais hindus; tentou viver como um eremita à maneira indiana. fundando um ashram cristão, espécie de mosteiro, seguindo o modelo de outros ashram hindus. O seu sonho realizou-se em 1949, com a ajuda do padre H. Le Saux, beneditino francês que desejava implantar na Índia o espírito monástico na linha de São Bento, mas conforme à maneira de ser indiana. Fundaram um mosteiro em Kulitalai, chamado a "Missão de Saccidananda", termo veda que simboliza o "Absoluto". As perseguições por parte das instituições eclesiásticas não se fizeram esperar, por não ser compreendido o sentido desta nova fundação, que recordava as antigas tentativas do sacerdote Roberto de Nobili (1577-1656), na Índia. Os contactos espirituais com os hindus foram numerosos e interessantes e os seus apontamentos e cartas publicados em 1964 com o título de Écrits espirituels (Escritos espirituais) são um testemunho único da experiência, em plena Índia, de um sacerdote católico conhecedor do hinduísmo, que praticava a vida dos ascetas e mendigos religiosos hindus e estava em contacto com indianos de todas as culturas e classes sociais. Em 1917 Monchanin, gravemente doente, foi transportado para Paris, onde morreu. É interessante salientar o resultado desta experiência de aproximação ocidental ao Oriente unicamente por meio da fé cristã, porque, de fato, foi quase nulo. Como acontece nas missões da Ásia, houve conversões nas castas inferiores mas a elite espiritual e intelectual hindu manteve suas próprias posições religiosas. Os contactos espirituais foram abundantes, interessantes e variados; o interesse suscitado nos hindus pelos sacerdotes cristãos, vestidos de monges indianos, foi grande, pleno de simpatia e de respeito, mas tudo se resumiu a isso. Conforme Monchanin disse nas suas notas: "Quanto mais convivo com os hindus, melhor compreendo o abismo que nos separa...Veneram e amam Cristo, colocam-no entre os grandes, mas não querem reconhecê-lo como único... Estão convencidos de possuírem na sua religião a forma mais elevada do sagrado. Quanto mais religiosos são, mais longe estão de Cristo...Não sentem atração pela Igreja..Horroriza-os qualquer conversão, visto que a consideram traição e covardia. O Cristianismo, religião do Tempo, da História, da Encarnação, parece-Ihes uma sabedoria imperfeita... Reconheço a minha ineficácia. Os hindus conscientes do seu hinduísmo, principalmente os brâmanes, não se inquietam...Não sei de que modo lhes poderei fazer chegar o Evangelho de um Cristo único (que lhes parece despropositado). Quanto mais santos são, mais afastados estão...Espiritualmente, os hindus não são inquietos."
Este testemunho parece-nos muito importante porque resume, em poucas linhas, o problema da aproximação ocidental religiosa ao Oriente e explica as causas profundas do fracasso das missões cristãs na Ásia, quer seja no Islã, na Índia, ou na China; se as castas inferiores, as tribos primitivas e as camadas sociais economicamente débeis se convertem para obter um status social mais elevado - não nos estamos referindo as "conversões do arroz" , obtidas em troca de alimentos, que talvez aumentem as estatísticas do hábito, mas não são significativas; a elite intelectual religiosa asiática fecha-se perante uma forma religiosa mediterrânica saída do núcleo judaico-cristão bíblico, que lhes é totalmente estranho. Na Ásia não há nem pão, nem vinho, mas somente arroz. Isto fala por si.

Tentativas universitárias de tipo humanista
As tentativas propriamente humanistas não implicam nenhum afã de propaganda, de conversão, de controvérsia político-social, mas sim, simples- mente, o desejo de melhor e mais completamente conhecer o Oriente.
A partir do século XVIII houve uma grande plêiade de sábios, investigadores e orientalistas europeus, que revelaram ao Ocidente os tesouros literários, filosóficos e religiosos da Ásia. O já citado Raymond Schwab dedicou-lhes uma obra: “La Renaissance orientale” (O Renascimento Oriental) onde, com grande erudição fez reviver as épocas heróicas dos estudos sânscritos, chineses, persas, egípcios e assírios. O budismo tomou-se moda e já se demonstrou que se tratou de um budismo fantástico, mal conhecido e mal interpretado; a Índia revelou a sua rica literatura épica e religiosa; a China deu a conhecer as suas tradições e os seus textos milenários; a Ásia Central descobriu o Lamaísmo e o Oriente Próximo ofereceu suas escavações e seus tesouros arqueológicos. A.s cátedras multiplicaram-se e a maior parte das universidades ocidentais rapidamente iniciaram cursos de orientalismo.
Hoje em dia o conhecimento do Oriente é considerado nos Estados Unidos como de absoluta necessidade e centenas de estudantes freqüentam cursos sobre diversas disciplinas orientais. É necessário assinalar que este ensino tem um objetivo prático: sociológico, econômico, político e histórico. Tanto o aspecto religioso como o filosófico, são estudados nas suas incidências sociológicas.
Na Europa, os cursos de orientalisno são mais atenuados conforme as tradições acadêmicas. Por isso em certos países, como na Alemanha, a filologia ocupa o primeiro lugar e os cursos que atualmente existem são essencialmente lingüísticos, com a interpretação filológica dos textos. No entanto, as faculdades abriram suas portas à filosofia, à história e à arte. Na França, vários institutos especializados coordenam e controlam os trabalhos e o ensino relativos às grandes culturas orientais; o “College de France” organiza ciclos a cargo de especialistas internacionalmente conhecidos. Na Grã-Bretanha, devido à sua vocação colonial, existe um campo de estudos muito mais amplo e profundo. O mesmo sucede na União Soviética, onde as minorias étnicas asiáticas proporcionam aos investigadores possibilidades etnográficas únicas. Em Itália realizam-se nos institutos trabalhos notáveis sobre as culturas orientais. A Bélgica, os Países Baixos e a Suíça inclinam-se para o aspecto humanista e literário.
Os especialistas dos diversos campos de orientalismo estão conscientes da dificuldade e da delicadeza da sua tarefa. O diretor do Instituto de Estudos Islâmicos da Universidade de McGill de Montreal (Canadá), Dr. W. Cantwell Smith, escreveu: "Alguns dos problemas que se apresentam são tão sutis quanto profundos. Nem srmpre é fácil apreciar e compreender os valores ou as idéias de uma cultura diferente. Por vezes, é impossível fazê-lo sem de antemão modificar nosso ponto de vista. Uma transformação deste tipo pode ser difícil, e até mesmo dolorosa". Encontramo-nos longe dos cantos de vitória ao progresso de há alguns anos e da comiseração superior e altaneira com que alguns orientalistas julgaram então o pensamento asiático. Uma evolução profunda e rápida teve lugar nos meios universitários ocidentais, em que se distingue uma interessante mudança de atitude. Agora os universitários admitem o valor espiritual daquilo que estudam; as culturas asiáticas tinham sido quase sempre encaradas como objetos mortos e dissecados sob o microscópio dos especialistas. A sua descrição era minuciosa, precisa, exata, mas sem vida, sem uma compreensão íntima, sem o amor que permite aprofundar qualquer coisa. Passou a época em que um Auguste Barth, um Louis de La Vallée - Poussin, orientalistas eminentes, escreviam que era uma loucura trocar o pão da civilização ocidental pelo narcótico dos bhiksus budistas. O pão ocidental tornou-se amargo e amoleceu e as técnicas de meditação budista dos monges asiáticos são estudadas por comissões médicas, em laboratórios de psicologia. Esta geração de orientalistas europeus desapareceu, mas deixou um conjunto de traduções, de textos e de estudos notáveis, que formam uma biblioteca de trabalho de primeira ordem.
A geração universitária atual parece muito diferente da precedente; está muito mais aberta às realidades espirituais que são estudadas sem as barreiras dogmáticas e o espírito conservador que caracterizou seus antecessores. Estes especialistas, não só conhecem os traços das culturas que analisam, como também respeitam a sua integridade e seus conhecimentos secretos. Felizmente, acabaram-se as batalhas apologéticas; durante muito tempo houve, por trás de cada orientalista, ou um racionalista que utilizava a filosofia mental e suas formas religiosas como uma alma de combate anticlerical, ou um crente que sistematicamente reduzia a metafísica asiática e o valor próprio da sua espiritualidade, para oferecer uma apologia triunfal, baseada na tradição e na grandeza do espírito europeu, os trabalhos dos orientalistas já não se assemelham a juízos de valor, o que parece muito correto.
Entre orientalistas da "nova vaga" deve-se mencionar, um pouco ao acaso, os especialistas Arthur Avallon (John Woodroffe), que deu a conhecer ao Ocidente e à própria Índia o tantrismo; Theos Bernard, que viveu na Ásia o hatha-Yoga, de que fez uma tese universitária e recebeu uma educação lamaica no Tibete; Lilian Silburn, que estudou no local o shivaísmo de Cachemira e escreveu estudos admiráveis sobre Abhinavagupta; Charles Luk, que estudou na prática as técnicas da doutrina Ch'an do budismo chinês; André Padoux, cujos trabalhos sobre a "Palavra" e a metafísica tântrica são únicos; o lama Angarika Govinda, de origem européia, que recebeu uma iniciação no Tibete, viveu no Himalaia e é autor de textos reveladores sobre a mística lamaica, e o Prof. Henri Corbin, da Sorbonne, que conhece a fundo o sufismo e cujos trabalhos sobre lbn al-Arabi são de uma densidade admirável. Não há neles nenhum desejo de comparar ou de converter, somente a alegria de expor uma luz recebida, um canto espiritual que a justo título os exaltou, uma convicção metafísica cujo valor apreciaram.
Este esforço científico do orientalismo ocidental permitiu que o Oriente se desse conta de muitas riquezas culturais que tinha esquecido ou pedido. Buda foi de novo revelado numa Índia que tinha perdido o budismo após depois da ocupação muçulmana; os lugares santos budistas, os centros de veneração durante centenas de anos para todos os fiéis da Ásia, foram descobertos, desenterrados e valorizados pelos especialistas. As velhas tradições, a gloriosa história dos tempos passados, os veneráveis textos esquecidos foram trazidos a luz graças ao trabalho desinteressado de investigadores ocidentais. Nas escavações arqueológicas descobriram-se culturas esquecidas e peças de arte de grande valor. Sob este aspecto, o Oriente pode mostrar-se ao Ocidente. Este esforço de investigação científica é agora continuado por especialistas da Índia, China e do Japão, quase sempre em colaboração com sábios europeus, embora os métodos de trabalho, as técnicas de escavação, os sistemas de tradução sejam de origem ocidental.

O Projeto Oriente - Ocidente da UNESCO
Uma exposição das tentativas da aproximação ocidental com o Oriente seria incompleta se não se citassem os esforços realizados recentemente pela UNESCO para conseguir uma melhor compreensão desses dois "mundos". Foi chamado o "maior projeto Oriente - Ocidente" e surgiu na IX Reunião da conferência geral da UNESCO, celebrada em Nova Delhi, em dezembro de 1956. Uma resolução declarou: "a compreensão entre os povos, condição necessária para a colaboração pacífica, deverá fundamentar-se num conhecimento e numa apreciação profunda das culturas recíprocas...e é urgente que a avaliação mútua dos respectivos valores aumente entre os povos e as nações do Oriente e Ocidente".
Considerada a constituição , os métodos e os princípios da UNESCO, não se podia esperar um trabalho de investigação científica sobre as culturas estudadas; a política de organização internacional não consiste em formular juízos formais sobre as diversas civilizações , representadas no seu seio, o que limitou sua atividade e suas possibilidades. Os seus objetivos foram simplesmente conseguir uma compreensão recíproca e mais profunda das características da vida e da cultura dessas duas grandes zonas civilizacionais. Propuseram-se desenvolver os trabalhos de especialistas, melhorar a educação escolar, multiplicar os contactos e os intercâmbios pessoais, utilizar os meios de informação mais eficazes , obter ajuda nas organizações dedicadas à juventude, facilitar as traduções de obras literárias e a difusão das artes plásticas e da música. Os resultados práticos deste Projeto foram notáveis: exames críticos dos manuais de geografia dos países membros; criação de centros regionais de documentação (Nova Delhi, em 1962; Tóquio em 1961 e Teerã em 1964); intercâmbios entre museus; exposições; traduções de obras representativas do pensamento oriental (130 volumes em 16 coleções diferentes); emissões de propaganda por rádio, televisão e cinema: publicação de numerosos artigos em jornais e revistas e criação de bolsas de viagem, de estudo e investigação. Pensamos em que a questão deve ser abordada de uma forma mais profunda e sistemática, mas este esforço da UNESCO permitiu que se conhecesse melhor culturas que se ignoravam ou se desprezavam e, sobretudo, levantou-se o problema.